23 de Abril de 2006

O Rico e seu Camelo

Sujeito a cobrança por   Paulo Brabo

 

Estocado em Fé e Crença, História, Sociedade

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A triste sina do rico
Ilustração de Mateus 19:23-24. Um rico tenta entrar pela porta estreita do céu mas suas bolsas de dinheiro o impedem. Atrás dele três homens tentam fazer um camelo passar pelo buraco de uma agulha. Gravura de Phillip Galle (1537–1612) a partir de Maarten van Heemskerck (1498–1574).
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DURANTE 1500 ANOS a ética cristã sustentou a exigente e improvável noção, fundamentada no igualmente intransigente ensino de Jesus, de que o desapego aos bens materiais é não apenas virtude, mas sensatez. A ambição, a ganância e o acúmulo de riquezas eram, por sua vez, tidos unanimemente como coisa feia – ao mesmo estúpida e condenável.

Naturalmente havia ricos e esses de certa forma se beneficiavam da popularidade da idéia. Enquanto vissem a pobreza como virtude os pobres não representariam ameaça ao estado de coisas. Porém mesmo os mais abastados senhores não sonhavam com as possibilidades de um sistema como o capitalismo contemporâneo, que é sustentado pela noção oposta e vive de vender incessantemente aos pobres a possibilidade de se tornarem ricos.

Mas não quero me adiantar: falemos desses dias estranhos em que a pobreza era enxergada (e no mundo ocidental!) como virtude.

O principal patrocinador da idéia foi, naturalmente, Jesus de Nazaré, que aparentemente deleitava-se em semear escândalo em todas as esferas. Jesus falava a um mundo que era infinitamente menos competitivo e ganancioso, mas já nos seus dias suas injunções e demandas sobre o dinheiro devem ter soado tremendamente difíceis de engolir:

O amor ao dinheiro é raiz de todos os males.

Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque onde está o teu tesouro aí estará também o teu coração.

O desprezo de Jesus à riqueza material não permanecia no campo da recomendação. Ele vivia frugalmente e parecia crer, contra todo o bom senso, que o indigente se encontra em posição estrategicamente mais vantajosa do que o mais confortável dos ricos.

Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, os que agora tendes fome, porque sereis fartos. Mas ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais agora fartos! Porque vireis a ter fome.

A respeito do que viria a ser chamado mais tarde de “ética do trabalho”, o programa de Jesus é essencialmente hakuna matata – ou, como se diz em bom português, no stress. “Não aindeis ansiosos com o dia de amanhã”, tranqüiliza ele. Jesus chama de imbecil o esforçado empreendedor que previdentemente estocou riquezas em seus armazéns, e finalmente argumenta:

Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura não valeis vós muito mais do que as aves?

Na tradição judaica esse mesmo sentimento já era expresso, para falar a verdade, mil anos antes de Jesus. “Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes; aos seus amados [Deus] o dá enquanto dormem”, zomba o segundo verso do Salmo 127.

Por mais de mil anos esses conceitos gêmeos, do desapego como virtude e da ambição como vício, permearam a ética cristã e a cultura popular. Ambas faziam parte do caráter inerentemente subversivo da mensagem cristã, que neste campo (como em todos) invertia os papéis e as expectativas tradicionais, louvando o frugal e humilde e colocando o rico e orgulhoso em inesperada desvantagem.

Do impacto universal dessas idéias há abundante testemunho iconográfico – como testemunham as alegorias medievais que ilustram este documento.

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A triste sina do rico (outra gravura da série)
O carro da rainha Pecúnia (Moeda) é puxada pelo Perigo e pelo Temor, enquanto o Latrocínio se oculta sob seu manto. Ela é seguida pela Insensatez, pela Inveja, pelo Furto e pela População Inteira. Gravura de Phillip Galle (1537–1612), a partir de Maarten van Heemskerck (1498–1574).
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O triunfo das riquezas
A Riqueza, mãe do Poder, anda na carruagem chamada Fama, que é puxada pela Fraude e pela Rapina. Seguem-na a Traição (Proditio, com duas caras e fogo numa mão e água na outra), a Usura, a Luxúria (Libido), a Falsa Alegria (Vana Letitia, divertindo-se com bolhas de sabão) e outros Prazeres Vãos. Gravura de Dirck Volkertsz Coornhert (1519–90) ou Cornelis Cort (1533–78) a partir de Maarten van Heemskerck (1498–1574).
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Uma caçada alegórica
A Moeda é perseguida por um trabalhador (carregando uma pá) cujos sabujos são a Frugalidade, o Empreendedorismo e o Trabalho; pela Prodigalidade, cujos sabujos são Rapina e Sorte; e pela Avareza, cujos sabujos são Usura e Fraude. A Justiça é pisoteada. Gravura de Pieter van der Heyden (fl. 1557), a partir de Pieter Breughel the Elder (1525–69).
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O mundo conduzido pelo dinheiro
Moedas de ouro formam as rodas de uma carruagem sobre a qual está o Mundo, enquanto dois nobres cegados pelo dinheiro acompanham à pé. Um grupo de camponeses é impedido de avançar pela Pobreza, que está em pé sobre a Roda da Fortuna. Gravura de Mathias Greuter (1564–1638).
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As duas mortes
À esquerda um homem pobre e piedoso recebe as riquezas do céu (incluindo, veja na versão ampliada, riquezas de conhecimento). À direita a morte prepara-se para abater um rico avarento que está fazendo sua contabilidade (o edifício em construção ao fundo, para quem vai ficar?). Gravura de Hieronymus Wierx (1553–1619) a partir de Marten de Vos (ca. 1531–1603).
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Honra
Um homem piedoso e íntegro resiste à tentação das riquezas. Gravura de Raphael Sadeler I (1560–1628) a partir de Marten de Vos (ca. 1531–1603).
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Riqueza e soberba
A Riqueza ostenta dinheiro, jóias e prata. Junto dela está sentada a Soberba, que é filha da Riqueza. Gravura de Karel van Mallery (ca. 1571–ca. 1635) a partir de Marten de Vos (ca. 1531–1603).

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Freado pela ideologia cristã medieval, o capitalismo não encontrava lugar para vir à luz. Permanecia sem forma e sem corpo no limbo, como mera possibilidade – aguardando paciente o momento de nascer.

Sua improvável parteira seria a teologia protestante.

Imagens cortesia da Universidade de Harvard



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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