Manuscritos estocados em Fevereiro do Anno 2007 de Nosso Senhor
28 de Fevereiro de 2007

Fragmentos do Evangelho de Simão

Fé e Crença

Aqui sentados e bebendo vinho, como crer que estamos transfomando o mundo? (Simão, 2:3a)

27 de Fevereiro de 2007

Turbilhão

Manuscritos

– Preciso tomar um banho – ela diz, negando subitamente, com uma virada de rosto de meros dez graus, o abrigo que eu desenhara para ela.

Sento-me na cama, limpo casualmente os cantos internos dos olhos com as pontas dos dedos e olho ao redor.

– Deve haver uma jacuzzi por aqui – levanto-me, percorrendo burocraticamente os recantos do quarto. – Se não, tem um banheiro no fim do corredor.

Minha nudez não parece perturbá-la ou deleitá-la em nenhum sentido. Isso me incomoda um pouco, mas observo para mim mesmo que um momento atrás ela estava chorando. Não está mais: sua expressão solidificou-se num mármore de absoluta gravidade. Faço uma anotação mental para escolher da próxima vez um quarto com cuja geografia eu esteja familiarizado.

– Achei – anuncio, um pouco mais empolgado do que deveria. Um gesto e a água já está jorrando por todos os canais da hidromassagem. Estendo a mão e o corpo na direção da cama. – Cassandre, venha, por favor.

Nesse momento o celular toca na minha calça, que está em alguma superfície do quarto que não sei de imediato precisar. Hesito por um instante, e no instante seguinte já não faz diferença. Cassandre está contornando a cama na direção da banheira e o momento passou.

Jogo a calça sobre a cama. A radiância azul da telinha me informa que é Glenn Miller.

– Alô.

– Patife, estou esperando você me ligar há dias.

Deslizo devagar a mão direita sobre os olhos fechados. Ele provavelmente está certo.

– Desculpe, muita coisa aconteceu nesse meio tempo.

– Estou contando que sim. Falou com o Cortiano?

Caminho até a porta envidraçada da varanda e afasto as cortinas. As nuvens do crepúsculo emaranham o céu de laranja e violeta.

– Falei, falei. Fomos juntos ao Panteão, depois fomos tomar chá na chácara de um amigo dele.

– De la Mettrie? O pugilista?

Abro uma das folhas da porta, abraçado imediatamente pela brisa. Glenn Miller conhece De la Mettrie. Nunca sei dizer o que ele não sabe.

– Você tomou então o famoso chá de pêssego de Marie? – ele insiste.

– Muito pouco.

Glenn espera que eu preencha o silêncio que se segue, mas não digo nada.

– O que Cortiano queria?

Finalmente a pergunta. Antes, porém, que eu junte as palavras para esquivar-me dela, ele arremete:

– Você está em casa?

– Estou. Mas não –
– Não demora estou aí.

– Espera, não – baixo imediatamente a voz. – Não venha, Glenn, agora não posso.

– Tem alguém aí?

– Tem.

– Quem?

Viro-me um momento para trás e vejo os cabelos de Cassandre ensopando os azulejos ao redor da plataforma da banheira. A cabeça está inclinada para trás, os olhos fechados com uma inclemência de esfinge. Ando um passo para fora do quarto e apóio um braço no peitoril da varanda.

– Não posso dizer pelo telefone.

– Tem a ver com o que Cortiano queria?

– Glenn, não posso.

A voz dele assume a gravidade que, percebo só agora, ele estava tentando contornar.

– Preciso falar com você, Ciro. Falando sério. Tenho absolutamente de falar com você pessoalmente.

– Agora nenhuma chance, amigo velho. Sobre o que é?

– Não posso falar pelo telefone.

– Tem a ver com o bilhete de Sahid?

– Não posso dizer pelo telefone.

E se cala, nossa conversa tendo dado um círculo completo. O telefone ao mesmo tempo nos une e nos separa.

Eu, que tenho motivos de sobra para me resguardar, escolho assumir a dianteira.

– Glenn, não tenho como. Eu ia mesmo te ligar. Vou ter de sumir por uns dias, preciso que você segure a minha onda no Bureau…

– Tem.

– Tem o quê?

– Tem a ver com o bilhete de Sahid.

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26 de Fevereiro de 2007

Amizade, ego e blogagem

Goiabas Roubadas, Sociedade

Sobre os méritos relativos dos relacionamentos pessoais e epistolares, imagino que tudo seja questão de temperamento individual. Algumas pessoas tem uma psicologia que as torna mais inclinadas a contatos sociais em primeira mão, enquanto outros crêem que muita sociabilidade traz mais irritação do que interesse, e preferem por essa razão limitar seus contatos à troca impessoal de idéias que possibilita a correspondência à longa distância.

