Manuscritos estocados em Janeiro do Anno 2007 de Nosso Senhor
19 de Janeiro de 2007

O ingresso no Paraíso

Manuscritos

No céu usam roupas, detalhe que não cessa de me surpreender. Guardo as conchas num vidro da despensa, lavo os pés sentado na borda da banheira, enxugo entre os dedos com uma toalha impossivelmente branca, visto-me depressa e saio para o trabalhar. O espelho do vestíbulo comprova que, mesmo vestido, está muito evidente que engordei. Meu sedã está onde o deixei na curva da entrada, a porta do motorista aberta, reluzindo o branco e o turquesa da manhã. Não vai chover – nunca chove – e ninguém vai querer roubar o meu carro.

Sou um mentiroso e um ladrão e moro no céu há treze anos – anos na medida celestial, que são contados a partir de regras que mudam de um ano a outro, e não têm portanto verdadeiro equivalente em anos mortais.

Levo uma vida feliz e plena em todos os sentidos concebíveis. Sei como todos no céu (assinei com gratidão e não sem assombro o Termo de Admissão) que nada me faltou nos meus anos mortais, mas minha mais ambiciosa vertigem daqueles dias não é para comparar com a abundância celestial.

Moro junto a um morro de pedra numa mansão de três andares que é tão espaçosa que abandonei a idéia de conhecer cada um dos quartos e fazer amor cada dia (não temos noites) num aposento diferente. Troco de carro a cada dois anos, faço semestralmente a peregrinação aos Parques Temáticos, trabalho quando quero no ofício que posso escolher. A norma é uma abundância que anula tudo que conhecemos os mais abastados na vida terrena: mais livros, mais filmes, mais banheiras de hidromassagem, mais saunas, mais piscinas, mais campos de golfe e quadras de tênis, mais camas, mais e melhores vinhos e todo o tempo do mundo para desfrutá-los.

Minha atividade mais insígne e mais exigente (trabalho também num estúdio de gravação e numa agência de modelos) é a de oficial de segurança no Complexo de Triagem da aduana celestial. É para lá que estou disparando agora, ouvindo um Glenn Miller atrás do outro pela Rádio 66 – “I’ve Got a Gal in Kalamazoo…” – enquanto o sedã atravessa em rigoroso silêncio os túneis iluminados da Avenida Radial.

A Triagem é um intrincado conjunto de prédios antigos que deve ter causado irresistível impressão de eficiência nos seus dias de glória, mas deixa hoje na boca um gosto acre de prisão: algo suspenso em suas paredes fuliginosas, alamedas de palmeiras imperiais do tempo em que se andava a pé entre elas, e fileiras de janelas que são estreitas demais para deixar entrar a luz e altas demais para serem limpas mais do que uma vez ao ano.

A porção mais externa e mais importante do complexo, o Delta, é um triângulo definido no lado exterior por uma impossivelmente longa linha de guichês. Por esse funil, que faz lembrar uma parada de pedágio e ainda um posto de coleta, e ao qual se dá o nome geral de Catraca, passam todos os imigrantes que chegam ao céu provenientes da terra; por aqui passei eu, por aqui passaram todos os meus amigos e conhecidos.

O ingresso no céu é, naturalmente (e como tudo na vida e na morte), gratuito e inteiramente voluntário. Ninguém que desembarca é obrigado a aceitar o céu ou compelido a abraçar o inferno. Alguns dos recém-chegados, intimidados pelas enormes filas que se espraiam em direção ao Delta ou esmagados por alguma culpa imaginária, embarcam resignadamente e voluntariamente numa das vans que levam (inequivocamente, como declaram letreiros rotativos em todas as línguas dos vivos) ao inferno.

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18 de Janeiro de 2007

I’ve Got a Gal in Kalamazoo (1942)

Pormenor

Brancos primeiro, negros depois – todos namoram a mesma guria em Kalamazoo. Glenn Miller e orquestra, Tex Beneke, o quarteto The Modernaires com Marion Hutton – seguidos pelos Nicholas Brothers (Fayard, que morreu ano passado, e Harold).

17 de Janeiro de 2007

A queda de Satanás

Goiabas Roubadas, Ilustração

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ADÃO: A queda de Satanás

As extraordinárias qualidades com que Adão foi abençoado, tanto físicas quanto espirituais, suscitaram a inveja dos anjos. Esses tentaram consumi-lo com fogo, e ele teria perecido, não tivesse a mão protetora de Deus se estendido sobre ele, e estabelecido a paz entre ele e os exércitos celestiais.

Satanás, em particular, tinha ciúme do primeiro homem, e seus maus pensamentos levaram por fim à sua queda. Depois de ter dotado Adão de alma, Deus convidara todos os anjos para virem e prestarem-lhe reverência e homenagem. Satanás, o mais insígne anjo do céu, dotado de doze asas ao invés das seis de todos os outros, recusara-se a obedecer à ordem de Deus, dizendo:

– Criaste a nós, os anjos, a partir do esplendor da Shekiná, e agora ordenas que nos prostremos diante da criatura que moldaste do pó da terra!

