Como se sabe, em inglês usa-se um único verbo, o infame to be, para duas condições que em português e outras línguas de gente não poderiam ser mais distintas uma da outra: ser e estar.
Às vezes penso que a origem da diferença entre as barbaridades perpretadas pela América contra o mundo e as barbaridades perpetradas pelo Brasil contra si mesmo está na diferença do idioma. É uma questão clara de ser e de estar. To be or to be, that is the question.
Porque, naturalmente, não pode haver psicologia mais oposta do que entre alguém que diferencia ser de estar e alguém que não. Trata-se de uma distinção filosófica fundamental, talvez A distinção filosófica por excelência, aquela entre a imanência e a transcendência, entre o temporal e o eterno, entre o infinito e o além – e que em inglês não tem como ser expressa adequadamente.
“Ser ou estar, eis a questão”.
O cara diz “I am sad” e você não tem como dizer se ele está triste ou se é um cara triste. Shakespeare diz “that is the question” e você não tem como saber se a questão em questão é temporária e localizada ou transcendente e diz respeito a todas as épocas. Talvez a melhor tradução seja mesmo a minha: “ser ou estar, eis a questão”.
Pessoalmente, não consigo imaginar como seria minha relação com um universo que não diferencie propriamente ser de estar. Se alguém pergunta se estou brabo, minha resposta pronta é “eu sou brabo,” distinção sofisticadíssima primária que em inglês é impossível fazer.
Dentre as dificuldades para um english-speaker que se dispõe a aprender o português, a bifurcação do to be não será a menor. O sujeito vê-se obrigado a recorrer a artifícios (“ser” é sempre, “estar” é temporário”) para tentar explicar a si mesmo a diferença que para nós é natural como sanduíche. Ser não é “sempre”, nem estar é “temporário”. Isso não diz nada, my dear. Ser é ser, estar é estar. Se houvesse outro jeito de dizer, o português, que é uma língua riquíssima, diria.




hernan
Hmmm, bela observação! Mas ainda não sei dizer se a distinção entre “ser” e “estar” está correta em vista da unicidade do Cosmo.
Porém, diante da acidentalidade de nossa condição, é absolutamente necessário distinguir.
rubens osorio
Eu ser muito feliz por estar um dos leitores deste magnifico blog. Ou vice-versa…
Cassio
não se trata de um problema, mas de uma solução. pq será que a metafísica vicejou entre os continentais enqto os pensadores britânicos nos deram o empirismo e o pragmatismo? além disso, como bem gostava de apontar o Foucault, identidade não é um problema filosófico e, sim, uma necessidade da polícia. e como vc pode dizer que não “está brabo”, que “é brabo” se Brabo é uma máscara?
Paulo Brabo
Esse é o Cássio que eu conheci. Quem sou eu para contradizer Foucault ou acreditar na máscara.
bete
“gosto de sentir a minha língua roçar a língua de luiz de camões, gosto de ser e de estar…” caetano.