Muito antes de me render de uma vez por todas à persuasão de Jesus, há cerca de dez anos, fui tocado irresistivelmente pelo evangelho segundo a obra do maior escritor menor de todos os tempos: o argentino universal Jorge Luis Borges.
Neste mundo a beleza é comum.
A boa nova de Borges é despretensiosa e transparente, o que não deixa de ser notável num escritor que é lugar comum descrever como labiríntico. Sua expressão mais contundente, que eu saiba, encontra-se nesta declaração: “Espero que o leitor descubra em minhas páginas algo que possa merecer sua memória; neste mundo a beleza é comum.”
De todas as frases, de todos os livros, de todas as páginas, de todas as épocas, não há frase que eu gostaria de ter escrito mais do que essa: neste mundo a beleza é comum.
Não há sensatez maior, nem visão de mundo que mais se alinhe à dos evangelhos.
Borges cria que os parágrafos mais incompetentes, as poesias mais desajeitadas e as traduções mais distraídas não são imunes à beleza. Borges cria que a maior expressão de toda filosofia e de toda metafísica encontra-se nas narrativas do gênero menor que é a literatura fantástica. Borges cria que o melhor da produção literária da humanidade circulou como moeda comum muito antes de chegar a repousar entre capas duras: as lendas japonesas, os contos das mil e uma noites, as sagas nórdicas. Borges cria – perceba a horrenda ousadia, o impensável contrasenso – que a beleza é comum.
Um cego que enxergava a beleza em todo lugar – a imagem é tão piegas que não é impossível que seja capaz de nos desarmar.
Pois o evangelho de Borges, sua boa nova, é que neste mundo não há como escapar à beleza. Para onde fugirei da sua face? Se eu subir ao céu, lá a beleza está; se eu fizer no inferno a minha cama, ali ela está também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar – não há como se evadir ao seu regime. Salomão foi um sujeito elegante, mas nunca, jamais, em todo seu esplendor, chegou perto de ameaçar a carreira do mais rastaqüera lírio do campo.
É a velha boa nova do Reino, com que Jesus fendia nossas mais ternas convicções de que o mundo é uma ameaça e a felicidade uma pérola que poucos chegam a conhecer.
Deus não cessa de fazer o bem, blasfemava Jesus. Nada tem como dar errado. Nada. Não vos preocupeis com o dia de amanhã. Se vocês que são maus sabem dar aos seus filhos coisas boas, quanto mais o papai do céu. O mundo é um lugar insuportavelmente belo e seguro embalado pelo amor do Pai.
Diante disso restou ao monge, também citado incessantemente por Borges, suplicar: “Ah, Senhor, que não haja tanta beleza!” – que é, naturalmente, a segunda frase que eu mais desejaria ter escrito. Mas recolho-me e me conformo, não sem um sorriso. Num mundo em que a beleza é coisa rasteira deve haver frase melhor aguardando numa conversa de botequim, num capítulo de novela, num blog anônimo que não ocorre há meses a seu autor perder tempo para atualizar.



Farah
It’s a Sad and Beautiful World…
Paulo Brabo
Não no sentido que neste mundo uma coisa possa anular (ou existir sem) a outra. Que dor e beleza andam sempre juntas estão aí toda a vida e toda a literatura para comprovar. É selvagemente fértil o solo negro do vale da morte.
Luiz Henrique Mello
A beleza é comum e muito persistente. Um temporal quase arrancou a frondosa árvore da frente de minha casa, ela ficou tão avariada que pensamos em arrancá-la. Ficou feia, coitada. Mas, não se sabe como, ao seu lado nasceu uma flor vermelha, linda. Passou uma menina e a levou. Aos poucos a árvore, indignada, começa a viver. Ao seu lado, só por garantia, brotou uma nova árvore que logo vai ficar bela, também.
Ricardo Gondim
Dá-me, ó Deus, olhos para mirar beleza; concede-me um coração com sede do comum, e uma réstia de felicidade iluminará meu espírito.
Paulo Honório Guimarães
“Há beleza em todas as coisas”, é o nome de um antigo filme sueco. Não me lembro bem da história, mas nunca esqueci o título. Já foi dito acima, é blasfemo, mas verdadeiro. O pecado tornou o mundo “feio”, mas muito além dele há a beleza do Pai, traduzida na cruz do Filho, que devolveu ao mundo a possibilidade de perceber que ainda “há beleza em todas as coisas”.
Ben-Hur
Como disse Rubem Alves:
“Fora da beleza não há salvação”
Delmo Fonseca
Já viste um loiro trigal balançando ao vento? É das coisas mais belas do mundo, mas os hitleristas e seus cães danados destruíram os trigais e os povos morrem de fome. Como falar, então, da beleza, dessa beleza simples e pura da farinha e do pão, da água da fonte, do céu azul, do teu rosto na tarde? Não posso falar dessas coisas de todos os dias, dessas alegrias de todos os instantes. Porque elas estão perigando, todas elas, os trigais e o pão, a farinha e a água, o céu, o mar e teu rosto. Contra tudo que é a beleza cotidiana do homem, o nazifascismo se levantou, monstro medieval de torpe visão, de ávido apetite assassino. Outros que falem, se quiserem, das árvores nas tardes agrestes, das rosas em coloridos variados, das flores simples e dos versos mais belos e mais tristes. Outros que falem as grandes palavras de amor para a bem-amada, outros que digam dos crepúsculos e das noites de estrelas. Não tenho palavras, não tenho frases, vejo as árvores, os pássaros e a tarde, vejo teus olhos, vejo o crepúsculo bordando a cidade. Mas sobre todos esses quadros bóiam cadáveres de crianças que os nazis mataram, ao canto dos pássaros se mesclam os gritos dos velhos torturados nos campos de concentração, nos crepúsculos se fundem madrugadas de reféns fuzilados. E, quando a paisagem lembra o campo, o que eu vejo são os trigais destruídos ao passo das bestas hitleristas, os trigais que alimentavam antes as populações livres. Sobre toda a beleza paira a sombra da escravidão. É como u’a nuvem inesperada num céu azul e límpido. Como então encontrar palavras inocentes, doces palavras cariciosas, versos suaves e tristes? Perdi o sentido destas palavras, destas frases, elas me soam como uma traição neste momento.
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Não me contive e tive que citar este trecho de “Nem a rosa, nem o cravo”, de outro Jorge (Amado), em que a beleza se auto-explica. A vida é Bela.