Os mortos reuniram-se certa vez para discutir a ameaça dos vivos.
– Sabemos que hoje em dia há na Terra mais vivos do que mortos – disse o presidente dos mortos na abertura da sessão – e isso me assusta. O equilíbrio natural está ameaçado e o risco que corremos é muito real. Temos que trazer mais gente para o nosso lado.
– É besteira se preocupar com isso – opinou um blogueiro morto que achava que o presidente era um alarmista. – Toda essa gente aparentemente cheia de vida vai um dia acabar morrendo. O vivo mais obstinado acaba se rendendo à graça irresistível da morte. Acho que devemos esquecer esse assunto e cuidar cada um das nossas mortes.
– Concordo com o morto ali – disse um bombeiro morto, com queimaduras de terceiro grau. – Sem contar que os vivos não estão nem aí para os mortos. Não temos direito nem a voto.
– Isso é total preconceito dos vivos – comentou um antropólogo morto, empertigando o esqueleto. – Se não nos respeitavam quando éramos maioria, que dirá agora?
Ruídos de assentimento e ranger de dentes percorreram a necrópole.
– O que mais me incomoda é a avalanche de calúnia e falsidade ideológica contra quem não tem mais como se defender – disse um filósofo morto. – Repito que como não temos direito a réplica deveríamos processar por danos morais. Essa gente que ainda não morreu vive colocando palavras na nossa boca e distorcendo o sentido do que de fato dissemos.
– Você no lugar deles fazia a mesma coisa – lembrou o blogueiro.
– Sem contar que é preciso ser vivo para processar por danos morais – lembrou um advogado morto, que tinha sido enterrado com seu celular mas não tinha mais créditos.
– Estamos fugindo do assunto – demandou o presidente batendo com um fêmur na mesa. – Estamos falando da ameaça dos vivos.
– E que mal eles podem nos fazer? – consultou uma sexóloga morta, mordiscando um verme maldito que lhe ficara preso entre os dentes.
– Os vivos são um mau exemplo – esclareceu o presidente, sentindo-se muito rebaixado por ter de explicar o óbvio.




