04 de Outubro de 2006

TERCEIRO PASSO: Desfrute sem possuir

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Fé e Crença

da série EM SEIS PASSOS QUE FARIA JESUS

Os primeiros passos, embora imprevisíveis e portanto virtuosos, são essencialmente cosméticos e relativamente pouco exigentes. Tudo começa a se desequilibrar quando se fala em dinheiro, e Jesus demonstra não ignorar isso. Ele então fala em dinheiro o tempo todo.

Nisso está outro aparente paradoxo seu: o Filho do Homem, que ostentava aos quatro ventos não ter salário nem casa própria, usava descaradamente o dinheiro e as riquezas para desenhar suas imagens e comparações mais fortes. Por um lado, não há como ignorar que sua postura geral é consistentemente crítica à obsessão – não desconhecida na sua época, inescapável na nossa – pelo acúmulo de bens materiais; por outro, fica claro que Jesus não ignora que a riqueza é muitas vezes a metáfora mais adequada, verdadeiramente essencial, para o que ele está querendo dizer.

Jesus, o frugal, o maltrapilho, não hesita em comparar o reino de Deus ao tesouro enterrado em quem alguém tropeçou, ou à pérola valiosa que um colecionador vendeu tudo que tinha para adquirir. Ele alerta que o tesouro de um homem e seu coração ocupam o mesmo lugar ao mesmo tempo, e que vale por isso mais à pena investir num tesouro no céu, onde a riqueza é imune a desvalorização e à apropriação indébita. A recompensa do reino é comparada a denários na parábola de Mateus 20, o perdão a uma dívida quitada em Mateus 18, e as responsabilidades do reino a talentos de ouro em Mateus 25 – isso para não sair do primeiro evangelho.

Provocativamente, como em tudo que fazia, Jesus acaba propondo que a esfera de Deus e seu imponderável domínio podem ser adequadamente comparados àquilo que associamos de forma mais imediata ao valor, ao desejo e à satisfação – não o sexo, não o amor, não o poder, mas o dinheiro (em que estão contidos os anteriores). A vida encontrada em Deus é apenas comparável à moeda que foi recuperada, à rês valiosa que se reencontrou: o tesouro que por um lado vale todo investimento, por outro o requer.

Em suma, usando as imagens de seu oponente, Jesus defende que riqueza material é, estritamente falando, contradição em termos. A única verdadeira riqueza, e inexpugnável, é a do espírito. Ele, no entanto, está longe de propor um ascetismo em qualquer sentido rigoroso; está longe de propor a mortificação dos sentidos que muitos (sem motivo) associaram à sua postura. Ao mesmo tempo em que garante que não vale à pena correr atrás do material, ele convida-nos a desfrutar incessantemente dele: olhai os lírios do campo, qual pai daria ao filho uma pedra em vez de pão, estou resolvido a jantar na sua casa, aceite este sanduíche de peixe, reabasteça meu copo de vinho, fui outro dia a um banquete, mais feliz que o convidado só o anfitrião da festa. Como diagnosticou Wilhelm Reich, Jesus é um homem inteiramente mergulhado no mundo da satisfação dos sentidos, talvez mais do que qualquer outro – sem que isso prejudicasse a sua reputação de homem espiritual.

É um equilíbrio que nos parece paradoxal, mas Jesus no fim das contas está dizendo que o pobre e o frugal estão melhor equipados para desfrutar das boas coisas da vida – não em virtude de qualquer pureza inerente de coração, mas simplesmente porque a limitação da sua condição força-os a valorizar o momento, que é no fundo o que todos tem. “Por mais empenhado que esteja, qual de vocês consegue adicionar meio metro à sua estatura?”

Para o rabi de Nazaré ser rico e ganancioso não é conduta especialmente corrupta ou perversa – está mais para o imbecil. Porque, ele ousa argumentar, correr atrás do material impede-nos precisamente de desfrutá-lo. O mais rastaqüera lírio do campo ostenta guarda-roupa mais exuberante do que o de Salomão; os pássaros banqueteiam-se e empanturram-se com mais gosto do que Herodes. Um pão de queijo no pé da serra desbanca o mais irretocável Boeuf Bourguignon. Uma caminhada ao lado de quem se ama sobrepuja o interior vazio de uma Ferrari. Um pé descalço é mais feliz do que o calça Mr. Cat. E assim por diante.

