O videoclipe talvez seja a forma de arte pós-moderna por excelência, mas o trailer de cinema permanece como curioso ícone das contradições da nossa era.
O propósito do trailer é, naturalmente, gastar os seus dois ou três minutos de vida na ingrata missão de convencer você a pagar para assistir o filme principal. Num mundo sensato o trailer deveria ser capaz de fazê-lo sem revelar os trunfos e reviravoltas do filme – afinal de contas, quem seria bobo de pagar para ver uma história cujas surpresas já conhece e cujas melhores partes já assistiu?
Aparentemente, todo mundo.
Os executivos de Hollywood descobriram já desde a década de 1940 que as pessoas deixam de ver filmes por vários motivos, mas saber muito a respeito do roteiro não está entre eles. Pelo contrário: parece que as pessoas sentem-se muito mais à vontade assistindo a um filme com cujas linhas gerais já estão familiarizadas. Elas em geral acham muito pior pagar pelo desconforto de sentar-se diante de um filme com cujo teor e mensagem não se sentirão à vontade.
Você assistiria Romeu e Julieta se soubesse que ambos morrem no final?
Nem todos os trailers de cinema se dão portanto ao luxo de serem classudos como o trailer original de Alien: O oitavo passageiro. Com tanta coisa em jogo e sabendo que vale à pena queimar todos os trunfos nessa cartada de minutos para conquistar o consumidor, a regra geral é apresentar não apenas os personagens, mas também o conflito e as seqüências mais espetaculares. A ciência do trailer desenvolveu-se a tal ponto que muitos são friamente calculados para serem efetivamente melhores do que o próprio filme (e para salvá-lo), apresentando seu próprio senso de ritmo, edição e trilha sonora.
Hoje em dia apenas os diretores mais badalados e com maior controle sobre as suas produções, como Steven Spielberg e M. Night Shyamalan, têm cacife para exigir dos estúdios um trailer mais reservado.
Porém esses são exceção: na dúvida entre revelar pouco e revelar demais, os estúdios ficam com a segunda opção, que é invariavelmente a mais segura.
Paradoxalmente, nem os filmes de mistério, que dependem de sutilezas como clima, ritmo e a bem-sucedida distribuição de falsas pistas, escapam dessa maldição. O competente Revelação (What Lies Beneath, Dreamworks, 2000), de Robert Zemeckis (diretor de Forrest Gump e que não é, ele mesmo, um diretor menor) é um filme de mistério com várias camadas, sutilezas e reviravoltas, todas as quais são reveladas, ou pelo menos espetacularmente sugeridas, no desconcertante trailer.
Assisti há alguns meses o trailer de Lady in the water, o novo filme de Shyamalan, e sei pouco sobre a história a não ser que tem uma mulher, uma piscina e um homem. Não há nenhuma explosão visível mas fiquei ainda assim com vontade de assistir.
Mas não se iluda: o ser humano é tamanho enigma que eu teria pago para ver O Sexto Sentido mesmo se soubesse de antemão que, por assim dizer, ele morre no final.




hernan
Já por várias vezes tive mesmo a sensação de descontentamento pela expectativa não satisfeita e não sabia o motivo. Afinal, o trailer parecia tão legal. Agora descobri o truque.
Como é que não notei isso antes!
Ivan Volcov
Quando vou ao cinema eu fecho os olhos para não ver os trailers dos filmes que pretendo assistir mais tarde.
Já dos filmes que não me interessam eu vejo o trailer não apenas para poder descartar definitivamente a idéia de perder duas horas e alguns reais assistindo um filme palha, mas também para reforçar minha convicção de que realmente o máximo que eu deveria dispender com a história são os dois minutos do trailer.
PS. Antes de assistir o filme, não leio crítica de jornal e resumo de contra capa de DVD.
hernan
Boas dicas.
Vou experimentar.
Farah
Concordo com todos os posicionamentos em relação aos trailers, mas eu odeio particularment os making of.
Mesmo depois de assistir o filme, especialmente os que eu gosto muito.
Claro efeitos especiais e toda esta especie de coisas, tem um apelo diferente, mas eu sempre me sinto triste com o desvelamento da magia.
Marconi Bartholi
Eu já não gosto de assistir filmes que sejam adaptação de livros, principalmente os que se enquadram entre clássicos ou aqueles que pessoalmente me marcaram.
Fiz força, fechei os olhos diante de todo o merchandising que me perseguia na época do Nárnia. Agora fugi da adaptação do Ask the Dust de John Fante. Mas não deu pra escapar de uma imagem ou outra com a Selma Hayek e o Collin Farrell, pronto assim como o leãzinho da Disney o suficiente para avacalhar com a minha interpretação mental dos personagens!!!
Mas por outro lado nunca tinha lido Tolkien, por exemplo, nunca fui louco pela história dos anéis, mas ter assistido ocasionalmente o primeiro filme numa tarde chuvosa de verão, me fez detonar a trilogia toda em um dia!!!
Bem-vindo ao governo de Hollywood!!!
Jo Lorib
Digamos que ele está morto no final do ‘Sexto Sentido’. Daria para ver o filme sabendo disso, mas tiraria o impacto.
Edson Lehr
Putz, eu demorei uns 2 anos para assistir o Sexto Sentido simplesmente porque uma conhecida me contou TODO O FILME. Nem cheguei a ver o trailer. E nesses 2 anos eu fiquei torcendo p’ra esquecer a história toda, mas não rolou. Acabei vendo assim mesmo, puto da cara.