Na verdade, os seres humanos diferem muito mais do que comumente se pensa, de modo que muitas coisas consideradas popularmente como sendo simples e universais são na verdade altamente complexas e infinitamente variadas. Isso é especialmente verdadeiro sobre os motivos e emoções por trás das afinidades e relacionamentos humanos. Uma tradição pouco inteligente postula uma única força mística chamada “amizade”, e tece todo um ciclo de sentimentalidade mítica ao redor dela e de suas supostas propriedades, quando na verdade não existe essa coisa única; praticamente cada caso de relacionamento e apreço humano deve-se a alguma combinação distinta e individual de muitos elementos heterogêneos.

Se tomarmos aleatoriamente dois casos de relações de amizade, apreço ou interesse mútuo, há grandes chances de que os motivos e emoções por trás de cada caso sejam totalmente distintos, quando não diametralmente opostos. Apenas o aspecto externo – o fato de que surge alguma espécie de afinidade – é similar, porém a partir dessa enganadora similaridade um enorme número de absurdas generalizações folclóricas é desenvolvida.

Pelo que muitos são esplêndidos correspondentes, porém enfadonhos e arrogantes pessoalmente.

Em grande parte a amizade é um mecanismo de glorificação do ego. As pessoas buscam as outras para que sirvam como uma espécie de espelho ou caixa de ressonância adulatórios, de modo que pareçam valorizadas a seus próprios olhos. A pessoa mediana acaba adquirindo um senso de inferioridade a não ser que tenha uma audiência que a encoraje e aplauda – do que provem grande parte do espírito gregário da humanidade.

[. . .]

No caso da pessoa cujo interesse primário é a troca de idéias e impressões, há maiores chances de que encontre mais facilmente espíritos afins através da correspondência, já que o que as pessoas normalmente colocam em sua correspondência são idéias e impressões. Não que não se possa eventualmente encontrar pessoas assim em relacionamentos face a face, mas podem ser encontradas de forma mais rápida e menos onerosa por carta, já que a maior parte das pessoas lida principalmente com idéias quando está escrevendo, mas volta-se em grande parte para outros elementos em conversas diretas (pelo que muitos são esplêndidos correspondentes, porém enfadonhos e arrogantes pessoalmente).

H. P. Lovecraft, recluso e compulsivo epistoleiro,
em carta de julho de 1934 a Helen V. Sully

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Na economia da mídia e das celebridades, todo mundo quer ser reconhecido publicamente com um nome estampado na testa. O que a maioria dos blogs pessoais acaba fazendo, por exemplo, não é tornar pública a exceção e a diferença, mas tentar estender ao que é comum (já que na maioria todos se assemelham) o destaque público antes reservado à exceção. É a idéia “democrática” de que todo mundo é artista. Por direito. Por justiça. Não importa o que você faz, porque já não há critérios para avaliá-lo. O que conta é a imagem que promove de si mesmo. E, de fato, o que mais se vê nos diários da chamada blogosfera, já que não há edição, é a expressão despudorada do que pode haver de mais comum no ser humano: o ressentimento pelo que é diferente (a execração do outro) e o compadrio entre iguais (a troca de elogios entre aliados da mesma comunidade).

Bernardo Carvalho, escritor brasileiro

24 de Fevereiro de 2007

Grim 2

Ilustração

Uma versão mais garibada (e mais escura) do capitão Grim. Clique para ampliar.

Clique para ampliar

23 de Fevereiro de 2007

Microsalvamentos - Como salvar o mundo um instante de cada vez

Sociedade

Sei como salvar o mundo mas até agora não contei para ninguém, porque não tenho a coragem ou a força de caráter para dar exemplo e ser o primeiro. E nem, para falar a verdade, o segundo.

Contra todos os meus instintos, portanto, exponho aqui o Plano Mestre, na esperança que ninguém acredite e coloque em prática. Os resultados seriam incrivelmente desastrosos para a civilização como a conhecemos.

Esqueça o coletivo

A primeira coisa a fazer, se você ainda não fez, é desiludir-se por completo de todas as iniciativas comunitárias ou governamentais, por mais bem intencionadas que sejam, e raramente são. Esqueça, meu caro discípulo, o coletivo. A salvação não virá de ongs ou ogs, Gogues ou Magogues, poderes ou potestades. A salvação não virá de igrejas, assembléias, organizações de bairro, sindicatos, asilos, orfanatos ou campanhas de assistência. As ongs tem a tremenda virtude de não serem governamentais, mas contam com a imperdoável falha de serem organizações. Repita comigo: as instituições não existem. Só existem pessoas. Se você não fizer, ninguém vai fazer. Absolutamente ninguém vai fazer.

Eu, pode estar certo que não vou.

