Antes que eu consiga me desvencilhar da sala de reuniões, Cortiano, que está em pé junto à mesa tentando desvencilhar-se de Martinha, faz na minha direção um deliberado semicírculo com o indicador, querendo dizer inequivocamente preciso falar com você depois.
Saio sem responder e sem dar as costas para a sala, como se não estivesse de fato indo embora. Glenn, que não deixou de ver o sinal de Cortiano, segue-me até o corredor.
– Você não parece abalado – ele diz, e páro imediatamente para deixar claro que para onde estou indo ele não pode ir.
– Pelo que aconteceu ou pelo que vai acontecer?
– Por nenhum dos dois.
– Estou abalado, sim, mas não pela mesma razão que vocês. Sahid era meu amigo e eu gostava dele, mas que dizer? – sorrio cinicamente. – Ele foi para um lugar melhor.
– Já não acho impossível.
A seu jeito cauteloso, Glenn está baixando a guarda.
– E Gandhi é Gandhi – mudo de assunto sem baixar a minha, sabendo que ele esperava que eu retribuísse a gentileza. – Que mal ele pode fazer?
– O que Cortiano quer? – em retribuição ao meu cinismo, é ele quem muda de assunto, revelando talvez o cerne da questão.
– Ainda não sei. Alguma burocracia. Ligo pra você hoje à noitinha ou antes disso se souber da novidade, pode ser? Quem sabe tomamos um café? Uma massa no Ferrino’s? – vou me afastando sem dar as costas, na direção do elevador.
– Só encontre o seu celular. Você sabe que Sahid deixou um bilhete pra você?
– Não, não estou sabendo – ele tinha reservado para o final aquilo que podia me segurar por mais um instante.
– Pois deixou, e nem a polícia sabe. Acho que é isso o que Cortiano quer com você: entregar o bilhete.
– Não demora, então, e descobrimos.
– Não vou ver você no estúdio hoje?
– Hoje não, dia difícil. Como ficaram aqueles takes da nova versão de Perfidia?
– Não fizemos. Nosso percusionista brasileiro não comparece há três dias.
– Não me diga…
Ele responde resignadamente com as mãos nos bolsos da calça, mas as portas do elevador já se fecharam.
– Foi para o inferno.
Desembarco no décimo-segundo andar e subo em três passos o lance de escadas que leva até à porta de aço e dali ao teto. Dois brutamontes trajando impecáveis e soturnos Armanis estão em pé ladeando a porta da casa de força abaixo do heliponto, as pernas levemente abertas e as mãos cruzadas protegendo os genitais. Suando elegantemente por trás da maquiagem (para todos os efeitos perfeita, não canso de me surpreender), sem baixar os olhos para mim e sem me revistar, deixam-me entrar.
Duas coisas me atingem com o empuxo de um murro de direita quando a porta se fecha atrás de mim: é o Ermitão que está ali, e está sem maquiagem. Não sei dizer qual das duas coisas é o emblema mais poderoso da seriedade da situação.
– Tente agir naturalmente – resmunga o Ermitão, girando nos calcanhares de modo a me olhar de frente. E em seguida: – Você demorou.
– Você não faz idéia.
– E nem quero. Vejo que está feliz em me ver.
– É tão mais fácil lidar com os seus asseclas.
Este documento faz parte da série
A cor do encarnado
- O ingresso no Paraíso
- O luto
- Perfidia
- Dodó
- Entropia
- O esgotamento dos sentidos
- Heróis
- A farsa termina
- Bivalve
- Sherazade
- Precipitação
- Deducant
- A tempestade
- Turbilhão
- Preço
- Manifestação
- Meia-volta
- Brixianus
- O que pode dar errado
- Remissivo
- Perímetro
- Dor
- Malmequer
- Álibis
- Macaco
- Não é verdade
- Letes
- Véu
- Milhões
- A mesma sentença
- A resposta incompleta
- Fulcro



