Os teólogos definem a eternidade como a simultânea e lúcida possessão de todos os instantes do tempo e declaram-na um dos atributos divinos. [J. W.] Dunne, assombrosamente, supõe que já é nossa a eternidade, e que os sonhos de cada noite o corroboram. Neles, segundo ele, confluem o passado imediato e o imediato porvir. Na vigília recorremos à velocidade uniforme do tempo sucessivo, no sonho abarcamos uma zona que pode ser vastíssima. Sonhar é coordenar vislumbres dessa contemplação e urdir com eles uma história, ou uma série de histórias. Vemos a imagem de uma esfinge e a de uma farmácia e inventamos que uma farmácia se converte em esfinge. Ao homem que amanhã conheceremos atribuímos a boca de um rosto que nos fitou anteontem… (Já Schopenhauer escreveu que a vida e os sonhos são páginas de um mesmo livro, e que lê-las em ordem é viver, folheá-las é sonhar).
A vida e os sonhos são páginas de um mesmo livro: lê-las em ordem é viver; folheá-las é sonhar.
Dunne assegura que na morte aprenderemos o manejo feliz da eternidade. Recobraremos todos os instantes da nossa vida e poderemos recombiná-los como bem quisermos. Deus e nossos amigos e Shakespeare colaborarão conosco.
Jorge Luis Borges, Otras Inquisiciones
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