04 de Julho de 2006

Perto dos lábios, longe do coração

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Fé e Crença, Goiabas Roubadas

Existe ainda uma insatisfação crescente para com qualquer abordagem lógico-filosófica que não abre espaço para uma visão mais holística da nossa história. Em sua obra essencial, Theopoetic: Theology and the Religious Imagination, Amos Wilder afirma que é ao nível da imaginação que as questões de religião devem ser tratadas. Ele questiona o que chama de nossa “antiga dependência química a um modo de pensar analítico, racionalista e prosaico” e conclama a um uso mais generalizado da imaginação, pois ela é “componente necessário de todo verdadeiro conhecimento e celebração”. Wilder critica “o imbecilizante axioma de que a verdade genuína (ou a verdadeira sabedoria) deve limitar-se ao que pode ser enunciado sob a forma de prosa conceitual, em linguagem denotativa, despida de qualquer sugestão conotativa: num enunciado ou descrição de caráter científico”.

A teologia é para a narrativa bíblica o que a crítica literária é para a literatura: mero comentário sobre uma forma superior de expressão.

Thomas Driver diz a mesma coisa em Patterns of Grace:

Alguns teólogos tem começado a demonstrar interesse na importância da narrativa, sentindo que o nosso discurso lógico, científico e teológico é secundário. Compartilho dessa visão. Tenho há muito refletido que a teologia é para a narrativa religiosa o que a crítica literária é para a literatura: mero comentário executado sobre uma forma superior de expressão. Sou um dos que crêem que a teologia afastou-se demais, no curso do tempo, de suas raízes narrativas. Encontro-me não apenas concordando que toda teologia tem origem em narrativas, mas também ponderando que todo conhecimento provém de um modo dramático de compreensão. Longe de meramente ilustrar verdades que já conhecemos de algum outro modo, a imaginação dramática é o modo pelo qual damos os passos essenciais rumo ao conhecimento de qualquer natureza.

Sallie McFague acrescenta sua voz: “No momento em que se torna excessivamente abstrata, conceitual e sistemática, a teologia separa pensamento de vida, crença de prática e palavras de incorporação, tornando difícil, se não impossível, crermos no coração no que confessamos com os lábios”.

William J. Bausch, Storytelling: Imagination and Faith

 

Este documento faz parte da série

Teologia narrativa

  1. A narrativa divina
  2. Narrativa versus teologia
  3. Perto dos lábios, longe do coração


2 Comentários a respeito de "Perto dos lábios, longe do coração"

hernan

Bom saber que não estamos sozinhos à margem do discurso oficial.

Há quem diga por aí que os conteúdos da teologia contêm a Palavra de Deus [sic!].



Luiz Henrique Mello

Quando fala o coração, é muito comum surgirem críticas fundamentadas no argumento científico. Uma luta que está muito longe de terminar.



Heaven's Radio
 

 
Inquisição


Arquivos
 

Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
Lista de entrega

Clique aqui para receber o conteúdo da Bacia por e-mail