27 de Novembro de 2006

O prólogo de Ra

Por   Paulo Brabo

 

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Outro dia, quando almoçávamos juntos, meu amigo Marcelo Oliveira me perguntou quais eram meus autores favoritos – “meus top 10,” pediu ele. Fui pego de jeito pela pergunta; gosto de tanta gente em literatura que me pareceu injusto sentenciar centenas de nomes ao exílio em detrimento de dez.

Porém, dessa imponderável lista, três nomes não ignoro e mencionei naquela mesa. O primeiro o freqüentador mais distraído desta Bacia saberá recitar: Jorge Luis Borges. O segundo é, irresistivelmente, William Shakespeare. O terceiro é o dramaturgo inglês [George] Bernard Shaw (1856-1950).

Shaw, como Shakespeare, foi uma vertigem entre os homens – um daqueles poucos narradores tão conhecedores do coração dos homens – e tornados por esse conhecimento plenamente implacáveis e plenamente compassivos – que chegam ter sua identidade diluída em sua lucidez. “Compreendo a tudo e a todos,” confessou ele certa vez numa carta, “e nada sou e ninguém”.

Da pena de Shaw fluiu a mais deliciosa e agridoce comédia romântica da história, Cândida, que espero poder um dia chegar a traduzir e deverá ser o último capítulo na saga dO Enigma de Páris. Porém quero deixar-vos, como exemplo da prosa desse monstro, o prólogo de sua peça César e Cleópatra, de 1899. Borges observou que as figuras das peças de Bernard Shaw, especialmente seu Júlio César, “excedem a qualquer personagem imaginado pela arte do nosso tempo. Comparar [o César de Shaw] ao histriônico Zaratustra de Nietzsche é intuir com assombro e com escândalo a primazia de Shaw”.

Não serei eu a discordar de Borges, ainda mais que lhe devo entre tantos o favor de ter me apresentado ao velho inglês.

[A entrada do templo de Ra em Mênfis. Profunda escuridão. Um personagem augusto com cabeça de falcão é misteriosamente visível, com luz própria, na escuridão do interior do templo. Depois de escrutinar a audiência moderna com imenso desprezo ele profere as seguintes palavras:]

Paz! Aquietai-vos e ouvi-me, pequenos ilhéus excêntricos. Dai-me ouvidos, vós homens que tendes um papel branco sobre o peito, sem que nada esteja escrito sobre ele [representando a inocência de vossas mentes]. Ouvi-me, mulheres que vos adornai sedutoramente e escondei vossos pensamentos de vossos homens, levando-os a crer que os considerais assombrosos, fortes e geniais, quando na verdade reputai-os em vossos corações como crianças sem juízo. Considerai minha cabeça de falcão, e sabei que sou Ra, que já foi no Egito um deus poderoso. Não tens como prostar-vos ou ajoelhar-vos, pois estais comprimidos em fileiras sem liberdade de movimento, obstruindo a visão uns dos outros; tampouco considera-lo-ia adequado, qualquer um de vós, fazê-lo até ver todo o restante fazendo-o também – motivo pelo qual acontece com freqüência que diante de grandes emergências nada façais, embora diga cada um a seu companheiro que algo precisa ser feito. Não peço a sua adoração, mas o seu silêncio. Que seus homens não falem, nem tussam suas mulheres, pois venho a fim de trazê-los dois mil anos no passado, além dos túmulos de sessenta gerações. Vós, pobre posteridade, não penseis que sois os primeiros. Outros tolos antes de vós viram o sol erguer-se e se por, e a lua mudar de forma e de horário. Como eles eram sois vós, e não sois na verdade tão grandes; pois as pirâmides que meu povo construiu permanecem em pé até hoje, enquanto que os monturos de pó nos quais vos escravizais, e que chamais de impérios, dispersam-se no vento ao mesmo tempo em que empilhais sobre eles, a fim de criar mais poeira, os corpos mortos de vossos filhos.

Ouvi-me então, ó vós compulsoriamente educados. Sabei que do mesmo modo que existe uma velha Inglaterra e uma nova, e que estais postos em perplexidade entre as duas, nos dias em que eu era adorado havia uma velha Roma e uma nova, e havia homens postos em perplexidade entre as duas. E a velha Roma era pobre e pequena, e gananciosa e implacável, e perversa de muitas maneiras; mas porque sua alma era pequena e seu trabalho simples, ela conhecia sua alma e fazia seu trabalho; e os deuses tinham pena e ajudavam-na e fortaleciam-na e guardavam-na, pois os deuses são pacientes com a pequenez. Então a velha Roma, como o mendigo montado à cavalo, pressupôs o favor dos deuses, e disse: “Eis que não há nem riqueza nem grandeza em nossa pequenez: a estrada para as riquezas e para a grandeza é roubar os pobres e chacinar os fracos”. Eles assim roubaram seus pobres até tornarem-se grandes mestres nessa arte, sabendo através de quais leis podia-se fazer com que isso parecesse decoroso e honesto. E quando já tinham sugado seus pobres até o fim, roubaram os pobres de outras terras, e acrescentaram essas terras a Roma até que surgiu uma nova Roma, imensa e rica. E eu Ra, gargalhei, pois a alma dos romanos permanecia do mesmo tamanho enquanto seu domínio espalhava-se sobre a terra.

