27 de Maio de 2006

O silêncio do hóspede

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Goiabas Roubadas

Os olhos verdes, as orelhas vermelhas e a cabeça branca formavam no silêncio uma expressão apreensivamente italiana. O seu mundo não era escuro como o do cego, embora sua pele e passado o fossem. E não havia porquês suficientes para que continuasse a se esconder ali, dentro do seu último esconderijo:

– Quando pisávamos com os pés descalços sobre a terra vermelha e podíamos distinguir algumas dezenas de passarinhos, encenávamos com alguma originalidade um destino salutar. Percebíamos, usando a totalidade dos nossos sentidos naquela época, que precisaríamos apenas dos poucos recursos que estavam ao alcance de nossas mãos. E que brotavam em jabuticabeiras, páginas amarelas e revistas contrabandeadas. E nadavam nos rios, em pensamentos flutuantes e junto aos nhoques que emergiam. Mas enquanto você carregava baldes d’água para dentro de casa, sentia meus ombros latejarem por um peso que eu mesmo fazia questão de cultivar: o de destruir qualquer reflexo. Infelizmente não dispúnhamos ainda da instrução necessária para questionar qualquer lei da Física dos Materiais, então eu apenas quebrava espelhos. Até hoje não dispomos de tal informação ou capacidade, apesar de cultivarmos o hábito nefasto de buscarmos em livros dados fora dos noticiários ou das conversas sobre o tempo. Mas a terra vermelha, cuja tonalidade assemelhava-se muito mais a sangue venoso que arterial, revelou uma possibilidade e ao mesmo tempo uma catástrofe. Como você está careca e cego de saber, é por isso que estamos aqui.

(Retirou as meias e o assoalho de madeira, em sua primeira chance de ranger, não o fez. Prosseguiu.)

– O que você possui agora, além de cultura suficiente para completar apenas o pote de arroz na geladeira, são dentes milagrosamente bons e amigos invisíveis. E eu. Que consumo as suas migalhas e o seu chuveiro adaptado, que projeto as minúcias de uma invasão consentida e formas alternativas de comunicação, que reclamo à quem não tem nada a ver com isso a tentativa de me inserir. Em vão, uma vez que o deslocamento faz parte da minha expectativa e não da posição em que me encontro. Caminhei por laudos médicos e fugi dos técnicos. Encontrei-o por acaso quando uma pilha de fichas psicanalíticas servia para me aquecer. (A idéia de partilharmos a cama parece bem mais agradável.) Não havia parecer conclusivo, apenas indicações culturais, se gostaria de saber. E apontamentos sobre solidão, saudosismo e culpa pela ingestão de doce. Quando o observo no chuveiro percebo a origem da culpa, e a idéia de partilharmos a cama parece mais repugnante. Quando estou lá naquele banheiro sem espelho e úmido, além do medo de escorregar, sinto um alívio sobre os ombros. Compreendo que a força que pendia sobre eles desapareceram, pois você não se parece mais com aquele que carregava baldes e corria nigerianamente sobre os campos. E como os pés descalços ingênuos nos fizeram crer na pureza da terra sadia. O seu vermelho o transformou numa criatura indefinível (como as formas que cria através de sons) e, finalmente, diferente de mim.

(Ergueu a faca, observou o pouco brilho que refletia quase nenhuma luz através das lascas de cenoura e deu um suspiro profundo.)

– Em mim, o vermelho até hoje está grudado nos meus pés. Escondidos através de sucessivas camadas de meias em sua carne viva. Como você não pode ver. Mas poderia escutar, se eu tivesse preservado a capacidade de falar.

* * *

Rodrigo M (por email), em combativa resposta a O cego e o hóspede



2 Comentários a respeito de "O silêncio do hóspede"

Jo Lorib

Interessante este diálogo, mas continuo achando que tirando algumas palavras fica mais crocante. Mas está muito bom.



rubens pires de lima osorio

Quem? pergunto eu! Quem? Ó suspense cruel e atroz!!! O que mais pode ocorrer agora? O fim!!! Onde está o fim? Estas reticências me matam…



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