Numa mensagem de fim de ano transmitida ao Brasil no fim de 1944 e falando em nome do 1o Grupo de Caça da FAB, meu querido tenente Rui Moreira Lima falou de sua fé num futuro feliz. Os aliados, cria Rui, não estavam lutando sem motivo, mas investiam na doce e esquiva possibilidade de “um mundo melhor”.
A geração de Rui foi a última que pôde falar assim. No desiludido mundo contemporâneo, que perdeu oficialmente toda a fé nas ideologias, ninguém ousaria ou deveria ousar falar da mesma forma. A esperança é a última que morre, mas morre.
Notadamente, a Segunda Guerra Mundial foi o último momento da história em que o mundo todo (da Itália de Mussolini à América de Roosevelt, da Alemanha de Hitler ao Japão de Hirohito) recendia a esperança e entregava-se unanimente à sedução das suas promessas.
Todos e cada um apostavam na supremacia da sua própria ideologia; a esperança era fabricada aos borbotões, distribuída em imensos contâiners pelas recém-inventadas vias de propaganda e consumida avidamente pelos sedentos e famintos de justiça de um canto a outro do globo. Não havia, do lado de dentro de qualquer uniforme e debaixo de qualquer bandeira, quem não ansiasse por “um mundo melhor” – quer ele parecesse se encontrar na derrocada de Hitler ou na eliminação da ameaça norte-americana.
A esperança movia nações inteiras e patrocinava a guerra. Do lado dos aliados talvez ninguém a tenha cantado melhor do que a inglesa Vera Lynn, a “namoradinha das Forças Aliadas”, em The White Cliffs of Dover. A canção, nostálgica já para a sua própria época, anunciava um futuro em o que “o vale floresceria novamente” e “Jimmy voltaria a dormir no seu quartinho”; um mundo em que o amor, o riso e a paz pelos quais todos ansiavam se tornaria realidade eterna – “amanhã, quando o mundo for livre”.
Ou seja, hoje.
Basta pensar na Guerra do Vietnã (para não falar do Iraque) para ver-se que a esperança nunca mais foi comercializada ou consumida da mesma forma. A esperança é a última que morre, mas é baixa de Hiroshima e dos campos de concentração: deu seu último suspiro em 1945.
Que Deus a tenha.
* * *
There’ll be bluebirds over the white cliffs of Dover tomorrow
Just you wait and see
There’ll be love and laughter and peace ever after tomorrow
When the world is free
The shepherd will tend his sheep
The valley will bloom again
And Jimmy will go to sleep in his own little room again
There’ll be bluebirds over the white cliffs of Dover tomorrow
Just you wait and see
Haverá azulões sobre os penhascos brancos de Dover
Amanhã, é só esperar pra ver
Haverá amor e riso e dali em diante paz para sempre
Amanhã, quando o mundo for livre
O pastor apascentará o seu rebanho
O vale florescerá novamente
E Jimmy voltará a dormir em seu próprio quartinho
Haverá azulões sobre os penhascos brancos de Dover
Amanhã, é só esperar pra ver
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trecho de [There’ll Be Bluebirds Over]
The White Cliffs Of Dover
Letra e música de Nat Burton e Walter Kent
Gravado por Vera Lynn em 1940