Agora prestem atenção, para que possais entender o que estais prestes a ver. Enquanto os romanos estavam ainda entre a velha Roma e a nova ergueu-se dentre eles um poderoso soldado, Pompeu, o Grande. A via do soldado é a via da morte, mas a via dos deuses é a via da vida; acontece portanto que ao fim de seu caminho um deus é sábio, e um soldado ao fim de seu caminho é um tolo. Pompeu agarrou-se então à velha Roma, na qual apenas soldados podiam tornar-se grandes; mas os deuses voltaram-se para a nova Roma, na qual qualquer homem sagaz podia tornar-se o que quisesse. Julio César, amigo de Pompeu, estava do lado dos deuses, pois via que Roma já havia ultrapassado o controle dos anões da velha Roma. Esse César era um grande orador e um grande político: comprava homens com palavras e com ouro, do mesmo modo que comprai-os vós. E quando esses não mais se satisfizeram com palavras e com ouro, passando também a exigir as glórias da guerra, César, na meia-idade, voltou sua mão para esse comércio; e os que eram contrários a César enquanto ele buscava a paz ajoelharam-se diante dele quando tornou-se assassino e conquistador – pois essa é a natureza de vocês, mortais. Quanto a Pompeu, os deuses cansaram-se dos seus triunfos e de sua mania de bancar deus – pois ele falava sobre dever e outras questões que não dizem respeito a um mero verme humano. Os deuses sorriram para César – pois ele vivia com ousadia a vida que eles lhe haviam dado, e não ficava criticando incessantemente nossos critérios indecentes de criação e escondendo a obra de nossas mãos como se fosse coisa vergonhosa. Sabeis bem do que estou falando, pois esse é um dos pecados de vocês.

Assim resultou entre a velha Roma e a nova, que César disse: “A não ser que eu viole a lei da velha Roma, não poderei assumir minha parte em governá-la; e o dom de governar que deram-me os deuses morrerá sem dar fruto”. Mas Pompeu disse: “A lei está acima de tudo; se desobedecerdes a lei certamente morrerás”. Então disse César: “Vou desobedecê-la: mate-me se puder”. E desobedeceu. Pompeu saiu atrás dele, como dizeis, com um grande exército, a fim de assassiná-lo e preservar a velha Roma. Assim César fugiu pelo mar Adriático, pois os altos deuses tinha uma lição a ensiná-lo, lição que eles também ensinarão a vocês no devido tempo se continuardes a esquecê-los para adorar aquele bruto entre os deuses, Mamon. Portanto antes de exaltar a César como mestre do mundo, lembraram os deuses de atirá-lo no pó, abaixo até mesmo dos pés de Pompeu, e de denegrir sua face diante das nações. E Pompeu eles exaltaram mais do que nunca, ele e suas leis e sua mente elevada que macaqueava os deuses, a fim de que sua queda fosse ainda mais terrível. Pompeu saiu no encalço de César, e sujeitou-o com toda a majestade da velha Roma, e pôs-se acima dele e acima do mundo todo do mesmo modo que vós se postais sobre o mundo com sua frota que cobre trinta milhas de mar. E quando foi humilhado à abjeção completa, César tomou a posição de morrer com honra, e não desesperar; pois disse: “Contra mim há Pompeu, e a velha Roma, e a lei e as legiões, todos contra mim; mas acima de mim estão os deuses; e Pompeu é um tolo”. E os deuses gargalharam e aprovaram; e no campo de Farsália o impossível aconteceu: o sangue e o ferro nos quais apegais vossa confiança caiu diante do espírito do homem: pois o espírito do homem é a vontade dos deuses; e o poder de Pompeu desmoronou em suas mãos, do mesmo modo que o poder da Espanha imperial desmoronou quando contrapôs-se aos pais de vocês nos dias em que a Inglaterra era pequena e conhecia sua alma, e tinha um entendimento para conhecer ao invés de uma circulação de periódicos. Portanto tomem cuidado, para que não aconteça de algum povinho que acharíeis por bem escravizar se exalte e torne-se na mão de Deus o açoite das jactâncias e injustiças e lascívias e imbecilidades de vocês.

