23 de Julho de 2006

Visitação

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

É cedinho e encontro-me abrigado pela sombra de uma serra distante coberta de mato, sob um céu púrpura fustigado selvagemente por criaturas que não são pássaros.

Essa terra que não é ainda a terra que procuro é todo relógio de que preciso: marquei um encontro com o homem e cheguei alguns milhões de anos cedo demais. Observo esse mundo completo em si mesmo e registro uma resignada frustração mental: apesar da agitação da carne que se derrama contra carne e dos berros dos que comem e expiram, é uma esfera silenciosa e solitária para quem buscava curar-se das duas coisas.

Fico imediatamente em dúvida quanto ao movimento a tomar em seguida. Sessenta e cinco milhões de anos passam voando, mas começo a me arrepender de não ter trazido comigo algum livro.

Ajeito minha postura e encontro algum consolo na perspectiva singular do viajante: o paradoxal privilégio de pisar terreno que os habitantes de seu almejado destino para sempre desconhecerão. Este então é um mundo que o homem não chegará a ver.

Ao fim da minha jornada restarão dos mais onipotentes dinossauros apenas pó e fragmentos, peças de um ou outro esqueleto sobre as quais talvez nem mesmo a inquietude do homem será capaz de recompor os padrões da carne, quanto mais a indescritível pele e as indescritíveis cores. Perda maior para a imaginação da humanidade deverá ser o extravio dos enormes sogos, que são negros e lentos e informes e viscosos e caminham sobre cinco ou seis patas montanhas de distância acima dos dinossauros, mas de cuja existência não haverá testemunho por serem mais ou menos moluscos, invertebrados transparentes para a história, que de tudo exige registro.

O sol está para surgir de trás da montanha, e avalio minhas possibilidades. Posso aguardar desperto, posso partir e deixar um sensor que me avise onde eu estiver sobre a chegada do homem, posso permanecer e refugiar-me nos meus sonhos, que são vastos e inesgotáveis e têm a vantagem de não terem sido contaminados pela linguagem.

Levanto os olhos no momento seguinte e cega-me, faíscando no centro de um labirinto de cubos, o esplendor do que não pode ser outra coisa se não a magnífica estátua de um deus. Decido imediatamente, austeramente, que percorrido todo o universo e a eternidade de uma ponta à outra, jamais vi ou verei no universo coisa que se possa comparar em rigorosa perfeição à da obra que estou contemplando. Esqueço-me da jornada e do caminho e do tempo e de quem sou e de pelo que ansiava.

Então a estátua, que está nua e de cabeça baixa, como que concentrada num ato de criação, se move impossivelmente e graciosamente e ergue a cabeça e meus olhos enchem-se de lágrimas que jamais deixarão de fluir, porque entendo que está viva e que é um ser humano, e o homem é tão insuportavelmente belo que é horrendo o privilégio de ser exposto a ele, e esse único instante bastará para anular para sempre qualquer independência da minha memória e da minha imaginação. Não serei capaz de pensar em outra coisa, e não o desejo. O homem se agacha para pegar alguma coisa do chão, flexionando pernas, braços e pés; ele senta-se diante de um cubo; ele cobre o corpo e sai e volta e despe-se novamente; ele apara os pêlos do rosto e escreve e fala, e a baixeza da própria linguagem não o corrompe; ele corre atrás de uma esfera e estende os músculos das costas, ignorante de que é mais reluzente e original e santo que todos os sóis e que sua voz é a voz geminada da criação e do criador – e eu, que vi o nascer e morrer de incontáveis estrelas; que vi majestosos choques de galáxias, que se estendem por dezenas de bilhões de anos; que testemunhei o entretecer de diferentes peles e de olhos pares e ímpares de um extremo a outro do universo; que vi a beleza do tempo e das extinções e das ressurreições e de toda a graça, quedo silente, absolutamente cativo, incapaz de qualquer pensamento original. Eu, que pensava ter visto toda permutação possível de carne e graça, de pêlos e mucosas, de membranas e imaginação, de cores e espírito e movimento, jamais vi o que se possa comparar ao homem. Porque o homem é generoso e criativo e compassivo e flexível e suave e áspero e inesperado e controverso e inconsistente e múltiplo e musical e forte e indomável e terrível e exigente e inconseqüente e prolífico e sensual e vulnerável e proporcional e bom e barro e obscenamente perfeito e horrendo em potencial e indistingüivel de Deus e em momento algum acima dos animais.

Antes de fechar os olhos para sempre (visto que guardam a única visão concebível e a única necessária) entendo que caí no sono por um momento e que quando acordei o homem havia se levantado sobre a terra. Eu não estava desperto para fazer-me conhecido, por isso sou invisível para ele. Naturalmente nada disso têm importância ou retém qualquer correspondência com a realidade, porque contemplei um único homem e essa moeda singular me suprirá por todas as eternidades mais uma. É-me concedida no último momento uma revelação de quem me criou e com que propósito, e saboreio sem ressentimento a ironia. Basta-me ter participado por um instante da infinita variedade que se chama o Universo; recolho-me à expectativa da companhia do homem, condição que se chama Suficiência e o Paraíso.



2 Comentários a respeito de "Visitação"

Luiz Henrique Mello

“…condição que se chama Suficiência e o Paraíso.” Visões perturbadoras e reveladoras. Nínguém continua sendo o mesmo, depois delas.



Farah

Como disse um meu amigo (verdadeiro) ao saber que e do que iria morrer.

“A revelação aplacará a dor.”



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