Deus respondeu:

– Todavia o pó da terra exibe mais sabedoria e entendimento do que você.

Satanás exigiu uma prova de inteligência com Adão, e Deus assentiu, dizendo:

– Criei animais selvagens, pássaros e répteis. Tra-los-ei a todos diante de você e de Adão. Se você for capaz de dar nomes a eles, mandarei que Adão lhe preste homenagem, e você habitará junto à Shekiná da minha glória. Caso contrário, no entanto, se Adão chamá-los pelos nomes que designei a eles, você se sujeitará a Adão, e ele terá um lugar no meu jardim, e o cultivará.

“Preste adoração à imagem de Deus!”

Assim disse Deus e dirigiu-se ao Paraíso, seguido por Satanás. Quando viu a Deus, Adão disse a sua mulher:

– Venha, adoremos e prostemo-nos; ajoelho-mo-nos diante do Senhor, nosso Criador.

Satanás tentou então atribuir nomes aos animais, tendo fracassado nas duas primeiras tentativas, o touro e a vaca. Deus conduziu dois outros animais até diante dele, o camelo e o jumento, com o mesmo resultado. Deus voltou-se então para Adão, e questionou-lhe a respeito dos nomes dos mesmos animais, construindo suas perguntas de modo a que a primeira letra da primeira palavra fosse a primeira letra do nome do animal posto diante dele. Desta forma Adão foi capaz de adivinhar os nomes corretamente, e Satanás viu-se forçado a reconhecer a superioridade do primeiro homem. Ele porém irrompeu em clamores bárbaros que atingiram o céu, recusando-se a prestar homenagem a Adão como lhe havia sido ordenado.

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16 de Janeiro de 2007

Algo de bom ele deve ter

Politica, Sociedade

Estava em determinada capital do país, hospedado na casa de um amigo, quando ele anunciou que viria almoçar conosco naquele dia um camarada que queria me conhecer, um vereador daquela cidade.

– Ele também é pastor – esclareceu meu amigo.

– Mas ele não tem nenhuma virtude? – não resisti.

15 de Janeiro de 2007

A espingarda

Goiabas Roubadas

Foi logo depois dessa reunião – toda a questão a respeito de Charles tendo de algum modo se dissipado e se tornado assunto proibido – que meu marido, movido por algum obscuro impulso que pode ou não ter estado ligado diretamente ao Charles, comprou para si uma espingarda de pressão. Nunca de fato acreditei que meu marido fosse o tipo Kit Carson, mas é remotamente possível que ocasionalmente um anseio por uma vida romântica o tome de assalto; essa tal espingarda de pressão era grande e ameaçadora e, ele me disse, naquela voz terrivelmente responsável que os homens costumam assumir quando estão falando com suas esposas a respeito de máquinas, armas ou política, que a havia comprado para praticar tiro-ao-alvo.

Um rato tinha estado ultimamente no porão, ele disse; ele estava certo de ter visto um rato quando havia descido para acender a fornalha. Então, é claro, meu marido ia atirar nele. Não usar uma ratoeira ou envenená-lo – isso é coisa para meninos e terriers; ele ia atirar no rato.

Meu marido passou grande parte de uma manhã de domingo perigosamente agachado na porta aberta do porão, esperando o rato mostrar os bigodes, coisa que o rato foi gentil o suficiente para não fazer. Nossos dois excelentes gatos permaneciam também dentro de casa, sentados complacentemente, observando com algum interesse profissional, diretamente atrás do meu marido. A caçada ao rato foi interrompida quando a porta da cozinha abriu-se de um golpe e Laurie entrou de assalto com três amigos que tinham vindo ver como o pai dele atirava no rato.

Meu marido deu uma olhada e foi buscar sua espingarda de pressão.

Com o passar dos dias, estou supondo, o rato acabou indo embora por si mesmo, embora eu não veja de que forma ele possa ter concebivelmente ficado com medo da perspectiva de ser acertado por um tiro. Provavelmente o rato não tivesse percebido até aquele momento que tinha ido parar numa casa com gatos e crianças. De qualquer modo, meu marido e os gatos, caçando em bando, acabaram abatendo caça ainda melhor; deve ter sido na terça-feira depois da caça ao rato que nossa gata, Ninki, que tem algo de caçadora, pegou um esquilo listrado. Ela já tinha feito isso antes e fará novamente, embora eu esteja certa de que ela nunca mais irá convidar meu marido para cercar a presa com ela. O esquilo listrado que ela pegou naquela manhã – era perto das nove e meia – não estava sendo cooperativo, e quando Ninki trouxe-o para a cozinha (para onde ela normalmente traz os esquilos listrados, movido por alguma estranha convicção de que deve comê-los no seu próprio prato) o esquilo esquivou-se de debaixo da sua pata e correu loucamente para uma planta particularmente alta no parapeito da janela. A planta só era forte o bastante para sustentar o peso de um esquilo listrado, e Ninki, numa espécie de frenesi, correu para a sala de jantar onde meu marido estava terminando o seu café, e conversou-o a ir até a cozinha para ver o esquilo listrado dela na planta. Meu marido deu uma olhada e foi buscar sua espingarda de pressão.