E agora, conhecereis o fim de Pompeu, ou dormireis enquanto fala um deus? Ouçam bem minhas palavras; pois Pompeu foi para onde fostes, até o Egito, onde havia uma ocupação romana da mesma forma que havia até recentemente uma britânica. E César perseguiu Pompeu até o Egito; um romano fugindo, um romano em seu encalço: um cão comendo outro. E os egípcios disseram: “Eis que os romanos que emprestaram dinheiro a nossos reis e impuseram com suas armas um embargo sobre nós exigem incessantemente que lhes sejamos leais traindo em favor deles nosso próprio país. Mas eis que há agora duas Romas: a Roma de Pompeu e a Roma de César! A qual das duas devemos fingir lealdade?” Em sua perplexidade voltaram-se para um soldado que já havia servido sob Pompeu, e que conhecia os costumes de Roma e estava repleto de suas concupiscências. E disseram-lhe: “Eis que no teu país um cão come outro, e ambos os cães estão vindo para nos comer: que conselho tens para nos dar?” E esse soldado, cujo nome era Lucius Septimius, e que vereis brevemente diante de vós, respondeu: “Considerai diligentemente qual seja o maior cão entre os dois, e matai o outro, para que ganheis o favor do primeiro”. E os egípcios disseram: “Apropositado é o teu conselho; mas se matarmos um homem de forma contrária à lei nos colocaremos no lugar dos deuses, e isso não ousamos fazer. Porém tu, sendo romano, estás habituado a esse tipo de matança, pois tens instintos imperiais. Mataríeis por nós o menor dos cães?” E ele disse: “Eu o farei, pois fiz do Egito meu lar, e desejo consideração e influência entre vocês”. E eles disseram: “Sabíamos muito bem que não o faríeis por nada; terás a tua recompensa”. Ora, quando chegou, Pompeu veio sozinho numa pequena galé, colocando sua confiança na lei e na constituição. E ficou claro para o povo do Egito que Pompeu não passava agora de um cão muito pequeno. Assim, quando colocou os pés na praia ele foi saudado por seu velho camarada Lucius Septimius, que deu-lhe boas-vindas com uma mão e com a outra cortou-lhe de um golpe a cabeça, guardando-a como se fosse um repolho em conserva para dar de presente a César. E a humanidade tremeu; mas os deuses riram, pois Septimius não passava de uma faca que Pompeu havia afiado; e quando essa faca atirou-se contra a garganta dele mesmo, disseram que seria melhor para Pompeu se tivesse feito de Septimius um lavrador em vez de um assassino tão hábil e destemido. Portanto mais uma vez eu lhes digo: cuidado, vós que seríeis todos Pompeus se ousásseis; pois a guerra é um lobo que lhes pode aparecer na própria porta.

Estais impacientes comigo? Ansiais pela história de uma mulher lasciva? Foi o nome de Cleópatra que os tentou a vir? Tolos; Cleópatra é ainda uma criança que é açoitada por sua babá. E o que estou prestes a mostrar-lhes pelo bem das suas almas é como César, procurando Pompeu no Egito, encontrou Cleópatra; e como ele recebeu o presente do repolho em conserva que fora uma vez a cabeça de Pompeu; e que coisas aconteceram entre o velho César e a rainha criança antes que ele deixasse o Egito e guerreasse seu caminho de volta até Roma para ser ali assassinado como Pompeu havia sido assassinado, por homens nos quais o espírito de Pompeu ainda vivia. Tudo isso vereis; e maravilhar-vos-eis, ao seu modo ignorante, de que homens a vinte séculos atrás já fossem em tudo como vocês, e falassem e vivessem como falais e viveis, nem melhores nem piores, nem mais sábios nem mais tolos. E os dois mil anos que passaram são para mim, o deus Ra, não mais do que um momento; nem é este dia outro dia que não aquele em que César colocou os pés na terra do meu povo. E agora deixo-vos, pois sois gente obtusa, e instruí-los é desperdício; eu não teria falado tanto, mas está na natureza de um deus lutar incessantemente contra o pó e contra a escuridão, a fim de arrastar deles, pela força do anseio do deus pelo divino, mais vida e mais luz. Aquietai-vos portanto em vossos assentos e guardai silêncio, pois estais para ouvir um homem falando, e um grande homem ele foi, pelo vosso critério de grandeza. E não temais que eu vos vá falar novamente: o restante da história devereis aprender dos que a viveram. Adeus; e não sejais presunçosos de me aplaudir.

[O templo desaparece em completa escuridão]

Bernard Shaw, prólogo de César e Cleópatra (1899)



4 Comentários a respeito de "O prólogo de Ra"

Farah

You know my friend I could not resist.

