Não tem fundamento a esperança de uma reconstituição completa do processo. Registro minha versão de segunda mão sem esperança de ser lido, entendido e muito menos – como seria inevitável há, digamos, trinta anos – compilado ao lado de outros na pretensão de um todo coerente. Não somos mais assim e é consenso universal que estamos em posição mais vantajosa.
O presente mundo é obra de um único teórico letonês, o tecno-místico Ainars Butchins, que em três ou quatro postagens do seu blog definiu o que veio a chamar-se (sem a intervenção dele) “paradigma de função”. O conceito, notável ou inevitável para a época saturada em que foi elaborado, declara simplesmente que num mundo tecnológico idealmente organizado o que está funcionando deve permanecer invisível. A idéia pendia de manuais de administração e design havia décadas, mas nunca havia sido colocada por escrito com essas palavras. Essa escolha de palavras gerou o nosso mundo.
A verdadeira invisibilidade era considerada, naturalmente, uma impossibilidade científica, e a tese de Butchins parece ter sido recebida como mero instrumento de validação do minimalismo impessoal que definia a disposição física de escritórios e linhas de montagem nas corporações.
Não foi assim que o interpretou um então desconhecido estudante de Hong Kong, cujo nome ocidental é Nelson Chu. Patrocinado por uma universidade norte-americana (nunca ficou-se sabendo qual), Nelson trabalhou por três anos e meio num projeto cujo propósito nominal era a redução da fadiga visual em ambientes corporativos. Ao final do período Chu havia inventado a invisibilidade perceptual. Nelson Chu foi por dez ou doze anos o homem mais rico da terra, quando essas particularidades eram possíveis.
A invisibilidade perceptual foi aparentemente o primeiro experimento bem-sucedido de brain hacking, – e neste caso o ajuste manual do cérebro envolvia dois comprimidos de cores diferentes e uma agulha indolor introduzida por um instante no ouvido esquerdo. Quem se submetia ao experimento tornava-se em dois ou três dias – e definitivamente – imune à percepção visual de determinado padrão de losangos coloridos que lembrava para alguns a roupa de um arlequim, e que foi registrado sob o nome comercial de Sensee. Um avião, um feixe de cabos, um tapume – qualquer objeto pintado ou recoberto com o padrão tornava-se perceptualmente invisível para o hackeado (seer). A invisibilidade perceptual podia ser temporariamente anulada submetendo-se o seer à mínima diferença de potencial elétrico – fazendo-o segurar entre os dedos uma bateria AA, por exemplo.
O que está funcionando deve permanecer invisível.
As aplicações não demoraram a aparecer. A Sensee de Nelson Chu lançou em janeiro de 2012 os cabos Invizen, que um revestimento interno de fibra de vidro mantinha eletronicamente recobertos com o padrão colorido Sensee, de modo a mantê-lo invisível para os hackeados. Em conformidade com o dogma de Ainars Butchins, a membrana de fibra desfazia automaticamente o padrão visual Sensee assim que qualquer irregularidade funcional era detetada pelos onipresentes (já nos dias de Butchins) sensores de falhas. Fiamentos, tubulações e equipamentos inteiros (como aquecedores) podiam dessa forma ser mantidos sensatamente invisíveis até que a visibilidade denunciasse que careciam de reparo.
A adoção da tecnologia foi unânime: primeiro na Europa e na Ásia, logo no restante do mundo, as indústrias haquearam compulsoriamente seus funcionários, adotaram os cabos e membranas Invizen, e o paradigma de função invadiu a vida real.
Os passos seguintes é que são irrecuperáveis. Como descobriu-se da maneira mais inusitada, num mundo conectado a adoção de uma idéia pode ser tão avassaladora ao ponto de ser impossível de rastrear. Em menos de cinco anos o paradigma de função havia saltado de escritórios e fábricas para acessórios domésticos e de decoração. Em menos de uma geração havia tanta coisa funcionando sob o dogma de Butchins e a tecnologia de Nelso Chu que boa parte do mundo tornara-se invisível: computadores, mesas, cadeiras, usinas, roupas, paredes, carros, assoalhos, capas de livro e baterias AA. A singularidade aconteceu quando as crianças começaram a nascer hackeadas, visualmente impermeáveis ao padrão Sensee mesmo antes de passarem pela transição que havido sido necessária para seus pais.
Hoje vivemos inteiramente nus, dormimos sob o abrigo das árvores e colhemos nossa comida diretamente do solo. Tudo parece estar funcionando, mas não encontro uma bateria AA e não tenho como conferir.
![]()


Manuel Anastácio
Lindo e paradoxal. Mas as árvores e o solo não funcionavam? Ou o conceito de função não é aplicável ao mundo natural?
hernan
Seu subversivo.
Lou Mello
Desconstruindo nosso mundinho legal né? Pare com isso. Desse jeito você vai querer acabar com todo o sofrimento e daí, em quem despejaremos nossos rancores, se houver?
Junior
Será que o Paulo teve contato com o Peter F. Drucker? Tem um pouco de marketing e inovação!
rubens osorio
…à exceção, notória, por sinal, de um certo país sulamericano, onde as falhas no funcionamento das coisas eram tão frequentes e generalizadas que tudo era visível, losanguidamente enxergável, até darem um “jeitinho” de fazer como se tudo fosse invisível, mesmo não o sendo… e viviam como “seers”, sem sê-los.