10 de Julho de 2006

Sobre dar nomes a primatas

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Michael Foucault revela que foi a leitura de um parágrafo de Borges e a gargalhada resultante que motivou-o a escrever sobre a história paradoxal das ciências humanas. A passagem em questão cita uma “certa enciclopédia chinesa” em que está escrito que “os animais dividem-se em: (a) pertencentes ao imperador, (b) embalsamados, (c) adestrados, (d) porcos lactentes, (e) sereias, (f) fabulosos, (g) cachorros vira-latas, (h) incluídos na presente classificação, (i) frenéticos, (j) inumeráveis, (k) desenhados por um pincel finíssimo de pêlo de camelo, (l) et cetera, (m) os que acabaram de quebrar uma botija d’água e (n) os que à distância ‘se parecem com moscas’”.

Foucalt viu formidavelmente demonstrada nessa taxonomia “a limitação do nosso próprio sistema de pensamento” – pois é naturalmente tão arbitrário dividir os animais entre embalsamados e pertencentes ao imperador quanto entre eucariontes e procariontes.

Classificações e categorias são confortos que nos parecem úteis – ajudam a “passar pela vida”, para usar uma expressão atribuída a Homer Simpson – mas não sobrevivem ao inclemente exame da honestidade. Rótulos são simplificações que nada explicam: têm a utilidade imediatamente anulada pela arbitrariedade.

Meios de transporte, animais, seres humanos e pedras preciosas não “se dividem” em categorias que não sejam necessariamente fortuitas e imediatamente questionáveis.

Impossível não pensar na sensatez do protagonista de O Perfume, de Patrick Süskind, que não compreendia o onipresente contra-senso que era chamar todos os dias de “leite” uma substância cuja cor, composição, aroma e aspecto geral variava tão notavelmente a cada manhã. A realidade era para ele de uma riqueza que o rótulo estava longe de poder abarcar.

Dar nome às coisas é uma terrível concessão, e apenas recorrer a nomes próprios deveria ser considerado coisa mais abominável ou imprecisa do que cometer substantivos.

Chamar consistentemente este único primata de “Paulo” é incorrer em duas inexatidões igualmente supersticiosas: (1) supor que exista alguma identidade imanente entre o homem que está agora falando e o homem de ontem ou o de quinze minutos atrás, e (2) pressupor que exista alguma distinção fundamental e sacrílega entre um homem e outro. Desconheço o que pode ser pior.

Uma nação inteira sem nomes próprios, é o que requereria de fato a virtude, a decência e a correção. Um mundo em que só se pudesse dizer, e ainda com muita penitência pela simplificação, “dei um presente ao homem” ou “amo a mulher”. Difícil dizer o quanto seria teologicamente mais preciso e rigorosamente mais justo esse hipotético idioma.

Post to Twitter



Inquisição


Arquivos
 

Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
Lista de entrega

Clique aqui para receber o conteúdo da Bacia por e-mail