Seguir esse insano passo de Jesus requer ao mesmo tempo um intransigente desapego às coisas materiais e um deleite imoderado em desfrutar do que o material existe para fornecer. Exige desfrutar sem possuir.

Não quer dizer abrir mão do trabalho ou do dinheiro, visto que Jesus indiscutidamente convivia sem problemas com ambas as coisas. Não quer dizer abrir mão dos prazeres da vida, já que neste mundo o prazer é coisa tão comum que para abrir mão dele seria necessário abrir mão da vida. Trata-se, aparentemente, de ser e permanecer uma presença subversiva numa cultura que glorifica a incessante busca pela aquisição e pela acumulação. Trata-se de demonstrar em atos revolucionários e postura silenciosa que uma bem-direcionada frugalidade supre com folga e, no fim das contas, desqualifica e esgota essa abundância ilusória.

Significa, certamente, abrir mão do que o dinheiro existe para epitomizar: a segurança e o poder. Deve ser por várias razões que corremos atrás de dinheiro, mas correndo atrás dele confessamos carecer desesperadamente da sua credencial. Para os autores do Novo Testamento a ganância é idolatria porque é essencialmente mentirosa – promete segurança e poder quando ambos são derramados sem qualquer critério ou pré-requisito por Deus. O mundo de Jesus é seguro não porque os meus cofres e celeiros estão cheios, mas porque Deus é Pai. A ganância é mentirosa porque promete embalar e entregar, a seu preço, aquilo que Deus dá de graça no pacote básico da vida.

Viver como Jesus é certamente viver à margem do culto da performance. Alguns lírios talvez sejam mais bonitos do que os outros, mas a sua beleza essencial está em serem, não em estarem. Alguns pardais talvez cantem melhor do que os outros, mas nenhum é em última instância mais feliz porque canta melhor – e Deus sabe quando cai cada um, indiscriminadamente. Isto é, nosso valor não está em acumular, em desempenhar ou em possuir, mas em desfrutar, que é ser.

Viver assim não é também cultivar o ócio, mas é certamente não abrir mão da tranqüilidade e do autogoverno.

Não é por certo condenar os ricos ou evitá-los; tampouco é condenar a riqueza ou evitá-la. É por certo duvidar das promessas dos dois.

Para seguir os passos de Jesus é preciso abraçar o assombroso paradoxo de desfrutar sem possuir. O Apóstolo intuiu acertadamente essas coisas, e falou que devem ser “os que choram, como se não chorassem; os que se alegram como se não se alegrassem; os que compram como se nada possuíssem; os que se utilizam do mundo, como se dele não usassem; porque a aparência deste mundo passa”. Para ser como Jesus é preciso não viver para a riqueza e, ao mesmo tempo, não ignorar o seu poder de metáfora. É preciso não dobrar-se a Mamom, mas fazer uso descarado das riquezas a fim de fazer verdadeiros amigos (Lucas 16:9). É preciso usar o dinheiro sem ser usado por ele; extrair gozo do material sem ser desfigurado por ele. É preciso ser generoso como Deus, pobre como Jesus. Dar a César a ninharia que é de César, receber de Deus a abundância que é de Deus.



13 Comentários a respeito de "TERCEIRO PASSO: Desfrute sem possuir"

Lou Mello

Esse livro está ficando muito bom. Esse equilíbrio de Jesus em relação ao dinheiro é, realmente, um dos grandes ensinamentos desferidos por Ele contra nós e nós somos testemunhas disso. Ele não só mostrou como, mas, ousou desejar que nós fizéssemos o mesmo. Mas, dói aprender esses passos e como dói. Você é a pessoa certa para escrever sobre esse tema, não só pela capacidade na pena, mas, por toda a sua vivência nele.



