Inteiramente irrelevante para o resto do mundo, desenrola-se nos nossos dias um acirrado embate teológico que em nada fica devendo às elucubrações do escolasticismo medieval. O prêmio almejado por ambos os lados da discussão é o status de ortodoxia – a consagração de crença correta, oficial, credenciada, inquestionável e inquestionada. Em jogo está quem tem direito a usar a marca do verdadeiro cristianismo©. Com quem Deus vai ficar no final?
Com quem Deus vai ficar no final?
CALVINISMO: Em defesa da soberania de Deus
Deste lado, pesando 400 anos e com treinadores peso-pesado como Martinho Lutero e Calvino, está o calvinismo, sistema teológico característico das igrejas de tradição reformada. Os títulos já dizem tudo sobre a sua origem histórica: o calvinismo ostenta ser extensão fiel da postura teológica geral da reforma protestante do século XVI – refletindo em especial o pensamento de João Calvino e de seus discípulos imediatos.
No que interessa para a nossa discussão é preciso dizer que o calvinismo enfatiza tanto a tremenda soberania de Deus (Deus faz o que quer) quanto a tremenda incompetência do homem (o homem é incapaz de fazer por si mesmo qualquer coisa de bom).
O calvinista crê encontrar na Bíblia que Deus é soberano, e entende com isso que o livre-arbítrio humano é coisa que não existe. O homem, atolado até o pescoço na fossa do pecado, não tem qualquer inclinação, capacidade ou independência moral para desejar a Deus, quanto menos o cacife para escolher tomar o lado divino a fim de encontrar a salvação. Os que são salvos são salvos por iniciativa inconcidional de Deus tomada na eternidade antes do tempo começar a se desenrolar – ou seja, não com base em qualquer mérito, disposição em mudar ou manifestação de fé do indivíduo favorecido.
A morte sacrificial de Cristo não beneficia toda a humanidade, mas apenas essa porcentagem de eleitos que Deus escolheu em sua misericórdia e sem precisar dar explicações a ninguém. Essa graça concedida em favor dos eleitos é “irresistível” – isto é, do mesmo modo que não fez nada para merecê-la, o predestinado não tem liberdade para rejeitá-la e vai acabar cedendo a ela na hora certa, e para sempre. Os outros, predestinados à destruição, não tem por um lado espaço de manobra para mudarem o seu próprio destino, por outro direito a reclamarem dele.
Não é sem fundamento bíblico que o calvinismo deita essas propostas aparentemente paralisantes e deterministas. O apóstolo Paulo, em particular, parece fornecer ampla credencial para cada um dos pontos defendidos pelos calvinistas. Para citar uns poucos exemplos:
Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos; e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou (Romanos 8:29-30).
…que nos salvou, e chamou com uma santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos (2 Timóteo 1:9).
Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus que usa de misericórdia (Romanos 9:16).
O calvinismo enfatiza a soberania de Deus e a incompetência do homem.
O conceito de predestinação parece também ter feito parte integrante do discurso do próprio Jesus e de outras tradições apostólicas:
Se o Senhor não abreviasse aqueles dias, ninguém se salvaria; mas ele, por causa dos eleitos que escolheu, abreviou aqueles dias (Marcos 13:20).
Os gentios, ouvindo isto, alegravam-se e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos haviam sido destinados para a vida eterna (Atos 13:48).
Ancorado nessa qualidade de testemunhos o calvinismo sustenta que a soberania divina deve ser entendida em termos de um controle firme de Deus sobre as rédeas da história. A liberdade de escolha de que o homem crê desfrutar é ilusória, visto que o desenrolar do enredo, em especial no que diz respeito a baixas e resgates individuais, já foi definido por Deus antes das câmeras começarem a rodar.
As particularidades do sistema calvinista refletem com exatidão as condições ideológicas do mundo em que nasceu. A reforma protestante levantou-se em grande parte como reação aos abusos teológicos, sociais e políticos da igreja católica do seu tempo. Os reformadores mostravam particular indignação para com a obsessão circular da igreja católica com as “boas obras”, obras alegadamente meritórias e/ou sacrificiais através dos quais o adorador podia garantir – e muitas vezes comprar – a sua salvação. Os reformadores criam, e com acerto, que o Deus da Bíblia não admite barganhas; ele exige performance mas não aceita subornos e não reconhece méritos, promovendo a reconciliação exclusivamente através de sua própria postura cavalheiresca, a que os autores do Novo Testamento dão o nome de graça.
O calvinismo é o resultado de se levar a idéia de predestinação às suas últimas conseqüências lógicas. Se Deus predestinou, a graça é irresistível. Se Deus predestinou, não foi para todos que Jesus morreu. Se Deus predestinou, a liberdade humana é uma ilusão e uma farsa. Se Deus predestinou, ele conhece o futuro por inteiro e a história está pronta – apenas não terminou de ser filmada.
TEÍSMO ABERTO: Em defesa da liberdade
Deste lado, pesando menos de 30 anos mas alegando ser a reencarnação de um espírito muito anterior ao nascimento do calvinismo, está o teísmo aberto, batizado com esse nome em 1980 pelo adventista Richard Rice. O teísmo aberto traz à tona idéias que já circulavam sob alguma forma no pensamento de Jacobus Arminius, de John Wesley e de diversos teólogos do século XIX, porém aplica-lhes um matiz muito peculiar e arma-se de novos argumentos.
O teísmo aberto fundamenta-se na premissa de que muitos dos dogmas do teísmo clássico (e portanto do calvinismo) não tem sua origem na Bíblia ou na tradição dos apóstolos, mas são fruto de uma assimilação sacrílega de conceitos importados da filosofia grega. É o pensamento grego clássico e não a Bíblia – sustentam eles, e com acerto – que descreve Deus como sendo imutável, impassível e fora do tempo.
