02 de Março de 2006

O divisor de águas

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Fé e Crença

As religiões circulares não precisam se reinventar. Os ciclos brotam naturalmente para renová-las: há sempre mais um filho, mais uma lua nova, mais um solstício do verão para celebrar.

As religiões lineares vivem de pontos memoráveis na linha do tempo, e por isso tem de conviver necessariamente com um problema e um paradoxo: o evento histórico que as define vai ficando cada vez mais distante no passado.

Para os muçulmanos, mais recentes, o momento histórico que os define é a vida de Maomé (c. 570–632 d.C.). Para os cristãos, esse intervalo é o ministério de Jesus e dos apóstolos (c. 30-70 d.C.). Tanto muçulmanos quanto cristãos beberam, porém, da fonte histórica da primeira e mais antiga religião linear, o judaísmo.

Embora segundo as Escrituras hebraicas a história de Israel comece com o chamado de Abraão (cerca de 2.000 anos antes de Cristo), o evento crucial da história do judaísmo – o momento da história ao qual os judeus sempre voltam, que incessantemente celebram e que os define aos seus próprios olhos como povo – é o Êxodo: a fuga da servidão do Egito e o recebimento da Lei no Sinai, sob a liderança de Moisés (c. 1300 a.C).

Toda a vida religiosa de Israel apontava para o momento no passado em que Deus se revelara como resgatador e legislador, guiando o povo do Egito à Terra Prometida (com parada obrigatória no Sinai).

Ainda hoje o povo judeu entende sua vocação e seu destino à luz desse evento revelador que os tornou povo e tornou-se sua indelével recordação. Da mesma forma que o cristão revive o sacrifício de Cristo na celebração da Ceia do Senhor, o judeu traz à mente e torna contemporâneo o Êxodo ao celebrar a Páscoa1 .

Eis aqui o primeiro paradoxo das religiões lineares. Ao contrário das religiões circulares (que têm os ciclos brotando espontaneamente para lembrá-las do que celebrar), as religiões lineares/históricas definem-se por um único evento do passado, e não podem por isso dar-se ao luxo de esquecê-lo. O modo que encontram de manter viva a lembrança desse momento crucial e definitivo é celebrá-lo periodicamente – daí a Páscoa judaica, a Ceia/Eucaristia cristã, a peregrinação dos muçulmanos a Meca.

O paradoxo está portanto em que, para manter relevante um momento do passado, as religiões lineares tendem a revivê-lo circularmente.

Quero voltar ainda a este assunto. Por enquanto basta lembrar, com ervas amargas, que o Exodo é o momento central na história e na memória de Israel. Antes da primeira religião linear, as religiões do mundo andavam em círculos. O Mar Vermelho foi o grande divisor de águas.

1 Bernhard W. Anderson, Understanding the Old Testament



2 Comentários a respeito de "O divisor de águas"

JOINCANTO

Uma fé presente que aprende com a história do passado, numa expectativa de um futuro perenemente glorioso.



Volney Faustini

Como cristão, de um lado louvo a linearilidade: princípio, meio e fim. Sei de onde vim e para onde vou. Nem sempre sei como agir no presente. Nem sempre sei do presente. Mas prossigo.

Há de outro lado a circularidade (boa) que podemos tentar outra vez, lançar as redes, voltar para o poço, viajar pela terceira vez… prá ficar em metáforas neo-testamentárias.

Há também a circularidade (ruim ou não tão boa) de andarmos 40 anos no deserto… porque a perna direita é mais forte (rs), ou de destruição, exílio e retorno, construção. Ou de Rei mau, misericordia, Rei pior que mau, misericordia de Deus, Rei ainda espetacularmente mau, misericórdia… pra ficarmos nas metáforas Oldtestamentárias.



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