16 de Junho de 2006

Sobre os recatos perdidos

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Goiabas Roubadas, Sociedade

É claro que uma pessoa saturada com o falso gosto dos tempos vitorianos, e relutante em ver a vida representada com sinceridade, hesitaria naturalmente diante de muitas fases da literatura moderna – mas isso é culpa da insinceridade vitoriana, não da literatura moderna. Não há o que se lamentar com o fim da hiprocisia e melindres vitorianos. Basicamente, não foi tanto a vida que mudou, mas meramente costumes e modos de expressão. E como grande parte dessas mudanças foram no sentido de uma maior sinceridade, creio que há mais que louvá-las que deplorá-las. É por certo uma infelicidade que alguma consideração e amenidade tenham perecido junto com a untuosa hipocrisia, mas no fim das contas creio que os lucros superam os prejuízos.

Nunca houve um “velho modo de vida equilibrado e natural”: o que havia era um perfumado reboco de falsa atenciosidade e convencionalismo emplastrado sobre um mundo de cega hesitação essencialmente indistinguível do nosso. Muitos dos ideais pelos quais as coisas eram julgadas eram tão falsos e vazios que resultavam em desajustamento perpétuo e hipocrisia crescente, ao mesmo tempo em que o insensato padrão de polida delicadeza gerava um modo de expressão que anulava o mérito da maior parte dos esforços artísticos.

Supervalorizamos a era vitoriana porque foi a última fase não-mecanizada do mundo.

H. P. Lovecraft, em carta de 24 de janeiro de 1933 a Elizabeth Toldridge.



Um comentário a respeito de "Sobre os recatos perdidos"

estanislau

Paulo, você renovou-me a esperança, pois acabas de deflorar-me a tênue inocência ao dissipar a neblina que encobria a hipocrisia passada, e revelar a autênticidade presente.

Á você e a Lovecraft; Parabéns!



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