25 de Maio de 2006

O naturalista e o associacionista

Por   Paulo Brabo

 

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Escrevendo a seu amigo E. Hoffmann Price em fevereiro de 1933, H. P. Lovecraft descreve dois modos fundamentais (e praticamente opostos) pelos quais as pessoas reagem à natureza:

O lado rural me toca profundamente porque sempre conheci os ancestrais campos e colinas e bosques mesmo sendo habitante da cidade. A casa em que nasci e cresci ficava junto à orla da área urbana, à distância de um arremesso de pedra dos prados ondulantes cercados por muros de pedra, casas de fazenda imaculadamente brancas, celeiros e estábulos de formato irregular, velhos pomares nodosos, florestas de um crepúsculo mortiço e ribanceiras pontilhadas de ravinas da primitiva Nova Inglaterra colonial. Como d’Erlette, vagueei fascinado por esse místico mundo arcaico, rescendendo a flores, e formei todo tipo de impressões imaginativas a partir dele – mas aqui a semelhança termina. Pois enquanto ele era um intrínseco naturalista como Wordsworth – sensualmente satisfeito com a beleza visível e inexplicada ao redor de si – eu era o exato oposto: um confirmado e inveterado associacionista que constantemente ligava a adorável zona rural a tudo no passado que o folclore e a leitura haviam me trazido.

Há dois modos de se encarar a natureza.

A distinção, que eu ignorava, me parece bastante útil. O naturalista é essencialmente sensual; ele experimenta a natureza exuberantemente, porém apenas com os sentidos; basta-lhe na verdade a imponência da montanha, as cores iridescentes da borboleta, o bálsamo da cachoeira, o abrigo da floresta, a placidez da curva do rio. O associacionista, por sua vez, não consegue experimentar a natureza à parte do que sabe da história e da lenda; a montanha lhe fará pensar nas duras rotas dos tropeiros, a borboleta lhe trará à lembrança as antigas gravuras e expedições dos entomologistas; a cachoeira evocará a imagem dos bandeirantes arrastando seus barcos rio acima; a floresta fechada lhe fará pensar no grito pavoroso do pé-de-garrafa, a curva do rio lhe trará associações de náiades, ondinas e Iaras.

Graças, sem nenhuma dúvida, à influência do meu pai, sou como Lovecraft um irremediável associacionista. Por mais espetacularmente belo que seja o lugar (como, digamos, o vale do Canoas em Urubici), não sou capaz de experimentá-lo per se – sem associá-lo incessantemente à história dos imigrantes, dos índios, das genealogias, dos exploradores, dos fundadores, dos desmatamentos, das guerras, dos sobrenomes, das lendas, dos reflorestamentos, das revoluções, dos dinossauros. Tudo que passou e tudo que foi escrito sobre o lugar é definitivamente mais real para mim do que a mera experiência dos sentidos. A beleza que não evoca me é insuficiente e em última instância frustrante.

Encontro nessas diferentes visões de mundo ecos da distinção que já estabelecemos entre religiões circulares e lineares. O naturalista, em seu abandono aos sentidos, é circular: experimenta a natureza fora do tempo, como sempre é e sempre será. O associacionista, obcecado com a história, é linear; incapaz de enxergar a natureza fora do tempo, ele vê-se obrigado, como Lovecraft, a usar continuamente termos que indiquem e evoquem um passado irrecuperável que porém dá sentido ao presente: “ancestrais, velhos, nodosos, primitivos, coloniais, místicos, arcaicos”.



4 Comentários a respeito de "O naturalista e o associacionista"

Luiz Henrique Mello

Associacionista? Acho que andei praticando isso sem saber que era isso. Acredito e admiro o naturalismo, as pessoas envolvidas mas, minha visão e minha audição se multiplicam especialmente em lugares como esses, e as sombras tomam forma. Que bom saber que o nome também é bonito.



Farah

Aqui eu sou um híbrido consciênte, cresci numa fazenda em contato direto com grandes árvores e o cheiro úmido e quente da floresta brasileira, o barulho da água correndo entre as pedras do rio Laranjinha, faz parte da minha memória mais remota em conjunto com o sol filtrado entre as folhas dos pinheiros, perobas, quaresmeiras, samambaias e xaxins. Até ai naturalista embebido nos cheiros e visões de dentro da mata. Então ainda na infância vieram Monteiro Lobato e o Sacy me mostrando a população real e irreal do mato grosso brasileiro. Mais tarde como escoteiro, já levando uma grande vantagem sobre meus colegas da cidade, assimilei a ordem inglêsa ja com os conhecimentos caboclos implantados dentro de mim.

Então hoje em dia e devo dizer já a muito tempo consigo exercer as duas posturas.

No geral eu faço um exercicio esforço muito grande para me maravilhar tentando sempre ver as coisas, especialmente as da natureza, sempre como se fosse pela primeira vez.



rubens pires de lima osorio

Paulo, tem tb o utilitarista, que vê tudo aquilo, embevecido, e enxerga logo como tirar proveito e levar vantagem. Infelizmente, é este o tipo predominante.



Paulo Brabo

O utilitarista pode não ser o mais numeroso, mas dos três é o que mais estrago causa à paisagem natural. O utilitarista constrói ao redor da cachoeira um hotel fazenda que o naturalista visita e o associacionista deplora.



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