Para meu eterno demérito fui tratado (eu, a farsa) com toda a deferência que não mereço: acolhido, alimentado, paparicado, mencionado, incluído, aceito e estimulado. Eu, que já devo tanto, vivo agora debaixo do débito adicional que me impuseram duas casas de anfitriões e suas respectivas audiências. Dois assinantes da Bacia que eu não esperava ter conhecido pessoalmente se materializaram magnificamente no interior do meu abraço: o Vinicius de Maringá e o Agente Faustini do Serviço Secreto de Sua Majestade. Todas as portas se abriram para o homem que abria portas: neste mundo a beleza é comum.
Não tenho vocação para iconoclasta. Até os trinta eu cria, sob a influência de Macedonio Fernández, que a beleza é privilégio de uns poucos autores; agora sei que é comum e que está à espreita nas páginas casuais do medíocre ou num diálogo de rua. Assim, meu desconhecimento das letras malaias e húngaras é total, mas estou seguro de que se o tempo me oferecesse a ocasião de seu estudo, encontraria nelas todos os alimentos que requer o espírito.
Jorge Luis Borges, Sobre os clássicos, em Outras Inquisições
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