Assegurado o resultado da batalha, o herói pousou a espada e postou-se diante da tentação. Aqui estava ela finalmente, crua e palpável e surpreendente em seu recato: o singelo objeto da sua prova, a verdadeira ameaça de ruína pessoal para o herói, diante da qual cair derrubado pelo inimigo era em comparação destino de integridade, consagração e vitória.
Surpreendeu-o de imediato o quanto a tentação era pequena em relação a ele mesmo; o quanto era irreal e mesquinha e infantil e insignificante. Então era essa coisa, essa arbitrária coisa, que derrubava homens, ofuscava lealdades e destruía futuros. A tarefa de passar ao largo da tentação pareceu-lhe de repente a mais fácil de todas, a mais atordoantemente elementar: não requeria, patentemente, sua grandeza, suas habilidades, sua largueza de alma.
O que ele notou em seguida foi que a tentação era em si mesma coisa imóvel, inerte estanque, inteiramente incapaz de interagir com o mundo ao seu redor ou de influenciá-lo. Surpreso, ele teve de concluir que não era o objeto da tentação que atraía o herói, era ele que mostrava-se atraído pelo objeto da tentação – e este era o primeiro obstáculo que o herói não tinha sido capaz de antecipar. A tentação diante dele permanecia pequena e morta e irrisória em sua impotência, mas o desejo do herói fornecia sua própria força de transubstanciação e arrasto, alterando a natureza do objeto diante dele e fazendo seus braços vibrarem como cordas de lira no simples esforço de esquivarem-se daquela direção.
Ele então compreendeu que o poder da tentação era seu próprio poder, e entendeu que para cumprir seu destino de herói sua única alternativa era partir imediatamente. Ele não era páreo para si mesmo, por isso tinha de correr. O herói recolheu depressa a espada e avaliou com um golpe de vista as duas dezenas de passos que lhe faltava percorrer.
Neste preciso momento, antes que ele desse o passo para longe que sabia-se ainda capaz de dar, ocorreu-lhe de repente uma idéia, uma hipótese que ele permitiu-se considerar apenas em seu status inofensivo de idéia: a possibilidade de que ceder à tentação – tentação que era tão claramente parte essencial dele mesmo, em muitos sentidos indistinguível dele mesmo – talvez o tornasse maior, mais coerente e, nesse sentido inesperado, mais íntegro do que qualquer alternativa.
Assim que deixou-se proferi-la nesses termos o herói reconheceu que não se tratava de mera idéia, mas da materialização de uma dúvida essencial que fazia há muito parte dele sem que ele tivesse sabido dar a ela uma forma. Agora, consolidada neste mais decisivo dos momentos, não tinha como ignorá-la.
Olhando para sua própria e irresistível potência e para o minúsculo objeto diante de si, o herói não soube responder a seu coração em que sentido negar-se à tentação o tornaria mais virtuoso do que o homem que seria caso se abandonasse a ela. A temperança de repente lhe pareceu coisa mesquinha e prepotente, a continência se lhe configurou terrível pretensão. A grandeza, pareceu de repente claro, deveria estar em ceder, em abraçar a indulgência e portanto a humildade, em decidir magnanimamente não ser melhor do que ninguém. A verdadeira tentação talvez fosse a virtude.
Por instantes ele permaneceu paralisado por essa dúvida: o que o tornaria maior? Ceder ou resistir? Onde estaria o maior mérito: manchar-se deliberadamente ou permanecer deliberadamente puro? Em seguida essa dúvida foi coroada por outra, ainda mais atordoante e pessoal: mesmo que resistir fosse a escolha mais digna, o que deveria levá-lo a achar-se merecedor do maior mérito, digno de escolher o destino que o tornaria maior?
Quando o chão começou a tremer, caiu sobre ele a repentina e inequívoca certeza de que ceder à tentação era no fim das contas a solução nobre e altruísta e honrosa, apesar do rompimento que poderia causar no tecido do futuro. Os deuses teriam evidente prazer em ver o gigante cedendo à pequena tentação, o maior dobrando-se generosamente ao menor.
O herói, que estava preparado para enfrentar a dúvida, não tinha estrutura para reagir à certeza, e não soube de repente o que iria fazer.



Lou Mello
Bom. Sobrou para o Nietzsche de novo: “É a certeza que enlouquece”. Muito difícil achá-la e quando a encontramos não a suportamos. Melhor viver a dúvida.
rubens osorio
Como nos foi possível suportar tres dias inteirinhos sem essas provocações da Bacia, que, por vezes, me parece mais Precipício, onde mergulho com prazer, medo, dúvida, certeza, nojo e entusiasmo???
A Bacia é uma tentação!!!
Elienai
Sua provocação lembrou Machado de Assis em A Igreja do Diabo. Ali, Machado, chama na boca do Diabo em diálogo com Deus as virtudes de almofadas de seda com franjas de algodão. Em toda a virtude há um vício. Em todo vício uma virtude. Não será a certeza o triunfo da dúvida?
Brabo, meu inconsolável lamento por perder a chance de conhecê-lo pessoalmente.