Pacificador

Em viagem missionária pela África, visitei uma igreja em que o regente do coral vestia-se como um maltrapilho. Na frente de todos, movimentava seus braços magros tentando harmonizar as vozes mal educadas. Dentro de um paletó folgado – que herdara de um defunto maior do que ele -; pés descalços, demonstrava ginga de dar inveja em gente, como eu, geneticamente flexível como um eixo de trator. Caso a corda, que servia de cinto, não amarrasse bem, suas vergonhas seriam expostas em público – acredito que não possuísse aquela peça íntima do vestuário masculino que no Brasil serve para transportar dólares.

Diante daquele surrealismo cultural – um africano, numa igreja cristã protestante, regendo um coral tradicionalmente europeu, cultuando o Deus do judaísmo – lembrei-me do Sermão da Montanha. Os trajes daquele ministro de música não podiam ser comparados aos de Salomão ou aos lírios do campo.

Dá para notar que alguma coisa está bem torta no mundo. Não se pode afirmar que o Nazareno tenha se equivocado ao prometer que seus filhos se vestiriam com um mínimo de dignidade. Conclui-se então, que a ordem mundial atolou em sua injustiça. Não falta dinheiro para o Pentágono; os bancos suíços guardam, com sete chaves, fortunas acumuladas há séculos; o consumismo ocidental sobrevive devido a indústria da propaganda, que fez da ganância a força propulsora do capitalismo; a cristandade não resistiu ao fascínio avassalador de Mamom. Só os evangélicos ocidentais não conseguem admitir que suas instituições sobrevivem com uma espiritualidade egocêntrica.

O mundo foi reprovado no exame preliminar do Reino: como Midas, não soube lidar com a riqueza.



André Antonio

É incrível como Jesus sempre disse que os pobres estavam em melhor situação que os ricos. Realmente, não possuir muitos bens e status lança o homem bom, automaticamente, na condição de apenas se valer na sua dignidade. Deixa o cara livre para ser, sem os disfarces coloridos da máscara do poder.



hernan

Paulo, seu texto não é menos que brilhante e esta série é riquíssima. Só lamento que você esteja fadado ao mesmo destino de Jesus: não ser ouvido como deveria. Darão um jeito de domesticar seus textos e os tornarão palatáveis a uma variedade de gostos. Não espere que suas palavras mudem muita coisa ou muita gente. Não se admire se daqui a décadas usarem o conteúdo da Bacia para outros fins diversos que não a elaboração de provas para concursos.



Junior

Às crianças de outras terras

Não posso mais conciliar o sono…
Em macabras visões, ao abandono,
frágeis figuras trêmulas, esquálidas,
arrastam-se ante mim nas noites pálidas.
Em fúnebre cortejo lento, infindo,
eis crianças que vêm vindo, vêm vindo…
Crianças de olhos fundos e magoados,
e de alma e coração dilacerados.

Não posso mais comer… Por toda parte
cruzam-se os olhos vítimas de Marte,
rostos famintos de criaturas débeis;
pedindo teto e pão, em vozes flébeis.
Observam-me crianças, mais crianças,
invejam o meu pão, sem esperanças…
E a boca já me amargam meus bocados,
vendo os meninos doentes, esfaimados.

Não posso mais sorrir, por mais que o tente…
Vem-me ao ouvido o soluçar plangente
daqueles que não mais sabem sorrir.
E as filas de crianças a pedir
um bocado de pão, uns agasalhos,
enchem a ruas, tomam os atalhos…
Vai pelo mundo a guerra, vai a dor,
e em pranto, os lábios tremem de amargor…

Não devo mais juntar avaramente
o vil metal, ficando indiferente
à tragica miséria das crianças
que trazem na alma tétricas lembranças…
Como fugir a tão tristonho olhar?
Aos rogos infantis, como escapar? – Aqui estou! o meu celeiro farto,
doces crianças, com vocês reparto!

H. W. Farrington



Roberto Bobrow

Querido amigo: Este texto es hermoso e inteligente. Pero no hay paradoja en Jesús.

