Manuscritos estocados em Janeiro do Anno 2007 de Nosso Senhor
25 de Janeiro de 2007

Confinamento

Fotografia

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24 de Janeiro de 2007

Perfidia

Manuscritos

Antes que eu consiga me desvencilhar da sala de reuniões, Cortiano, que está em pé junto à mesa tentando desvencilhar-se de Martinha, faz na minha direção um deliberado semicírculo com o indicador, querendo dizer inequivocamente preciso falar com você depois.

Saio sem responder e sem dar as costas para a sala, como se não estivesse de fato indo embora. Glenn, que não deixou de ver o sinal de Cortiano, segue-me até o corredor.

– Você não parece abalado – ele diz, e páro imediatamente para deixar claro que para onde estou indo ele não pode ir.

– Pelo que aconteceu ou pelo que vai acontecer?

– Por nenhum dos dois.

– Estou abalado, sim, mas não pela mesma razão que vocês. Sahid era meu amigo e eu gostava dele, mas que dizer? – sorrio cinicamente. – Ele foi para um lugar melhor.

– Já não acho impossível.

A seu jeito cauteloso, Glenn está baixando a guarda.

– E Gandhi é Gandhi – mudo de assunto sem baixar a minha, sabendo que ele esperava que eu retribuísse a gentileza. – Que mal ele pode fazer?

– O que Cortiano quer? – em retribuição ao meu cinismo, é ele quem muda de assunto, revelando talvez o cerne da questão.

– Ainda não sei. Alguma burocracia. Ligo pra você hoje à noitinha ou antes disso se souber da novidade, pode ser? Quem sabe tomamos um café? Uma massa no Ferrino’s? – vou me afastando sem dar as costas, na direção do elevador.

– Só encontre o seu celular. Você sabe que Sahid deixou um bilhete pra você?

– Não, não estou sabendo – ele tinha reservado para o final aquilo que podia me segurar por mais um instante.

– Pois deixou, e nem a polícia sabe. Acho que é isso o que Cortiano quer com você: entregar o bilhete.

– Não demora, então, e descobrimos.

– Não vou ver você no estúdio hoje?

– Hoje não, dia difícil. Como ficaram aqueles takes da nova versão de Perfidia?

– Não fizemos. Nosso percusionista brasileiro não comparece há três dias.

– Não me diga…

Ele responde resignadamente com as mãos nos bolsos da calça, mas as portas do elevador já se fecharam.

– Foi para o inferno.

Desembarco no décimo-segundo andar e subo em três passos o lance de escadas que leva até à porta de aço e dali ao teto. Dois brutamontes trajando impecáveis e soturnos Armanis estão em pé ladeando a porta da casa de força abaixo do heliponto, as pernas levemente abertas e as mãos cruzadas protegendo os genitais. Suando elegantemente por trás da maquiagem (para todos os efeitos perfeita, não canso de me surpreender), sem baixar os olhos para mim e sem me revistar, deixam-me entrar.

Duas coisas me atingem com o empuxo de um murro de direita quando a porta se fecha atrás de mim: é o Ermitão que está ali, e está sem maquiagem. Não sei dizer qual das duas coisas é o emblema mais poderoso da seriedade da situação.

– Tente agir naturalmente – resmunga o Ermitão, girando nos calcanhares de modo a me olhar de frente. E em seguida: – Você demorou.

– Você não faz idéia.

– E nem quero. Vejo que está feliz em me ver.

– É tão mais fácil lidar com os seus asseclas.

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23 de Janeiro de 2007

As invisíveis restrições à liberdade

Goiabas Roubadas

Quando tentamos formar nossas opiniões de maneira inteligente nossa tendência é aceitar o julgamento daqueles que por sua educação e ocupação são forçados a lidar com o assunto em questão. Pressupomos que suas opiniões sejam racionais e baseadas numa compreensão inteligente desses problemas. Essa nossa crença esta fundamentada na pressuposição tácita não apenas de que esses possuem algum conhecimento especial, mas também de que são livres para formar opiniões perfeitamente racionais. É fácil, no entanto, verificar que não há qualquer tipo de sociedade humana em que tal liberdade exista.

Creio que posso deixar meu argumento mais claro através do exemplo da vida de um povo cujas condições culturais são bastante simples. Escolho para esse propósito os esquimós, que em sua vida social são extremamente individualistas. Seu grupo social tem tão baixa coesão que não temos praticamente o direito de falar em tribos. Um certo número de famílias se ajunta e passa a viver no mesmo vilarejo, mas não há nada que impeça qualquer uma delas de viver e estabelecer-se em outro lugar com outras famílias. De fato, no período de uma vida as famílias que constituem um vilarejo esquimó mudam constantemente de comunidade; e embora retornem em geral, depois de alguns anos, para o lugar em que vivem seus parentes, a família pode ter pertencido a um grande número de outras comunidades.

