[Sexto Empírico] (Adversus mathematicus, XI, 197) nega o passado, que já foi, e o futuro, que não é ainda, e argumenta que o presente ou é divisível ou é indivisível. Não é indivisível, pois nesse caso não teria princípio que o vinculasse ao passado nem fim que o vinculasse ao futuro; não teria sequer meio, porque não tem meio o que carece de princípio e fim. Tampouco é divisível, pois nesse caso constaria de uma parte que foi e de outra que não é. Ergo, o presente não existe, mas como tampouco existem o passado e o porvir, o tempo não existe.
O tempo não existe.
F. H. Bradley redescobre e melhora essas perplexidades. Observa (Appearance and Reality, IV) que se agora é divisível em outros agoras, não é menos complicado do que o tempo, e que se é indivisível, o tempo é uma mera relação entre coisas intemporais.
Tais raciocínios, como se vê, negam as partes para negar o todo; eu rechaço o todo para exaltar cada uma das partes. Pela dialética de Berkeley e Hume cheguei ao ditame de Schopenhauer: “A forma da manifestação da vontade é apenas o presente, não o passado nem o porvir; esses não existem a não ser para a conceituação e para o encadeamento da consciência, submetida ao princípio da razão. Ninguém viveu no passado e ninguém viverá no futuro: o presente é a forma de toda a vida, é uma possessão de que nenhum mal lhe pode arrebatar… O tempo é como um círculo que gira infinitamente: o arco que desce é o passado, o que ascende é o porvir; acima deles há um ponto invisível que toca a tangente e que é o agora. Imóvel como a tangente, esse ponto sem extensão marca o contato do objeto, cuja forma é o tempo, com o sujeito, que carece de forma, porque não pertence ao cogniscível e é condição prévia do conhecimento” (Welt als Wille und Vorstekkung, I, 54).
A vida de um ser dura o mesmo que uma idéia.
Um tratado budista do século quinto, o Visuddhimagga (Caminho da Pureza), ilustra a mesma doutrina com a mesma figura: “Estritamente falando, a vida de um ser dura o mesmo que uma idéia. Como a roda da carruagem, ao girar, toca a terra em apenas um ponto, dura a vida o que dura uma única idéia” (Radhakrishnan: Indian Philosophy, I, 373).
Outros textos budistas dizem que o mundo se aniquila e ressurge seis mil e quinhentos milhões de vezes por dia e que todo homem é uma ilusão, vertiginosamente fabricada por uma série de homens momentâneos e solitários. “O homem de um momento passado – adverte-nos o Caminho da Pureza, – viveu, mas não vive e não viverá; o homem de um momento futuro viverá, mas não viveu e não vive; o homem do momento presente vive, mas não viveu e não viverá” (obra citada, I, 407), sentença que podemos comparar a esta de Plutarco (De E apud Delphos, 18): “O homem de ontem morreu no de hoje, e o de hoje morre no de amanhã”.
O homem de um momento passado viveu, mas não vive e não viverá; o homem de um momento futuro viverá, mas não viveu e não vive; o homem do momento presente vive, mas não viveu e não viverá.
And yet, and yet… Negar a sucessão temporal, negar o eu, negar o universo astronômico, são desesperações aparentes e consolos secretos. Nosso destino (ao contrário do inferno de Swedenborg e do inferno da mitologia tibetana) não é espantoso por ser irreal; é espantoso porque é irreversível e de ferro. O tempo é a substância de que estou feito. O tempo é um rio que me arrebata, porém eu sou o rio; é um tigre que me devora, porém eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, desgraçadamente, é real; eu, desgraçadamente, sou Borges.
Jorge Luis Borges, Nova refutação do tempo, 1946
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Pacificador
Leio sobre os devaneios de Borges e fico perplexo com a complexidade do Tempo.
Por acaso, deparei-me com um poema de Mário Quintana:
Esses Eternos Deuses…
Os deuses não sabem apanhar o momento esvoaçante
como quem aprisiona um besouro na mão,
não sabem o contacto delicioso, inquietante
do que – só uma vez! – os dedos reterão…
Em sua pobre eternidade, os deuses
desconhecem o preço único do instante…
e esse despertar, ainda palpitante,
de quem cortasse em meio um sonho vão.
No entanto a vida não é sonho… Não:
aberta numa flor ou na polpa de um fruto,
a vida aí está, eterna: nossa mão
é que dispõe apenas de um minuto.
E todos os encontros são adeuses…
(Como riem, meu pobre amor… Como riem, de nós, esses eternos deuses!)