24 de Fevereiro de 2006

O que é pós-moderno e o que não é

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em História, Pense comigo

Eu posso estar redondamente enganado
eu posso estar correndo pro lado errado
Mas a dúvida é o preço da pureza
E é inútil ter certeza.
Infinita Highway – Engenheiros do Hawaii

Quem fala em pós-modernidade está dividindo a história da civilização, muito grosseiramente, em três grandes períodos: a era pré-moderna, a era moderna e a era dos nossos dias – esta que, na falta de um nome melhor, convencionou-se chamar de “pós”.

A primeira era, a pré-modernidade, começou com o primeiro homem e estendeu-se a até algum momento do século XVIII. Durante todo esse período o ser humano manteve-se, basicamente, um bicho místico. A vida estava além do controle do homem e só podia ser explicada em termos sobrenaturais. Em geral não ocorreria a ninguém duvidar da realidade do mundo dos espíritos ou de coisa que o valha (digamos, o imaterial mundo das idéias de Platão), e todas as soluções aos problemas do ser humano dependiam da boa vontade de Deus ou deuses.

A principal característica da era moderna é a sua suprema confiança na mente humana.

Perto de 1700 a modernidade fincou pé. A Renascença deu a primeira, o Iluminismo a segunda e definitiva estocada que tiraram Deus e o sobrenatural do centro das atenções e colocaram ali o homem e os esforços humanos – particularmente a razão. A principal característica da era moderna é a sua suprema confiança na mente humana. Gente como Descartes gravou a ferro e fogo na mentalidade ocidental a noção de que a razão é o único caminho para o conhecimento, e toda a era moderna partiu do pressuposto de que a razão e a ciência (aplicadas em todas as áreas: saúde, política, urbanismo, ética) trariam as soluções necessárias para os problemas da humanidade. O slogan da bandeira brasileira, “Ordem e Progresso”, é tipicamente moderno em seu otimismo na iniciativa humana fundamentada no triunfo da sensatez e da razão.

Foi ao redor de 1960 que a maré começou a mudar. Coisas como a crise de energia, a teoria da relatividade, a guerra do Vietnã, a bomba de Hiroshima e os abusos do consumismo contribuíram para que as pessoas passassem gradualmente a concluir que a razão humana talvez não trouxesse, como prometera, respostas para os anseios mais profundos do mundo e do homem. Trezentos anos da supremacia da razão não haviam trazido nenhuma solução unânime para os problemas da guerra, da fome, da injustiça, do vazio existencial. A razão, concluíram esses, fracassara, e diferentes grupos independentes começaram a tatear em todas as direções em busca de alternativas. As revoluções sexual, mística e química trazidas à luz pelos hippies dos anos 60 foram os primeiros movimentos que pressupunham essa desconfiança pós-moderna para com as soluções otimistas e pré-fabricadas da era anterior.

A pós-modernidade que se levantou das cinzas da modernidade é tremendamente difícil de definir – entre outras coisas, porque definição é conceito tipicamente moderno e pertence a uma era anterior. Pode-se dizer com segurança que o homem pós-moderno é ao mesmo tempo cético, espiritual e tolerante. Ele duvida da eficácia da razão, do pensamento linear, da lógica convencional, da explicação racional. Ele está portanto aberto a todas as formas de misticismo e religiosidade, mas não apostará na validade definitiva de nenhuma, porque crê que todas contém a sua parcela de “verdade” e nenhuma pode ter a pretensão de se posicionar como verdade definitiva – possibilidade que arruinaria a validade e a beleza das outras alternativas.

O homem pós-moderno duvida da eficácia da razão, do pensamento linear, da lógica convencional, da explicação racional.

A indomável mentalidade desta era pode ser mais facilmente compreendida se considerarmos a forma de arte mais tipicamente pós-moderna: o videoclipe. Os primeiros vídeos de música eram “modernos” no seu caráter linear – contavam “historinhas” com começo, meio e fim. Mas logo os produtores de videoclipes adotaram uma linguagem mais radical, menos linear e mais fragmentária. Um videoclipe é um amontoado de imagens que não necessariamente contam uma história ou têm qualquer relação entre si; não têm uma “explicação”. Seu sistema é a ausência de um sistema. A idéia é passar uma impressão, e não deixar alguma coisa absolutamente clara.