Sir George Bernard Shaw in ‘The Genuine Islam,’

“If any religion had the chance of ruling over England, nay Europe within the next hundred years, it could be Islam.”

“I have always held the religion of Muhammad in high estimation because of its wonderful vitality. It is the only religion which appears to me to possess that assimilating capacity to the changing phase of existence which can make itself appeal to every age. I have studied him – the wonderful man and in my opinion far from being an anti-Christ, he must be called the Savior of Humanity.”

“I believe that if a man like him were to assume the dictatorship of the modern world he would succeed in solving its problems in a way that would bring it the much needed peace and happiness: I have prophesied about the faith of Muhammad that it would be acceptable to the Europe of tomorrow as it is beginning to be acceptable to the Europe of today.”



Paulo Brabo

Já decidimos, Farah, que o que o fascina no Islam é o que considero menos estimulante nele: o quão politicamente correto, quão pouco contra-cultura e o quanto – como enfatiza Shaw no texto que você citou – essencialmente praticável ele é.

Esperto como era, Shaw não deixou de perceber que Jesus apontava mais alto; ele não queria um mundo possível, queria o reino de Deus. A única ênfase da passagem a seguir é minha.

“Jesus era do ponto de vista do Sumo Sacerdote um herege e um impostor, do ponto de vista dos comerciantes um agitador e um comunista. Do ponto de vista imperialista dos romanos era um traidor, do ponto de vista do senso comum um louco perigoso. Do ponto de vista do esnobe, que exerce sempre grande influência, era um vagabundo sem um tostão.

“Do ponto de vista da polícia ele era obstruidor das vias públicas, pedinte, aliado de prostitutas, apologista de pecadores e depreciador de juízes; seus companheiros eram vadios que tinham sido seduzidos de seus ofícios regulares para uma vida de vagabundagem. Do ponto de vista dos devotos Jesus era um violador do sábado, negador da eficácia da circuncisão, advogado do rito estranho do batismo, glutão e bebedor de vinho. Era odiado pela classe médica por praticar a medicina sem qualificação, curando as pessoas por curandeirismo e sem cobrar pelo tratamento.

“Ele era contra os sacerdotes, contra o judiciário, contra os militares, contra a cidade (tendo declarado que era inconcebível que um rico entrasse no reino do céu), contra todos os interesses, classes, principados e potestades, convidando a todos que abandonassem essas categorias e o seguissem.

“Por todos os argumentos legais, políticos, religiosos, do costume e da polidez, Jesus foi o maior inimigo da sociedade do seu tempo já colocado atrás das grades. Era culpado de cada acusação feita contra ele, e de muitas outras que não ocorreu a seus acusadores levantar. Se ele era inocente, o mundo inteiro era culpado. Inocentá-lo seria atirar pela janela a civilização e todas as suas instituições. A história confirma o litígio contra ele, pois nenhum Estado jamais constitui-se sobre os seus princípios ou tornou possível viver de acordo com os seus mandamentos (Bernard Shaw, Rocks, 1933)”.

Cabe porém esclarecer que George Bernard Shaw, que era socialista, vegetariano, igualitário, incansável ativista por reformas sociais, não era muçulmano nem cristão – e, tecnicamente falando, tampouco era ateu. Para Shaw, Deus ainda não nascera, como defendia o cristianismo, nem morrera, como sentenciava Nietzsche: era uma obra em andamento. Em 1909, numa carta a Leon Tolstói, ele esclarece sua posição: “Para mim Deus ainda não existe; mas existe uma força criativa lutando para evoluir um orgão executivo de conhecimento e poder divino; isto é, alcançar onipotência e onisciência; e todo homem e mulher que nasce é uma nova tentativa no sentido de se alcançar esse objetivo. Estamos aqui para ajudar Deus, para fazer sua obra, para remediar todos os seus erros, para lutar nós mesmos na direção da divindade”.



Farah

Paulo eu também adoro Shaw e o texto que vc postou é de uma importancia fundamental. Um alerta de consciencia da pequenez e da grandeza que simultanêamente habitam o homem, e que súbita e alternadamente são obrigadas a tomar o comando da vida de cada um.

Eu me encontro num destes momentos, decidindo se minha pequenez é grande ou se o contrario será minha verdade.
Obrigado a Shaw por ter escrito e a vc por ter nos trazido este texto neste momento.

Como vc deverá perceber eu postei o texto do Shaw sobre o Islam antes ler o texto que vc colocou, a simples menção do nome de Bernard Shaw me lembrou a afeição declarada pelo escritor ao Islam, e então como eu disse, não resisti.



Lou Mello

Salvo engano, Bernard Shaw foi amigo de Chalie Chaplin. Resta saber: quem influenciou mais quem.



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