07 de Julho de 2006

O mar de Bal-Perthez

Confiscado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Pala-Pantír despertou no interior de uma estreita clareira, cercado por uma praia pefeitamente circular na base de um vastíssimo funil de paredes verdes de água de mar. Intuiu sem qualquer assombro que estava no exato centro do desfiladeiro, e pensou por um instante ter ouvido o chamado de Lelmal na impossivelmente distante crista do funil. Mas sua resposta não produziu outra.

Colocando-se de pé, constatou que no centro da clareira havia uma solitária mesa de madeira e, sobre ela, uma lata fechada de tinta e uma chave de fenda.

Andou até a mesa e usou a chave de fenda para abrir a lata. Recuou diante do odor acre da tinta alaranjada, mas no momento seguinte mergulhou um dedo na tinta, levou à boca e sorveu, interessado.

O ruído de uma onda quebrando atrás de si fez com que ele voltasse o rosto para ver. A onda havia depositado junto à praia circular o corpo imóvel de uma mulher. Antes mesmo de se aproximar, de ajoelhar e afastar os cabelos castanhos e apertar o rosto gelado contra o seu, Pala-Pantír sabia que era sua querida Enmne, que ele havia enterrado em Palanpur antes de começar a jornada e que era impossível estar aqui.

Derrubando-se no chão, desejou que a maré mortal viesse e arrastasse e despedaçasse o seu corpo enquanto ele atendia e abraçava sua lembrança mais terrível e mais cara. Não se julgava capaz de conceber destino melhor.

Neste ponto um pé descalço apertou-lhe o peito, e antes de erguer os olhos Pala-Pantír usou os cabelos salgados de Enmne para enxugar as lágrimas.

Olhou indignado para o intruso, um homem que lhe cutucuva silenciosamente o lado do corpo com o pé. O estranho estava inteiramente nu exceto por uma enorme capacete de metal com quatro escotilhas circulares, como um capacete de escafandro.

– Acorde – ele estava dizendo.

– Estou acordado – reclamou Pala-Pantír, e sem levantar do chão apertou o abraço que o unia a Enmne. – O que você quer de mim?

– Você sabe. Vim dizer quem você é. Sua jornada termina aqui.

– Minha jornada só termina depois que eu cruzar este mar.

– É o que eu estou dizendo – sorriu o homem por dentro do capacete. – Eu sou este mar. Eu sou Bal-Perthez. Minha doce tarefa é revelar que você não é um deles, por isso não tem com que se preocupar. Seus problemas terminam aqui, meu caro e bravo Pala-Pantír. Você é deus, não homem. Seus pecados estão perdoados, bem como suas virtudes. Esses homens que você defendeu e pelos quais se arriscou, os monstros que abateu… fazia tudo parte do plano. Você é meu enviado, não entende? Desde o começo. Você é um de nós.

A esta altura Pala-Pantír sabia que não estava abraçando coisa alguma além do próprio peito, mas recusou-se a ceder.

– Quem são vocês?

– Somos deuses. Como alguns dos monstros que você infelizmente derrubou.

– Não me arrependo de nada que fiz.

– Como convém a um deus. Só restam então uns poucos pontos a esclarecer. Eles convenceram mesmo você que era de fato uma máscara de elefante que você usava?

Pala-Pantír levou a mão ao rosto.

– O rosto insuportável de um deus – o estranho balançou compreensivamente o capacete. – Regozije-se, meu caro. Suas lealdades estão anuladas. Você não deve nada a ninguém. Aquilo que você julgava estar perseguindo é sua natureza mais verdadeira. Precisávamos de um infiltrado que não conhecesse o seu próprio status de inflitrado, por razões que você a esta altura certamente se recorda.

– Não acredito.

– Vou lhe mostrar – decidiu o estranho, e começou a desatarrachar devagar o capacete. – Esta é a fabulosa história de Bal-Perthez, que já se chamou Bal-Portez, que já se chamou Bala-Pantiz, que já se chamou…

– Pala-Pantír – disse Pala-Pantír, e estava sozinho no meio da clareira, em pé com o capacete entre as mãos.

Neste momento o mar desabou inteiro de um só golpe, com um terrível estrépito, e foi desaparecendo de imediato terra adentro. Pelo desfiladeiro encharcado que restou vieram correndo um sorridente Lelmal e diversos estranhos que Pala-Pantír não reconhecia.

Sem saber se representava para eles uma ameaça, Pala-Pantír foi cambaleando devagar naquela direção.

Pala-Pantír e o mar de Bal-Perthez

  1. Pala-Pantír e Lelmal
  2. O passo de Bajnedin
  3. O mar de Bal-Perthez


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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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