26 de Julho de 2006

O manejo da eternidade

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Traduzindo Borges

Os teólogos definem a eternidade como a simultânea e lúcida possessão de todos os instantes do tempo e declaram-na um dos atributos divinos. [J. W.] Dunne, assombrosamente, supõe que já é nossa a eternidade, e que os sonhos de cada noite o corroboram. Neles, segundo ele, confluem o passado imediato e o imediato porvir. Na vigília recorremos à velocidade uniforme do tempo sucessivo, no sonho abarcamos uma zona que pode ser vastíssima. Sonhar é coordenar vislumbres dessa contemplação e urdir com eles uma história, ou uma série de histórias. Vemos a imagem de uma esfinge e a de uma farmácia e inventamos que uma farmácia se converte em esfinge. Ao homem que amanhã conheceremos atribuímos a boca de um rosto que nos fitou anteontem… (Já Schopenhauer escreveu que a vida e os sonhos são páginas de um mesmo livro, e que lê-las em ordem é viver, folheá-las é sonhar).

A vida e os sonhos são páginas de um mesmo livro: lê-las em ordem é viver; folheá-las é sonhar.

Dunne assegura que na morte aprenderemos o manejo feliz da eternidade. Recobraremos todos os instantes da nossa vida e poderemos recombiná-los como bem quisermos. Deus e nossos amigos e Shakespeare colaborarão conosco.

Jorge Luis Borges, Otras Inquisiciones



3 Comentários a respeito de "O manejo da eternidade"

rubens pires de lima osorio

Tipo meio “de volta para o futuro”, né? Não deixa de ser uma idéia interessante, visto que eu não tenho a menor idéia do que seja a eternidade. Como o peixe, para quem a palavra “seco” não tem significado, visto viver na “água”, nós também vivemos no “tempo”.



Farah

Esse texto me lembrou um grande amigo, um filosofo desconhecido, e de certa forma mentor, que dividia as coisas em tempo e espaço.

Espaço era a área física delimitada concreta, o ponto onde vc está.

O tempo é o sonho, a lembrança, a projeção, o que passou e o que ainda vai existir e para ambos vc pode ir a qualquer momento.



Joao

Ja, eu me identifico muito da ideia ciclica na forma filosofica afro-brasileira, onde o tempo eh ate um Deus. O passado justifica o presente e o futuro eh uma projecao do presente, num crescente evoluir. Ai, o “homem” eh eterno e terno pelo afim.



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