Michael Foucault revela que foi a leitura de um parágrafo de Borges e a gargalhada resultante que motivou-o a escrever sobre a história paradoxal das ciências humanas. A passagem em questão cita uma “certa enciclopédia chinesa” em que está escrito que “os animais dividem-se em: (a) pertencentes ao imperador, (b) embalsamados, (c) adestrados, (d) porcos lactentes, (e) sereias, (f) fabulosos, (g) cachorros vira-latas, (h) incluídos na presente classificação, (i) frenéticos, (j) inumeráveis, (k) desenhados por um pincel finíssimo de pêlo de camelo, (l) et cetera, (m) os que acabaram de quebrar uma botija d’água e (n) os que à distância ‘se parecem com moscas’”.
Foucalt viu formidavelmente demonstrada nessa taxonomia “a limitação do nosso próprio sistema de pensamento” – pois é naturalmente tão arbitrário dividir os animais entre embalsamados e pertencentes ao imperador quanto entre eucariontes e procariontes.
Classificações e categorias são confortos que nos parecem úteis – ajudam a “passar pela vida”, para usar uma expressão atribuída a Homer Simpson – mas não sobrevivem ao inclemente exame da honestidade. Rótulos são simplificações que nada explicam: têm a utilidade imediatamente anulada pela arbitrariedade.
Meios de transporte, animais, seres humanos e pedras preciosas não “se dividem” em categorias que não sejam necessariamente fortuitas e imediatamente questionáveis.
Impossível não pensar na sensatez do protagonista de O Perfume, de Patrick Süskind, que não compreendia o onipresente contra-senso que era chamar todos os dias de “leite” uma substância cuja cor, composição, aroma e aspecto geral variava tão notavelmente a cada manhã. A realidade era para ele de uma riqueza que o rótulo estava longe de poder abarcar.
Dar nome às coisas é uma terrível concessão, e apenas recorrer a nomes próprios deveria ser considerado coisa mais abominável ou imprecisa do que cometer substantivos.
Chamar consistentemente este único primata de “Paulo” é incorrer em duas inexatidões igualmente supersticiosas: (1) supor que exista alguma identidade imanente entre o homem que está agora falando e o homem de ontem ou o de quinze minutos atrás, e (2) pressupor que exista alguma distinção fundamental e sacrílega entre um homem e outro. Desconheço o que pode ser pior.
Uma nação inteira sem nomes próprios, é o que requereria de fato a virtude, a decência e a correção. Um mundo em que só se pudesse dizer, e ainda com muita penitência pela simplificação, “dei um presente ao homem” ou “amo a mulher”. Difícil dizer o quanto seria teologicamente mais preciso e rigorosamente mais justo esse hipotético idioma.