Não há autoridade investida sobre qualquer indivíduo, não há chefes e nenhum método pelo qual ordens, caso fossem dadas, deveriam ser levadas a cabo. Em resumo, no que diz respeito a legislação temos uma condição de anarquia quase absoluta. Podemos portanto dizer que cada indivíduo é inteiramente livre, dentro dos limites de sua capacidade mental, para determinar seu próprio modo de vida e seu próprio modo de pensar. Porém não é difícil demonstrar que há incontáveis restrições que acabam determinando o comportamento desse indivíduo. O menino esquimó aprende a manejar a faca, a usar o arco e flecha, a caçar, a construir uma casa; a menina aprende a costurar e remendar roupas e a cozinhar; durante a vida toda eles usarão suas ferramentas do modo que aprenderam na infância. Novos inventos são raros, e toda a vida industrial do povo segue canais tradicionais. O que é verdadeiro para suas atividades industriais aplica-se da mesma forma a suas idéias. Certos conceitos religiosos foram transmitidos a eles, noções a respeito do que é certo e errado, certas diversões e a fruição de determinados tipos de arte. É improvável que ocorra qualquer desvio desses padrões.

Ao mesmo tempo que nunca lhes passa pela cabeça que qualquer outro modo de pensar ou de agir seja possível, eles consideram-se perfeitamente livres no que diz respeito a suas ações. Com base em nossa experiência mais ampla, sabemos que os problemas industriais dos esquimós poderiam ser resolvidos de muitas outras maneiras, e que suas tradições religiosas e costumes sociais poderiam ser muito diferentes do que são. De um ponto de vista externo e objetivo podemos ver claramente as restrições que amarram o indivíduo que se considera livre.

De fora podemos ver claramente as restrições que amarram o indivíduo que se considera livre.

Dificilmente será necessário prover exemplos adicionais dessas ocorrências. Pode ser desejável, no entanto, ilustrar o enorme poder dessas idéias que restringem a liberdade de pensamento do indivíduo, resultando em sérios conflitos mentais quando a ética tradicional da sociedade entra em conflito com reações instintivas. Dessa forma, em certa tribo da Sibéria encontramos a crença de que cada pessoa viverá na vida futura na mesma condição em que se encontrar por ocasião da sua morte. Como conseqüência, o velho que começa a experimentar a decrepitude deseja morrer, a fim de evitar a vida como inválido no futuro sem fim, e passa a ser o dever de seu filho matá-lo. O filho crê na retidão desse mandamento mas ao mesmo tempo sente amor filial pelo pai, e não são poucas as vezes em que o filho tem de decidir entre esses dois deveres conflitantes – o imposto pelo amor filial instintivo e aquele imposto pelo costume da tribo.

Franz Boas (1862–1942)
A atitude mental das classes educadas

22 de Janeiro de 2007

O luto

Manuscritos

O sujeito de terno claro e chapéu-panamá encostado às colunas da escadaria do Bureau é o próprio Glenn Miller, que trabalha na Administração do Delta dois ou três dias por mês e veio me receber com as últimas notícias. A crise parece estar sobre controle, mas decisões importantes precisam ser tomadas nas próximas horas.

– Tentei encontrá-lo no celular, estava fora de área – Glenn me segue pelo corredor, balançando os óculos redondos sem aro numa das mãos, parcialmente irritado.

–– Não sei onde deixei – minto, conferindo sem diminuir o passo o cabelo grisalho no reflexo do vidro de uma porta. – Deve ter largado em algum quarto lá em casa.

– Mas estava fora de área – ele reclama, como se estivesse proferindo um grande mistério, e de certa forma está.

Abro a porta, deixo Glenn entrar primeiro e sento-me com três ou quatro outros executivos numa sala privada do térreo. Em algum lugar deste prédio uma agitada reunião do comitê aduaneiro está deliberando este mesmo assunto, mas (uns poucos não ignoram) a verdadeira decisão sairá desta sala. E pensar que nem foi por esse motivo que vim.

–– Quando – exige Martinha, os olhos vermelhos travando nos meus e as duas mãos emoldurando o casaco do tailleur – você o viu pela última vez?

Recuso-me a responder, sabendo que a pergunta e a resposta não têm qualquer relação com o que estamos discutindo aqui.

– Esta crise tem duas dimensões inteiramente distintas – deposito um punho fechado gentilmente sobre a mesa – e precisamos delimitar claramente o que podemos resolver neste momento. Não creio que seja hora de discutirmos porque aconteceu.

– Precisamos saber porque aconteceu – resmunga Martinha, professoralmente – para podermos saber como evitar.

– Ele está certo – Glenn mordisca a haste do óculos. – Algumas fatalidades não podem ser evitadas. E mesmo se puderem, não nos cabe discutir isso agora.

–– A questão – aproveito a deixa, e meu tom de voz está calibrado entre o decidido e o desconsolado – é definirmos o que exatamente vamos fazer agora.

E, por antecipação, sei exatamente o que será feito agora; não preciso sequer me esforçar para conduzir a reunião rumo ao resultado desejado. Cada crise é o guia de sua própria solução, e nossas alternativas não são muitas. São, na verdade, nenhuma.

Levanto-me para buscar um pouco de água num copo dobrável de papel e na volta dou as costas à sala, como se estivesse observando pela janela o lento movimento da Catraca na planície lá embaixo. Pergunto-me se Sahid teria pesado todos os efeitos da sua escolha. Teria ele se sentido responsável pela cadeia de conseqüências que não o afetavam pessoalmente? Teria ele antecipado esta reunião, estes diálogos, esta coreografada demora?

–– Sahid não podia ter escolhido hora pior para ir para o inferno – confessa Cortiano em nome de todos, desviando os olhos tristes para a parede. Suas mãos gordas e peludas estão espraiadas sobre a mesa de carvalho, como se ele esperasse que a resposta brotasse de sua comunhão com a madeira.

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20 de Janeiro de 2007

Carros!

Ilustração

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