Tenho uma mania que creio nunca ter confessado a ninguém: a de abrir portas e portões de edifícios e casas que não conheço – ou, mais tecnicamente, de experimentar para ver se estão abertos. Quando ando sozinho pelo centro de alguma cidade, e em certos bairros também, saio testando maçanetas da mesma forma que algumas crianças apertam campainhas. Mas não saio correndo, especialmente se a porta ou o portão se abrem à minha tentativa – o que acontece com assustadora freqüência.
Por esse vício já fui premiado com todo tipo de visão beatífica, de corredores e de bosques e de saguões e de piscinas e de porteiros e de varandas e de pátios – especialmente pátios, alguns deles que só devem existir, rigorosamente falando, em sonhos. Já fui expulso por olhares e banido por cachorros, e apressei o passo quando intuí que alguém se aproximava.
Meu verdadeiro interesse nessas pequenas aventuras não estará, provavelmente, no prazer menor da transgressão; vivo à caça de assombro, e mesmo quando uma porta se abre para o mais desinteressante e sanitizado dos saguões, resta o êxtase de estar vendo como novidade e santo dos santos o que para alguém representa apenas tédio e familiaridade.



Farah
“resta o êxtase de estar vendo como novidade e santo dos santos o que para alguém representa apenas tédio e familiaridade”.
Isto me leva a memória recorrente de uma entrevista do diretor Roman Polanski que assisti a muito tempo. Nesta entrevista ele discorria sobre a percepção das coisas banais e de como isto é importante no processo criativo. Ele falou de uma figura que achei muito interessante, a dos “calos da percepção” e deu o seguinte exemplo, quando vc vai para um pais estrangeiro, começa a prestar a atenção a coisas que no seu entorno normal já criaram os tais dos calos perceptivos, vc já não vê mais as maçanetas de portas da sua casa e dos seu locais frequentes, ninguem presta atenção as torneiras que sempre abre, em suma vai criando os calos perceptivos e deixando de ver as coisas. Claro ele estava falando como diretor de cinema, como alguém que não pode perder a capacidade de ver as coisas sempre com a profundidade da primeira vez.
Nunca mais esqueci desta entrevista e faço permanentemente esse exercicio de tentar me maravilhar, vendo tudo como se sempre fosse a primeira vez.
Nagel
Paulo, haveria a possibilidade de trocarmos uns e-mails? Posso usar o “Contato” da Bacia? Não é nenhuma questão mais séria.
Abraços.
Paulo Brabo
Nagel, fique à vontade. O formulário de contato está aí pra isso.
rubens osorio
Li, não sei aonde, que o mundo moderno causou no homem a perda da capacidade de assombrar-se (“awe”, em inglês), que é o princípio da religiosidade: frente à Deus, ficamos assombrados (ou devíamos ficar). Por isso a religiosidade atual é tão rala…
Tuas maçanetas te exercitam o assombro. E isto é bom!
Nagel
Rubens, ele é a raiz da filosofia – o homem se assusta com o que vê e parte em busca de compreensão. Julián Marías fala no assombro como aquilo que desperta o homem para a verdade das coisas.
Paulo, obrigado. Já te mando o e-mail.
Abraços.
Junior
Acho que os gregos, salvo engano, definiam como “patos” a impressão de se espantar com o que acontece em ou ao redor de nós.
Abraços.
Paolo
É o que quero fazer com as minhas fotografias, ou melhor, quando vou caminhando (tomando fotografias ou não) nas ruas da minha cidade. Brescia pode ser o lugar perfeito para essa mania, sobretudo porque a gente pensa ela ser cidade industrial e cinzenta…
Portões e cancelas que levam á jardins, escadas, pórticos e pátios medievais, poços e fontes. Gosto de descobrir novas coisas sempre que vou pelas ruas e os becos do centro.
Paulo Brabo
Ah, Paolo, as surpresas que não devem aguardar atrás das portas do Velho Mundo! Aqui na América o edifício mais rigorosamente antigo não tem como ter mais de meros quinhentos anos. Curitiba, minha città, tem pouco mais de trezentos. Uma ninharia.
Mas de fato: o assombro está sempre presente nas suas fotos, mesmo nas que retratam rostos jovens como New York.
Lou Mello
Sua prática de assombrar-se com as portas abertas é ótima e as as fotos do Ramperto são um complemento sobrenatural.
Tenho minhas práticas, talvez menos originais, como vasculhar sebos atrás de algum livro raro. Já me assobrei assim, como quando achei Minha vida e minhas idéias de Albert Schweitzer. Aliás, foi na livraria Farah.
hernan
Falando em Roman Polanski e em assombro lembrei de algo que me deixou assombrado, sem nenhum excesso e em todos os sentidos: Charles Manson.
Alguém assistiu ao “Helter Skelter”?
Farah
Assisti é assustador mesmo.
Mas eu gosto muito é dos trabalhos impecavéis do Polanski, e apesar dele proprio não ter gostado muito do filme, a Dança dos Vampiros é um dos eu não me canso de reassistir. Mas a filmografia do homem como um todo é assombrosa e surpeendente.
Sempre.
Anderson
O Rubens pode ter lido sobre a perda da capacidade de assombrar-se em “O Evangelho Maltrapilho”. Sendo ou não, Brenann Manning escreve acerca disso.
Vez ou outra eu me encontro assombrado pela Serra do Curral a abraçar Belo Horizonte.
hernan
Anderson, já que você citou o livro, sabia que foi o Paulo quem o traduziu? Aliás, foi através desse livro que conheci a Bacia e o Paulão.
rubens osorio
Quanta ignorância!!! Anderson, eu nunca li Manning!!! Sou um semi-alfabetizado, meu. Tô aqui na Bacia por generosidade do Paulo, do Lou e troupe…
Anderson
Pô, o Brabo é o
PurinPurim!Estou no meio do livro, acabei de ler sobre perder o senso de assombro.
Paulo Brabo
“Pô, o Brabo é o Purim!”
Salvo engano. Para saber ao certo será preciso esperar o fim do baile de máscaras.
bete
Paulo purim, umim, tumim.
Junior
Ali o Anjo do Senhor lhe apareceu numa chama de fogo que saia do meio de uma sarça. Moisés viu que, embora a sarça estivesse em chama, não era consumida pelo fogo. “Que impressionante!”, pensou. Por que a sarça não se queima? Vou ver isso de perto.” O Senhor viu que ele se aproximava para observar… (Ex. 3:2-4 NVI)
Impressionante como a questão natural, que lógicamente não se consumia, lhe chamava tanta atenção.
Abraços.