20 de Junho de 2006

Os limites de Israel

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Fé e Crença, Goiabas Roubadas

NICODEMOS. Seu coração está tranqüilo diante dessa resolução, Caifás?

CAIFÁS. E por que não, Nicodemos?

NICODEMOS. Não vou discutir com você sobre a pessoa de Jesus. A atitude dele no julgamento me abalou. Eu estava pronto para crer ser ele um grande mestre, um grande profeta, talvez o Messias. Não consigo mais. Ele alegou ser Filho de Deus – não figurativamente, mas literalmente: a mão direita do poder e participante igualitário da glória. Isso é ou uma aterradora blasfêmia ou uma verdade tão aterradora que não suporto pensar nela.

CAIFÁS. Você está dizendo que pode ser verdade?

NICODEMOS. Não ouso. Pois nesse caso o que fizemos? Conspiramos de algum modo inimaginável para julgar e assassinar Deus.

CAIFÁS. É bem isso. Basta colocar em palavras para expor o absurdo da questão. Deus é um, e Deus é espírito. Você acha que existe uma multidão de deuses e semideuses caminhando sobre a terra, e sujeitos à fraqueza humana, como nas asquerosas fábulas dos pagãos?

NICODEMOS. Não.

CAIFÁS. Então qual é a sua objeção? Ou a sua, José de Arimatéia?

JOSÉ. Nem tanto o ato em si quanto o modo como foi feito. Foi mesmo necessário, meu senhor, lamber os pés de Roma em público? Admitir a soberania de César?

“Só há um modo de lidar com Roma: fechando-lhe a porta”.

NICODEMOS. Terá sido sábio ameaçar Pilatos com o Imperador? O poder que foi invocado contra Roma é ainda Roma.

JOSÉ. Só há um modo de lidar com Roma: fechando-lhe a porta. Pois se deixarmos que coloque para dentro um dedinho que seja, ela entrará logo com o braço todo, até o povo judeu não seja mais judeu.

CAIFÁS. José e Nicodemos, deixem-me dizer-lhes uma coisa: o povo judeu perdeu-se para sempre. O tempo das nações pequenas já passou. Esta é a era do império. Reflitam: ao longo de toda a história temos tentado fechar a porta. O povo judeu era para ser um jardim fechado, uma raça escolhida, um povo peculiar. Mas a porta foi aberta. Por quem?

NICODEMOS. Na disputa entre os filhos de Alexandre, quando Hircano apelou a Roma.

CAIFÁS. Verdade. Essa disputa trouxe-nos Herodes, o Grande – cria de Roma, que por trinta anos regeu o povo judeu com vara de ferro. E quando Herodes morreu, o que houve? Uma nova disputa, e a divisão do território de Israel, tendo sido o romano Pilatos feito governador da Judéia. Sob Herodes, uma nação tributária; depois de Herodes, três províncias tributárias. A cada rixa interna dos judeus os Romanos avançam um passo. Um passo, dois passos: o terceiro será o último. Esse Jesus eu matei, que teria criado mais divisão; mas para cada candidato crucificado, levantam-se cinqüenta… Um dia os zelotes se revoltarão e a espada será desembainhada contra César. Então o anel de fogo e ferro se fechará contra Jerusalém; os mortos engrossarão as ruas, e o pisotear das Legiões se fará ouvir no Santuário interior do Templo. Eu, Caifás, o profetizo.

JOSÉ (impressionado). O que podemos fazer?

CAIFÁS. Aceitar o inevitável. Adaptarmo-nos a Roma. É maldição do nosso povo que não sabemos aprender a viver como cidadãos de uma unidade maior. Não sabemos nem governar nem ser governados: para esses a nova ordem não tem lugar. Cheguemos a um acordo com o futuro enquanto podemos, para que não chegue o momento em que não se encontre no mundo todo lugar para um judeu colocar o pé.