Ninki conseguiu chegar ao parapeito da janela, mas a planta era precisamente alta o bastante, e o vaso instável o suficiente para impedi-la de alcançar definitivamente o esquilo, que mantinha-se agora precariamente no topo da planta. Meu marido traçou um cuidadoso arco com a espingarda de pressão e então descobriu que a não ser que se adiantasse e colocasse a arma contra a cabeça do animalzinho, tinha uma boa chance de errar o esquilo – se não o próprio gato, que era um grande e intrometido alvo.

A esta altura, é claro, eu havia abandonado a minha xícara de café e estava em pé na porta entre a cozinha e a sala de jantar, em segurança e fora de alcance como as mulheres devem estar quando os homens estão caçando, dizendo coisas como “querido, porque você não o coloca num saco de papel ou algo assim e o leva pra fora?” e “querido, você não acha que seria mais fácil se…”

Ninki estava a essa altura indignada ao extremo com o atmosfera geral de incompetência exibida na cozinha, e foi para a sala de estar buscar Shax, que é extraordinariamente preguiçoso e nunca pega os seus próprios esquilos listrados mas é, pelo menos, um gato, e preferível, Ninki via claramente, a um homem com uma espingarda. Shax avaliou a situação com um olho cínico, deu a meu marido e sua arma o olhar mais frio que jamais vi um gato se permitir, pulou em seguida para o parapeito da janela e sentou-se do outro lado do vaso de flores. Ficou uma cena e tanto: Ninki e Shax sentados em ambos os lados do vaso e o esquilo sentado no topo da planta.

Depois de um minuto o esquilo – sentindo com razão que todos os olhos estavam fixos nele – começou a se mexer nervosamente, e a planta começou a oscilar. Como o esquilo estava muito nervoso e a planta era muito flexível, logo o topo da planta começou a balançar de um lado para o outro, como um pêndulo, de modo que o esquilo, indo cada vez mais rápido, oscilava entre um gato e outro, arranhando o nariz de cada um enquanto eles recuavam dubiamente. Meu marido ainda estava mirando no esquilo, e começou também ele a balançar de um lado para o outro. Quando finalmente perceberam o que estava acontecendo os gatos começaram a alternar-se golpeando o esquilo como uma peteca enquanto ele balançava entre um e outro.

Tudo isso aconteceu tão rápido que creio – a não ser que eu prefira sair de casa não tenho escolha a não ser acreditar – que meu marido pressionou o gatilho da espingarda de pressão sem querer, porque é certo que ele acabou errando o esquilo listrado e os gatos e acertou a janela. O barulho mandou gatos, esquilo e Ninrode em todas as direções – os gatos para debaixo da mesa, o esquilo, com uma rara presença de espírito, para fora pela janela quebrada, e meu marido, com ainda mais rara presença de espírito, de volta para o seu lugar à mesa na sala de jantar. Avancei do meu posto na porta da cozinha e recolhi a espingarda de pressão do chão; então, com o que considero notável tolerância, fui buscar a vassoura e a pá de lixo. Tudo que me permiti, falando gentilmente e sem ênfase indevida, foi um “graças a Deus que o Laurie está na escola.”

Fui complacente o bastante para devolver a espingarda do meu marido depois de alguns dias, mas esperava que Ninki tivesse mais bom senso. Talvez ela não imaginasse que eu devolveria a espingarda, ou talvez tenha apenas concluído que a prática de tiro ao alvo dentro da casa havia sido abandonada como impráticavel; talvez, com alguma espécie de otimismo felino de que não posso compartilhar, ela acreditasse que o episódio do esquilo havia sido uma exceção, o tipo de coisa que pode acontecer a qualquer homem que tenha de confrontar um esquilo listrado pendular.

Não foi portanto mais de uma semana depois que Ninki deu à espingarda de pressão uma outra chance. Era uma noite fria, e eu estava deitada no sofá debaixo de um cobertor, lendo uma história de mistério; meu marido estava sentado tranqüilamente na sua poltrona lendo o jornal. Havíamos acabado de congratular um ao outro com o fato de que era agora tarde demais para que chegasse um visitante casual, e meu marido havia mencionado três ou quatro vezes que achava que ia querer um pouco daquela carne de panela num sanduíche antes de ir para a cama. Foi então que ouvimos o inconfundível e triunfante uivo de caçadora-poderosa de Ninki vindo da sala de jantar.

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Este documento faz parte da série

Minha vida entre os selvagens

  1. Minha vida entre os selvagens
  2. A residência Fielding
  3. Charles
  4. A espingarda