Moderno é filme.
Videoclipe é pós-moderno.

Moderno é classificar, ordenar, definir, categorizar.
Pós-moderno é pulverizar, remixar, sugerir, evocar.

Moderno é concentrar a atenção e definir limites.
Pós-moderno é ampliar a visão e libertar-se de todos os confinamentos.

Moderno é a agente Scully.
Pós-moderno é o agente Mulder.

Moderno é racional, linear, científico, definitivo, argumentativo.
Pós-moderno é emocional, fractal, espiritual, relativo, evocativo.

Moderno é o Spock, do seriado Jornada nas Estrelas.
Pós-moderno é o Data, do seriado Jornada nas Estrelas – A Nova Geração.

Moderno aposta com esperança na razão.
Pós-moderno espera no que a razão não explica.

Moderno é o Super-Homem.
Pós-moderna é a morte do Super-Homem.

Moderno é debate político.
Pós-moderno é o inclassificável festival Burning Man.

Moderno tem ordem.
Pós-moderno é não necessariamente nesta ordem.

Moderno é sala de aula.
Pós-moderna é a internet.



5 Comentários a respeito de "O que é pós-moderno e o que não é"

Volney Faustini

Minhas pílulas …

Moderno é construção
Pós-moderno é descontrução

Moderno é narrativa
Pós-moderno é meta-narrativa

Moderno é objetivo
Pós-moderno é subjetivo



Luiz Henrique Mello

Ah! Então o Lula é pós-moderno?



Marconi Bartholi

Não… o Lula é pré-moderno…

Paulo, Brotherhood… como diz um pastorzinho emergente aqui dos EUA amigo meu: “A primeira e a segunda vez eu dou crédito, a terceira, por uso, já é meu!” Só pra vc saber que o seu texto (chupado lá do blog do Volney) tá servindo como base para a minha aula de Filosofia no seminário que leciono aqui… peguei a idéia cronológica para ambientar a condução e transformação do pensamento humano… porém daqui a pouco ele vira meu! hehe… Daí esse final de semana me deparei com o livro do R. Scott Smith, Truth and the New Kind of Christian – the emerging effects of postmodernism in the church… que tem um quê na linha do que vc escreveu… mesmo vc esclarecendo que tenha se baseado em outro autor… de acordo com a minha tese a idéia a essa altura já virou sua!!!

Abraços,

Marconi Bartholi



Paulo Brabo

Marconi, o conceito de autoria é invenção tipicamente “moderna”, e portanto ultrapassada. Pós-moderno é autoria de colaboração e leitura participativa: leia-se fóruns e blogs.

Fique portanto à vontade.



Bony

Acredita-se que os primeiros video-clipes do mundo foram “Rain” e “Paperback Writer” dos Beatles. Isso porque eles acharam melhor enviar alguns filmes de suas músicas para os EUA do que viajar, saindo de Londres onde estavam residindo e trabalhando (se divertindo).

Muito pelo contrário, estes “primeiros clipes da história” são totalmente pós-modernos não havendo enredo algum. São compilações de imagens dos Fab4 andando, tocando e rindo entre folhagens, flores, jardins e etc… Tudo devidamente programado para tal objetivo.

Os Beatles disseram em seu documentário “Beatles Anthology” que haviam inventado a MTV.

Cerca de um ano após estes “primeiros vídeo-clipes da história”, acontece o lançamento dos clipes de “Penny Lane”, “Strawberry Fields Forever” e “Hello, Goodbye”, dos quais os dois primeiros são totalmente configurados num enredo desconexo, repleto de luzes e ações estranhamente sem lógica. Para muitos, resultados da LSD.

Muitos seguiram o exemplo dos Beatles na promoção de seus discos até o início do reinado de Michael Jackson (Thriller e Billie Jean), que transformou video-clipe em pré-requisito na divulgação do álbum.



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