Havendo um Deus ou coisa parecida
Como estou supondo que haja
(e deixo às vezes que chamem essa pia insensatez de fé)
Estou sabendo que ele pode ser implacável como um tirano
e deixar-me apodrecendo por anos na masmorra
sem aliviar a pena e sem dar satisfação
Ou sonso como um amante
e cobrir-me de presentes e fazer todo tipo de bobagens só pra me agradar;
pode inclusive ser ao mesmo tempo as duas coisas, o fanfarrão,
pelo prazer puro e simples da exuberância.
Ele não cabe na caixinha que lhe prepararam os teólogos
Nem na caixona que eu, que tenho mais humildade e cabeça maior, lhe dediquei:
quando estou pronto para dissecá-lo ele me escapa da mão.
E quer dançar quando quero sossego,
Quer dormir quando quero conversar,
Bate na porta quando não estou para ninguém,
E, com maior freqüencia, vice-versa.
Ele não me deixa em paz
E consistentemente me ignora
E sua imprecisa lacuna me define.