JOSÉ. Estranho. As suas palavras ecoam as profecias de Jesus. Mas ele teria, creio, alargado os limites de Israel de modo a compreender o mundo todo. “Eles virão,” ele disse, “do leste e do oeste, e sentar-se-ão no Reino de Deus”. Samaritanos, romanos, gregos; ele acolheu-os a todos… Será possível que ele via o mesmo que você, tendo escolhido escancarar a porta? Não excluir, mas incluir? Não perder Israel para Roma, mas trazer Roma para o aprisco de Israel?

“Ele teria alargado os limites de Israel de modo a compreender o mundo todo”.

NICODEMOS (chocado). Impossível! Israel não pode ter qualquer coisa com os gentios. Ele teria de ser louco para imaginar que…

CAIFÁS (secamente). Louco de fato. É dever dos homens de estado destruir a loucura que se chama imaginação. Ela é perigosa. Gera dissensão. Paz, ordem, segurança: essa é a oferta de Roma – ao preço de Roma.

JOSÉ (sombriamente). Rejeitamos a solução de Jesus. Suponho que teremos de abraçar a sua.

CAIFÁS. Vocês também me rejeitarão, creio. Contente-se com isso, Jesus, meu inimigo. Caifás também terá vivido em vão.

Dorothy L. Sayers,
The Man Born To Be King, 1943



5 Comentários a respeito de "Os limites de Israel"

Luiz Henrique Mello

O Reino de Deus é o reino todo inclusivo. Os sacerdotes judaico cristãos foram excluindo, ao longo dos tempos, criando um reino sectário, exclusivo e seletivo. Pena ver tantos jovens defendendo essas bobagens cegamente.



JOINCANTO

Brabo,

O meu blog edificante??? Não deves acompanhar muito bem o meu blog….



Roberto Bobrow

“Cheguemos a um acordo com o futuro enquanto podemos, para que não chegue o momento em que não se encontre no mundo todo lugar para um judeu colocar o pé.”

Un error común es considerar al judaísmo de entonces como cerrado y exclusivista.

Por el contrario, la actividad proselitista era intensa en todo el Imperio, llegando a formar el 10% de la población romana antes de la guerra del año 66.

El cristianismo paulino sólo fue posible por esta actividad y encontró sus primeros adherentes entre los gentiles semi-prosélitos.

El conflicto en Judea y Galilea (llamadas “Palestina” tras la derrota de Bar Kojba en 136) era otro: económico (por el tesoro del Templo) y de clases (por los impuestos a los campesinos), pero no teológico como pretende Sayers.

Las cartas paulinas son muy claras al describir su conflicto con Iaakov (Santiago). Los discípulos de Jesús se consideraban judíos y exigían conversión completa.

¿Cómo hay que entender esto? ¿ninguno de los discípulos había entendido el mensaje de Jesús?

¿No será, mas bien, que el cristianismo des-judaizante es un invento de Pablo y no de Jesús?

Un abrazo.



Rejane Epstein

Pois é… o nosso mundo está cheio dos “caifases”; o Brasil então nem se fala!

Corruptos, loucos pelo poder, manipuladores. E o pior: tantos “lideres” que se dizem seguidores de Jesus “cristãos”, exercem influência dominadora, sem amor ao próximo. As pessoas são descartáveis. Jesus diante da pergunta de Caifás, ficou em silêncio. E nós?! O que fazer hoje?

Será que vale a pena revidar?



Paulo Brabo

Bob: perdoe.

Sayers, que era católica, escrevia sua série de peças para cristãos obtusos que nunca tinham ouvido falar de Hircano e não saberiam diferenciar os três Herodes da narrativa do Novo Testamento. Tendo em vista essa e outras limitações, penso que a autora foi incomumente compassiva – embora por certo interpretativa – em sua caracterização de Caifás (e, como o evangelista não hesitou em colocar na boca do sumo-sacerdote uma profecia sobre a morte vicária de Jesus, um Caifás cinicamente profético a respeito do destino da nação de Israel faz muito sentido dramático dentro da narrativa da paixão contada do ponto de vista cristão).

