23 de Dezembro de 2006

Parábola

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Sonhos

Eu estava no corredor de uma escola ao lado de um menino de pouco mais de dez anos que não tinha qualquer interesse em conversar comigo. Eu havia sido chamado por um professor (que permanecia à distância) para tentar decifrar uma dissertação daquele menino, um texto que consistia num único e compacto parágrafo inteiramente lúcido e coerente mas incompreensível em sua esmagadora originalidade e independência intelectual. Deixei o texto de lado e tentei sondar o garoto.

Sem descruzar os braços e rebaixando-se a procurar um modo de ilustrar o que parecia saber-me inteiramente capaz de apreender, o menino disse:

– Imagine uma nevasca. Uma nevasca que reduza tudo e todos à imobilidade.

Imaginei. Ele prosseguiu fazendo uma longa pausa entre uma pausa e outra, como se falasse com uma criança.

– Em condições assim, pode acontecer de em meio à humanidade surgir, sem ser percebido, um útero. Dentro deste útero pode chegar a desenvolver-se, em silêncio e quietude, uma nova humanidade. Mantidas as condições de anonimidade e sossego, essa nova humanidade pode chegar a nascer.

Depois de acordar pensei em Jesus e em Nietzsche, mas no sonho não me ocorreu nada além de concordar.

– Pois – reclamou o menino, profundamente ofendido – comecei a escrever um texto narrando como poderia ser esse processo, e meus professores recusaram-se a avaliá-lo positivamente. “Onde está o conflito?” eles perguntaram. “Onde está o desenvolvimento dos personagens?”. Eles alegaram, entenda, que naquela história nada acontecia, quando era justamente esse o meu ponto.

Na noite de ontem para hoje.



Um comentário a respeito de "Parábola"

Lou Mello

É quase isso: Jesus, Nietzsche, você e uns poucos mais sonhando com uma nova humanidade cuja característica mais significativa seja não ser.



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