El hizo lo que siempre hicieron los mejores hijos de Israel: usar el método familiar para criticar el contenido (la conducta del pueblo, sobre todo los ricos). Y proclamar el derecho de los pobres a disfrutar de Este Mundo (¿no eran comunistas sus discípulos?)

Lo mismo hicieron Marx (“el dios de la semana es el dinero”) o Freud (“economía libidinal”, “miseria sexual”, etc).

Como dice mi esposa Eva: “los frutos mejores y más grandes son los primeros en caer del árbol”. Y eso es perfectamente lógico ¿no te parece?.

Un abrazo.



Junior

Eu Buscarei

Quando houverem falado os sábios deste mundo,
aos profetas e à lei tirando o tom profundo,
ao Gênesis roubando toda a maravilha,
eu buscarei ainda uma religião
com o Mar Vermelho em ampla trilha,
uma arca e a nívea pomba a alar-se na amplidão.

Ao jardim e à serpente irão os olhos meus,
irão ao nobre par feito à imagem de Deus,
à espada chamejante e às novas de um Messias!
A crença buscarei que a baal desmorona,
que faz chover maná por sucessivos dias,
e a jonas, lá do abismo, traz à tona.

Quando um vovô ao neto contar a grande história da criação,
levando-o a abeberar-se nessa fonte inglória
dos germes na evolução;
quando o candente verbo dos profetas
for reduzido a proporções banais,
a crença buscarei que é poder e é mistério – alta demais
para a míope visão desses sábios mortais.

Quando as névoas da dúvida envolverem
do Nazareno o vulto;
quando a ovelha perdida em vão clamar
e for em vão de Madalena o culto;
quando na velha e doce história esmaecerem
de joão três dezesseis as virtudes sem par,
então, procurarei a outro Salvador… – Mas a quem irei eu? Onde um outro Calvário
e o sepulcro vazio e seu branco sudário
testificando em prol de meu Senhor?

Mas que direis, se a boca das criamças
vos dita, ó sabios, a razão final,
a vós, que sofismais – estulta confiança!
de um Deus vivo e potente a existência imortal?
Que se dos mártires o sangue bem proclama
um Cristo assunto a ministrar, enfim?!
Oh! de joelhos buscarei as Escrituras
e, à sua luz, verei, lá das alturas,
a gloriosa luz da vida para mim!

Um abraço.



Luciano Brantes

Olá Paulo

A pouco descobri seu blog e tenho me alegrado com os textos encontrados aqui. Essa série Em Seis Passos Que Faria Jesus tem me feito um bem muito grande a minha alma. Essa percepção quanto ao trato de Jesus com relação as riquezas foi maravilhosa. Que você possa continuar a ajudar muita gente a trilhar esses passos.

Um grande abraço



rubens osorio

Seja o desejo de seu novo amigo acima, o Luciano, o meu desejo tambem!
1 abraço!



Joao Bolzan

Caro Paulo!!! Tuas palavras desconcertantes me incomodam e desafiam a repensar meu cristianismo… Obrigado, estava mesmo precisando de um abalo. Em Cristo. Joao.



Levi

Paulo

Ler isto me descontruiu como “cristão”:

“Se é que não ficou ainda claro, meu respeito e meu amor por você não nasce da ausência de divergência entre nossas posições. Você é você e isso já é inteiramente irresistível, para mim ou para o Deus sob todos os nomes.”

Eu agradeço o tempo investido em aqui escrever tanto, creio estar agora melhor preparado para ser moldado.

Abraço
Levi



alexandre guzzardi

Fiquei feliz em ler o que foi escrito… O evangelho ainda continua desafiando os homens a ser e nao ter. ale



maisa

“A ganância é mentirosa porque promete embalar e entregar, a seu preço, aquilo que Deus dá de graça no pacote básico da vida.” Bastava apenas essa frase para que eu soubesse que Jesus está lhe dizendo: “Bem-aventurado és tu, PAULO BRABO, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus.”



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