O ingresso no Paraíso
Manuscritos
No céu usam roupas, detalhe que não cessa de me surpreender. Guardo as conchas num vidro da despensa, lavo os pés sentado na borda da banheira, enxugo entre os dedos com uma toalha impossivelmente branca, visto-me depressa e saio para o trabalhar. O espelho do vestíbulo comprova que, mesmo vestido, está muito evidente que engordei. Meu sedã está onde o deixei na curva da entrada, a porta do motorista aberta, reluzindo o branco e o turquesa da manhã. Não vai chover – nunca chove – e ninguém vai querer roubar o meu carro.
Sou um mentiroso e um ladrão e moro no céu há treze anos – anos na medida celestial, que são contados a partir de regras que mudam de um ano a outro, e não têm portanto verdadeiro equivalente em anos mortais.
Levo uma vida feliz e plena em todos os sentidos concebíveis. Sei como todos no céu (assinei com gratidão e não sem assombro o Termo de Admissão) que nada me faltou nos meus anos mortais, mas minha mais ambiciosa vertigem daqueles dias não é para comparar com a abundância celestial.
Moro junto a um morro de pedra numa mansão de três andares que é tão espaçosa que abandonei a idéia de conhecer cada um dos quartos e fazer amor cada dia (não temos noites) num aposento diferente. Troco de carro a cada dois anos, faço semestralmente a peregrinação aos Parques Temáticos, trabalho quando quero no ofício que posso escolher. A norma é uma abundância que anula tudo que conhecemos os mais abastados na vida terrena: mais livros, mais filmes, mais banheiras de hidromassagem, mais saunas, mais piscinas, mais campos de golfe e quadras de tênis, mais camas, mais e melhores vinhos e todo o tempo do mundo para desfrutá-los.
Minha atividade mais insígne e mais exigente (trabalho também num estúdio de gravação e numa agência de modelos) é a de oficial de segurança no Complexo de Triagem da aduana celestial. É para lá que estou disparando agora, ouvindo um Glenn Miller atrás do outro pela Rádio 66 – “I’ve Got a Gal in Kalamazoo…” – enquanto o sedã atravessa em rigoroso silêncio os túneis iluminados da Avenida Radial.
A Triagem é um intrincado conjunto de prédios antigos que deve ter causado irresistível impressão de eficiência nos seus dias de glória, mas deixa hoje na boca um gosto acre de prisão: algo suspenso em suas paredes fuliginosas, alamedas de palmeiras imperiais do tempo em que se andava a pé entre elas, e fileiras de janelas que são estreitas demais para deixar entrar a luz e altas demais para serem limpas mais do que uma vez ao ano.
A porção mais externa e mais importante do complexo, o Delta, é um triângulo definido no lado exterior por uma impossivelmente longa linha de guichês. Por esse funil, que faz lembrar uma parada de pedágio e ainda um posto de coleta, e ao qual se dá o nome geral de Catraca, passam todos os imigrantes que chegam ao céu provenientes da terra; por aqui passei eu, por aqui passaram todos os meus amigos e conhecidos.
O ingresso no céu é, naturalmente (e como tudo na vida e na morte), gratuito e inteiramente voluntário. Ninguém que desembarca é obrigado a aceitar o céu ou compelido a abraçar o inferno. Alguns dos recém-chegados, intimidados pelas enormes filas que se espraiam em direção ao Delta ou esmagados por alguma culpa imaginária, embarcam resignadamente e voluntariamente numa das vans que levam (inequivocamente, como declaram letreiros rotativos em todas as línguas dos vivos) ao inferno.
Este documento faz parte da série
A cor do encarnado
- O ingresso no Paraíso
- O luto
- Perfidia
- Dodó
- Entropia
- O esgotamento dos sentidos
- Heróis
- A farsa termina
- Bivalve
- Sherazade
- Precipitação
- Deducant
- A tempestade
- Turbilhão
- Preço
- Manifestação
- Meia-volta
- Brixianus
- O que pode dar errado
- Remissivo
- Perímetro
- Dor
- Malmequer
- Álibis
- Macaco
- Não é verdade
- Letes
- Véu
- Milhões
- A mesma sentença
- A resposta incompleta
- Fulcro
- Ciranda


