NICODEMOS. Seu coração está tranqüilo diante dessa resolução, Caifás?
CAIFÁS. E por que não, Nicodemos?
NICODEMOS. Não vou discutir com você sobre a pessoa de Jesus. A atitude dele no julgamento me abalou. Eu estava pronto para crer ser ele um grande mestre, um grande profeta, talvez o Messias. Não consigo mais. Ele alegou ser Filho de Deus – não figurativamente, mas literalmente: a mão direita do poder e participante igualitário da glória. Isso é ou uma aterradora blasfêmia ou uma verdade tão aterradora que não suporto pensar nela.
CAIFÁS. Você está dizendo que pode ser verdade?
NICODEMOS. Não ouso. Pois nesse caso o que fizemos? Conspiramos de algum modo inimaginável para julgar e assassinar Deus.
CAIFÁS. É bem isso. Basta colocar em palavras para expor o absurdo da questão. Deus é um, e Deus é espírito. Você acha que existe uma multidão de deuses e semideuses caminhando sobre a terra, e sujeitos à fraqueza humana, como nas asquerosas fábulas dos pagãos?
NICODEMOS. Não.
CAIFÁS. Então qual é a sua objeção? Ou a sua, José de Arimatéia?
JOSÉ. Nem tanto o ato em si quanto o modo como foi feito. Foi mesmo necessário, meu senhor, lamber os pés de Roma em público? Admitir a soberania de César?
“Só há um modo de lidar com Roma: fechando-lhe a porta”.
NICODEMOS. Terá sido sábio ameaçar Pilatos com o Imperador? O poder que foi invocado contra Roma é ainda Roma.
JOSÉ. Só há um modo de lidar com Roma: fechando-lhe a porta. Pois se deixarmos que coloque para dentro um dedinho que seja, ela entrará logo com o braço todo, até o povo judeu não seja mais judeu.
CAIFÁS. José e Nicodemos, deixem-me dizer-lhes uma coisa: o povo judeu perdeu-se para sempre. O tempo das nações pequenas já passou. Esta é a era do império. Reflitam: ao longo de toda a história temos tentado fechar a porta. O povo judeu era para ser um jardim fechado, uma raça escolhida, um povo peculiar. Mas a porta foi aberta. Por quem?
NICODEMOS. Na disputa entre os filhos de Alexandre, quando Hircano apelou a Roma.
CAIFÁS. Verdade. Essa disputa trouxe-nos Herodes, o Grande – cria de Roma, que por trinta anos regeu o povo judeu com vara de ferro. E quando Herodes morreu, o que houve? Uma nova disputa, e a divisão do território de Israel, tendo sido o romano Pilatos feito governador da Judéia. Sob Herodes, uma nação tributária; depois de Herodes, três províncias tributárias. A cada rixa interna dos judeus os Romanos avançam um passo. Um passo, dois passos: o terceiro será o último. Esse Jesus eu matei, que teria criado mais divisão; mas para cada candidato crucificado, levantam-se cinqüenta… Um dia os zelotes se revoltarão e a espada será desembainhada contra César. Então o anel de fogo e ferro se fechará contra Jerusalém; os mortos engrossarão as ruas, e o pisotear das Legiões se fará ouvir no Santuário interior do Templo. Eu, Caifás, o profetizo.
JOSÉ (impressionado). O que podemos fazer?
CAIFÁS. Aceitar o inevitável. Adaptarmo-nos a Roma. É maldição do nosso povo que não sabemos aprender a viver como cidadãos de uma unidade maior. Não sabemos nem governar nem ser governados: para esses a nova ordem não tem lugar. Cheguemos a um acordo com o futuro enquanto podemos, para que não chegue o momento em que não se encontre no mundo todo lugar para um judeu colocar o pé.
JOSÉ. Estranho. As suas palavras ecoam as profecias de Jesus. Mas ele teria, creio, alargado os limites de Israel de modo a compreender o mundo todo. “Eles virão,” ele disse, “do leste e do oeste, e sentar-se-ão no Reino de Deus”. Samaritanos, romanos, gregos; ele acolheu-os a todos… Será possível que ele via o mesmo que você, tendo escolhido escancarar a porta? Não excluir, mas incluir? Não perder Israel para Roma, mas trazer Roma para o aprisco de Israel?
“Ele teria alargado os limites de Israel de modo a compreender o mundo todo”.
NICODEMOS (chocado). Impossível! Israel não pode ter qualquer coisa com os gentios. Ele teria de ser louco para imaginar que…
CAIFÁS (secamente). Louco de fato. É dever dos homens de estado destruir a loucura que se chama imaginação. Ela é perigosa. Gera dissensão. Paz, ordem, segurança: essa é a oferta de Roma – ao preço de Roma.
JOSÉ (sombriamente). Rejeitamos a solução de Jesus. Suponho que teremos de abraçar a sua.
CAIFÁS. Vocês também me rejeitarão, creio. Contente-se com isso, Jesus, meu inimigo. Caifás também terá vivido em vão.

Dorothy L. Sayers,
The Man Born To Be King, 1943