Sayers pode ser acusada de ter recuado indevidamente, para este momento pós-crucificação, uma discussão que pertence mais propriamente à disputa entre Paulo e os “judaizantes” no concílio de Jerusalém, anos mais tarde – mas não pode por certo ser acusada de ter inventado a discussão nos termos em que aparecem aqui.

Diversas tradições cristãs além da paulina expõem a tensão fundamental da mensagem de Jesus como sendo uma abertura, emoldurada por inéditas concessões, do judaísmo para o resto do mundo. Lucas 4:24-30, Mateus 8:5-12, Mateus 15:22-28 e Atos 10, apenas para mencionar os primeiros exemplos que me vêem à mente, exploram diferentes aspectos dessa tensão – sendo que o próprio Jesus dos evangelhos não pode ser descrito como proselitista em seus contatos com os gentios.

Estou certo que os discípulos se consideravam judeus, tanto quanto o próprio Jesus. Como vejo a coisa, não se trata de negar o sucesso da ação proselitista judaica naqueles dias, ou de negar a importância dos semi-prosélitos (que o Novo Testamento chama de “tementes a Deus”) na expansão inicial do cristianismo. A tensão fundamental da nova doutrina está mesmo na terrível possibilidade de uma abertura que acabaria descaracterizando o judaísmo aos olhos dos judeus, e talvez do mundo – possibilidade essa que você sugere não existiria sem a intervenção de Paulo.

Sobre isso tenho muito a opinar, mas não tenho saúde para isso agora. Quero apenas mencionar que há tradições além das cartas de Paulo que sugerem essa terrível abertura – entre elas, sem contar as que já mencionei, a parábola do Filho Pródigo (Lucas 15:11-31) e o registro da formidável decisão de Tiago (Iaakov/Santiago) em Atos 15.

Terá o cristianismo “des-judaizante” nascido da intervenção de Paulo e não de Jesus? Sei que esse pensamento já foi muito popular, mas creio que não, por motivos que posso apenas sugerir agora. Nenhum dos discípulos teria entendido a mensagem de Jesus? Segundo o testemunho dos próprios evangelhos, aconteceu mais de uma vez.

Há, num certo sentido, pouco de des-judaizante na mensagem de Paulo. O cerne da carta de Romanos não é teológico no sentido cristão da coisa, mas contém basicamente uma glorificação do papel dos judeus na redenção da humanidade. Como você sabe, concordo essencialmente com a interpretação do [judeu] Daniel Boyarin em seu A Radical Jew, que enxerga a atitude de Paulo como uma espécie de judaísmo exacerbado. Olhando para Jesus, Paulo parece ter acreditado que o judaísmo continha uma verdade de importância transcendental imediatamente aplicável a todo o restante da humanidade; para Paulo o judaísmo era tão essencialmente verdadeiro que transcendia qualquer necessidade de cor local, cultura ou manifestação religiosa. Seu judaísmo é tão exacerbado que prescinde de si mesmo; seu Deus é tão santo e singular que nada pode descaracterizá-lo. Daí Paulo identificar Jesus com Adão – de modo a mantê-lo dentro de uma visão de mundo judaica, ao mesmo tempo que num momento místico pré-judaísmo.

Na prática, segundo Paulo, a “descaracterização” do judaísmo deveria criar um mundo em que todas as características distintivas deixariam de fazer sentido. Se a identidade do judeu não depende das “obras da Lei”, muito menos a identidade do cristão. No mundo pós boa-nova, exige Paulo, não há judeu ou grego, homem ou mulher, escravo ou livre, civilizado ou bárbaro. Sua descrição se aproxima em muitos sentidos do (utópico?) Reino de Deus preconizado por Jesus. Ambos os pensamentos, que talvez sejam um, são exemplos da ameaçadora imaginação que o Caifás de Sayers quer silenciar.



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