O mundo é salvo em partes. Em partes pequenas.

Esqueça quem você ama

Não no sentido de deixar de amar quem você ama, mas no sentido de abandonar todas as suas tentativas de salvar, resguardar e proteger quem você ama. Todos os esforços nesse sentido serão contraproducentes. Você precisa de quem você ama, e está portanto inteiramente desqualificado para ajudá-lo. Talvez alguém possa salvar quem você ama, mas não será você. A única coisa a se fazer por quem se ama é a absolutamente mais dolorosa e custosa de todas: abrir mão dos seus esforços de preservar essas pessoas para você, mantendo ao mesmo tempo a [tola] esperança de que elas lhe sejam devolvidas inteiras um dia. Sua missão, aprenda comigo, não será salvar os que você ama. Se fosse, onde estaria o seu mérito?

Salve o momento

O terrível segredo, que ninguém parece ter a coragem de encarar, é que o mundo não pode ser salvo de uma só vez. Não há como se varrer a miséria da existência em grandes e eficientes vassouradas. Não há como se pagar alguém para ir salvando o mundo, do modo que se paga o encanador para desentupir o ralo. Salvar o mundo é um serviço sujo que só você pode fazer, ao ritmo de um ínfimo passo de cada vez.

O mundo é salvo em partes. Em partes pequenas.

Souberam-no e sabem-no todos os grandes santos, jesuses, gandhis e são franciscos, e as madres teresas de todas as Calcutás. O único modo verdadeiramente virtuoso de se viver e o único modo eficaz de se salvar o mundo é pelo regime dispendioso, frustrante e tremendamento lento dos microsalvamentos: redimindo-se um momento de cada vez. Um remédio de cada vez. Uma refeição de cada vez. Uma conversa de cada vez. Um abraço de cada vez. Uma caminhada de cada vez. Um cafezinho de cada vez. Um pedido de desculpas de cada vez. Um perdão de cada vez. Um churrasco de cada vez. Uma adoção de cada vez. Uma cura de cada vez. Uma dor de cabeça de cada vez.

Os microsalvamentos não são glamurosos, não são definitivos, não dão manchete e não são recompensadores. Não dão a impressão de trabalho realizado, porque não está. É apenas o começo das dores, e amanhã haverá mais. A pedra que empurramos até o topo hoje terá deslizado invariavelmente o morro amanhã, e amanhã haverá outras.

Não temos infelizmente o chamado ou a capacitação para salvar o amanhã, o que nos pareceria infinitamente mais atraente. Amanhã as coisas podem já ter mudado. Amanhã posso ter dado um jeito de escapar daqui. Minha tarefa, minha impensável tarefa, é salvar este momento, este ridículo, insuportável, irredimível momento.

Alguém pare o momento que quero descer.

Prepare-se para morrer

Se você é esperto como eu, deve estar pensando: “Brabo, você está aí sentado na sua cadeira, muito belo e formoso, me convidando para sair pela vida fazendo o bem sem olhar a quem. Pois deixe-me ser o primeiro a dar-lhe boas vindas ao planeta Terra, meu amigo. Aqui o mundo não é cor-de-rosa desse jeito não. Viver nessa onda de redimir o momento é pauleira, velho. Mesmo que eu conseguisse viver a minha vida consistentemente com a melhor das boas intenções, é preciso mais do que óculos de Pollyanna para não enxergar que o mundo está cheio de gente mal intencionada. Quem garante que eu não vá cair vítima de rejeição, de incompreensão, de falcatrua, de uma bala perdida ou planejada, por parte de um espírito menos bem intencionado do que eu?”

Se você pensou assim, eu não teria dito melhor. Rejeição, traição e morte, confirmam as estatísticas, compõem o final que aguarda todos os que dedicam a vida à proposta insanidade dos microsalvamentos. Gente como Gandhi, Martin Luther King, Jesus a Abraham Lincoln não morre, é colhida pela insuportável singularidade da sua conduta. Ninguém quer estar na pele de pessoas assim, porque não permanecem muito tempo dentro da pele.

Fica então a advertência: você pode até cair nessa de salvar o mundo um momento de cada vez – mas faça suas orações, velho, porque seus dias estão contados. Não comece jamais esse serviço pensando que vai terminar.

Esqueçamos o que eu disse

Como espero ter deixado muito claro, salvar o mundo é atividade perigosa, frustrante, não-remunerada e insalubre. Requer preparo físico, caráter ilibado, sangue de barata e estômago forte. Desconsidere, portanto, tudo que eu disse.

Aliás, você não iria mesmo poder fazer nada sem a minha ajuda. Só eu posso salvar o mundo, e enquanto minha consciência estiver aplacada, o mundo estará perdido.

Mais fácil assim.