03 de Agosto de 2006

Perfil

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Havendo um Deus ou coisa parecida
Como estou supondo que haja
(e deixo às vezes que chamem essa pia insensatez de fé)

Estou sabendo que ele pode ser implacável como um tirano
e deixar-me apodrecendo por anos na masmorra
sem aliviar a pena e sem dar satisfação
Ou sonso como um amante
e cobrir-me de presentes e fazer todo tipo de bobagens só pra me agradar;
pode inclusive ser ao mesmo tempo as duas coisas, o fanfarrão,
pelo prazer puro e simples da exuberância.

Ele não cabe na caixinha que lhe prepararam os teólogos
Nem na caixona que eu, que tenho mais humildade e cabeça maior, lhe dediquei:
quando estou pronto para dissecá-lo ele me escapa da mão.

E quer dançar quando quero sossego,
Quer dormir quando quero conversar,
Bate na porta quando não estou para ninguém,
E, com maior freqüencia, vice-versa.

Ele não me deixa em paz
E consistentemente me ignora
E sua imprecisa lacuna me define.



9 Comentários a respeito de "Perfil"

bete

Pô, meu, cara!!! Que demais!!!



Lívia Farah

Analisando suas palavras e as palavras de Nietzsche, em O Anti-Cristo (que por coincidência comecei a ler ontem), sinto-me confusa quanto à minha vontade (ou seria receio?) de ter “essa pia insensatez” chamada fé.



Paulo Brabo

Se não quer cair nas mãos de Deus não se deixe muito menos cair na dissimulação de Nietzsche, que fingiu em O Anti-Cristo crer que a compaixão é a invenção mais lamentável do cristianismo, quando se sabe que é sua bandeira mais notável. Mas Nietzsche era profeta como qualquer outro, falava em parte para não ser entendido.



Luiz Henrique Mello

E não se deixe cair na dissimulação do Brabo que também fala em parte para não ser entendido.



hernan

Desde que percebi que Ele não cabia na caixinha logo, soberbamente, intentei encontra-Lo em minha igualmente caixona.

O resultado deve ser por todos conhecidos conhecido.

E olha que a minha caixona nem se compara à do Brabo.

Tudo que sei é que Ele é uma Pessoa. Simplesmente não dá para colocar pessoas em caixinhas ou caixonas. Sequer os caixões podem contê-las, pois, como se sabe, “a vida é mais que o corpo”.



hernan

Paulo, faça o favor de corrigir pra mim. Escrevi “conhecidos”. Por favor, coloque no singular.

Obrigado.

É, até eu erro…



rubens pires de lima osorio

Mon Dieu! Acabei de postar no “Salada Mista” uma menção ao filme “Quem somos nós?”, que tem tudo a ver com essa tua poesia… coincidência virtual?!



Lívia Farah

Nietzsche, Brabo… eu sou filha do Farah, sei lidar completamente com esses seres que falam em parte para não serem entendidos.



hernan

HUahuAHAUHahu!!!
:lol:



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