15 de Fevereiro de 2006

Viagem à palma da minha mão

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

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ÚLTIMA PAGINA DO DIÁRIO

[...] não me deixaram de novo dormir, com suas canções insanas que ribombam incessantemente encosta acima. Depois de tudo que vi e experimentei isso está naturalmente longe de ser o pior, mas mesmo o que vi não se compara ao que sei que me espera.

Poucas forças me restam, e o fim da linha está perto.

*******

Estou irremediavelmente perdido.

Se continuo escrevendo é para deixar monumentalmente clara a insistência do meu apelo. Se tudo que relatei puder impedir um único homem imprudente de tentar empreender a mesma viagem, minha morte não terá sido em vão

As canções me enlouquecem e aumentam em volume e selvageria à medida que a noite se aproxima. Não que eu acredite ou mesmo tema que tentarão de fato me atacar. Eles sabem que podem deixar-me, por assim dizer, aos meus próprios recursos, e que não haverá (agora está muito claro) fim concebível mais hediondo e sanguinário.

Estou perdido: perdido em absolutamente todos os sentidos, inclusive no sentido de que não sei onde estou ou para onde ir. E pior: depois das linhas que cruzei, meu caminho literalmente não tem volta.

Eu me iludi crendo que estava viajando no espaço, que não tem fim, e a travessia daquele vale revelou-me a horrenda verdade de que viajo no tempo, no meu próprio tempo, que é ridiculamente curto. Envolveu-me a terrível piada da reviravolta final.

Agora que sei quem desenhou aqueles canais, agora que entendo tudo que vi e me fizeram na ascensão do Monte Polar, agora que a sombra agarrou-se a mim como piche e sou impermeável ao sol…

(a parte inferior da página, contendo o que podem ter sido no máximo três ou quatro linhas, foi rasgada)


PRIMEIRA PAGINA DO DIÁRIO

Finalmente, depois de 35 anos de monótona travessia, avistei terra na manhã nebulosa de ontem. Meras três horas depois eu baixava âncora diante de uma longa praia regular, abrigada a oeste por um ângulo de terra que desenha na distância o que pode ser um golfo ou enseada.

Mesmo antes de descer o escaler sobe-me à cabeça o orgulho e a vertigem de finalmente conhecer e palmilhar o que todos afirmam que conhecem e que ninguém ousou ainda mapear.

Esta, porém, é minha terra; terra que apenas a mim pertence. Este será meu percurso, e não há fim, sinto no mais íntimo do ser, no que posso fazer e descobrir aqui. Nas suas praias, sou imortal.

Fazem 30 horas desde que coloquei o pé em terra, e estou ainda (ou já) a meio caminho de erguer a cabana pré-fabricada do que deve ser a Base 1. Enquanto os feijões enlatados crepitam, olho ao redor e faço uma pausa para escrever.

A terra é marcada; o ar é seco mas a terra é macia e úmida, sulcada por incontáveis e contraditórias erosões. Não há vegetação, mas o solo é de uma riqueza de floresta nebular. O acidente geográfico mais evidente é o vulto circular e distante de uma montanha altíssima e arredondada, a oeste de onde estou, e que batizei de Monte Polar. Não me ocorre outro trajeto mais desejável do que escalá-lo e fincar nele a minha bandeira, mas posso decidir primeiro rumar ao sul em busca do mar – ver se se trata mesmo de uma ilha.


NOTA DO EDITOR: O manuscrito encontrado na garrafa de dois litros de Coca-Cola trazia, além do mapa reproduzido acima, apenas duas folhas legíveis. As outras páginas, abundantíssimas, estavam inteiramente arruinadas pelo que podia ser tanto o efeito da água do mar quanto o de uma doentia e prolongada transpiração. Este artigo reproduz na íntegra o conteúdo das duas páginas sobreviventes na ordem em que sua leitura parece ter sido planejada, da última e mais recente para a primeira e mais antiga.



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