06 de Fevereiro de 2006

Portentos

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Durou apenas um instante, mas naquele instante a avó, viúva havia 47 anos, olhou para o neto (agora com ressonância de homem) e tudo que conseguiu enxergar foi o marido; a semelhança, ela sabia, sempre havia estado lá, mas naquele momento a pungência e a improbabilidade daquilo tudo tocaram-na com eloqüência de assombração. Levando a mão à boca, ocorreu-lhe que era coisa afortunada que a visão não fosse de fato o marido, porque se fosse ela não saberia o que fazer ou dizer a ele. Estapeá-lo, talvez, de pura e simples saudade – puni-lo implacavelmente pelo rancor da ausência, pela insuficiência dela mesma, pela secura e pelo vazio dos anos.

A velha beliscou as bochechas, embaraçada. Parte dela sabia que estava mentindo para si mesma. Era impossível, ela sabia, que o neto se parecesse mais com o marido do que o marido se parecera com ele mesmo durante os vinte verões que haviam passado juntos.

O neto acenou em despedida junto do portão, e a avó entrou em casa e colocou uma chaleira para o chá. A água secou, e a mulher morreu sentada na sala enquanto esperava.


Estávamos num navio (embora eu não me lembre nós quem além de mim) atravessando um grosso nevoeiro. O ânimo dos passageiros era mais aventuroso do que sombrio, embora nossas circunstâncias não fossem aparentemente muito promissoras. Dei as costas para o cheiro de vinho e as risadas dos amigos e procurei um caminho para a ponte, que ficava vários andares acima do salão do convés onde estávamos. Encontrei uma porta que abriu, para minha surpresa, diretamente para a água leitosa, quase branca. À minha direita um lance de escadas metálicas, cujo corrimão agarrei imediatamente. A subida levou-me a outra porta, que abriu para um recinto inteiramente vazio, de amplas janelas – inteiramente pintado de branco. Como uma casa para alugar, pensei. Pensei também que estava sonhando, que navio e nevoeiro eram parte da mesma ilusão, e que o aposento estava vazio porque minha imaginação não tinha tido tempo ainda de povoá-lo. No momento seguinte julguei o contrário: o nevoeiro talvez fosse metáfora para um obscurecimento mental; o nevoeiro era alucinação tolerável para algo não-visto que nos fazia acreditar que estávamos sonhando quando de fato não estávamos.

Entrevi outro lance de escadas brancas perdendo-se nevoeiro acima e atravessei o recinto na direção da porta que me levaria até ela.


Na cidade de Teperi, no Maranhão, o homem saiu de casa apressado na luz do crepúsculo e pisou sem querer num sapo. O sapo saiu pulando assustado da varanda, mas pelo barulho licoroso que fez na hora da pisada o homem achou que ele não tinha como sobreviver.

O fato de ter pisado num sapo daquele jeito lhe pareceu singular e onírico, embora ele tivesse certeza de estar acordado. Se isto fosse um sonho, refletiu ele, eu teria de contar ao meu analista e o sonho estaria prenhe de significado. Como não estou sonhando, não significa nada.

Então tocaram a buzina para apressá-lo, e ele foi embora acreditando mesmo naquilo.



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