Seus partidários enfatizam que “atributos” de Deus como onisciência e onipotência não aparecem na Bíblia com esse nome, sendo generalizações posteriores forjadas a partir de indicações muito cautelosas dos autores bíblicos; mesmo o conhecido título de “Todo-Poderoso” é resultado da tradução arbitrária de uma expressão hebraica cujo significado original se perdeu. O Deus descrito na Bíblia é por um lado tremendamente poderoso, sábio e constante, por outro prefere definir-se por qualidades de auto-esvaziamento como misericórdia, tolerância e amor.
Em contraste com o calvinismo, o teísmo aberto enfatiza o caráter relacional de Deus (Deus desce da sua soberania para inaugurar um relacionamento aberto com o homem) e a liberdade e a responsabilidade humanas (Deus concedeu verdadeiro livre-arbítirio ao homem).
O partidário do teísmo aberto crê encontrar na Bíblia que Deus concedeu autonomia mais do que ilusória ao homem, e entende com isso que Deus não pode ser soberano como o classificam os calvinistas. O homem não pode salvar-se por si mesmo da sua condição, mas Deus desce da sua grandeza para convidar o homem a estabelecer um relacionamento livre com ele. Embora seja no fim das contas salvo apenas pela conduta galante e inclusiva de Deus, cabe ao homem rejeitar ou aceitar o convite para o abraço de reconciliação.
O teísmo aberto enfatiza o caráter relacional de Deus e a liberdade e a responsabilidade humanas.
A morte sacrificial de Cristo beneficia de forma potencial toda a humanidade, porque o futuro permanece em aberto e enquanto vive o homem pode aceitar o convite da graça – convite esse que é tremendamente atraente mas não irresistível, já que Deus achou por bem relacionar-se com agentes livres e não com (a imagem é recorrente na argumentação dos teístas abertos) marionetes.
Todos estão portanto “predestinados” à salvação, mas o homem é livre para recusar esse destino glorioso e, como o Don Giovanni de Mozart, dizer no! ao mais sedutor dos apelos e abraçar voluntariamente o inferno. Como resultado dessa terrível liberdade que concedeu ao homem, Deus não tem como conhecer todos os detalhes do futuro – daí a corrente definir-se por uma visão “aberta” de Deus.
O Deus do teísmo aberto está inserido na história e não num inconcebível lugar fora do tempo; é um Deus que sofre e se relaciona; que está aberto ao diálogo e a mudar de opinião. É um Deus que, basicamente, recusou-se a viciar os dados e resolveu correr o risco da rejeição, na esperança de poder experimentar o verdadeiro amor.
Também não é sem fundamento bíblico que o teísmo aberto define suas proposições. O Deus da Bíblia sente-se muito à vontade no fluxo da história; as Escrituras judaico-cristãs fornecem abundante testemunho de Deus cedendo a pedidos, experimentando surpresa e desapontamento e mudando de idéia a partir da perfomance humana – incidentes que parecem contradizer a visão determinista do calvinismo. Inúmeros textos bíblicos enfatizam a responsabilidade humana no processo de salvação e o caráter relacional e recíproco das alianças de Deus com o homem. Algumas passagens chegam a falar de gente rejeitando trágica e deliberadamente (precisamente como Don Giovanni) o desígnio de Deus para suas vidas.
Arrependo-me de haver posto a Saul como rei; porquanto deixou de me seguir, e não cumpriu as minhas palavras (1 Samuel 15:11).
O Senhor se arrependeu de haver constituído Saul rei sobre Israel (1 Samuel 15:35).
Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria, e não o fez (Jonas 3:10).
Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência (Deuteronômio 30:19).
Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado (Marcos 16:16).
Deus deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade (1 Timóteo 2:4 ).
Ora, é para esse fim que labutamos e nos esforçamos sobremodo, porquanto temos posto a nossa esperança no Deus vivo, Salvador de todos os homens, especialmente dos fiéis (1 Timoteo 4:10).
Mas os fariseus e os intérpretes da Lei rejeitaram, quanto a si mesmos, o desígnio de Deus, não tendo sido batizados por ele (Lucas 7:30).
Ancorado nessa qualidade de testemunhos o teísmo aberto sustenta que a soberania divina deve ser entendida como uma supervisão geral do Deus poderoso sobre uma história que ainda não está pronta. No fluxo dessa narrativa Deus intervém, mas não manipula; age, mas não condena ninguém ao inferno. A liberdade do homem é terrivelmente real, refletindo a liberdade do próprio Deus; é o encontro dessas liberdades que qualifica o tipo de relacionamento que Deus propõe experimentar com o homem. Deus não escolhe se definir pelo seu tremendo poder, mas pelo esvaziamento de poder, conforme exuberantemente manifesto na encarnação e na carne de Jesus.
As particularidades do teísmo aberto refletem com exatidão as condições ideológicas do mundo em que nasceu: o nosso. Desde meados do século XX a posição político-ideológica prevalente no ocidente e em suas colônias é essencialmente libertária, isto é, glorifica a autodeterminação. A liberdade de decisão é o único valor inegociável da nossa cultura, e qualquer relação entre dois agentes é concebível, desde que seja consensual. Como resultado, nenhuma relação não-consensual nos parece legítima. Pela lógica libertária, dizer graça irrestível é o mesmo que dizer graça nenhuma. O determinismo calvinista incomoda os teístas abertos não apenas por negar a liberdade do homem, mas por limitar a liberdade de Deus. Entendem eles que o Deus da Bíblia é poderoso não por dirigir a história com punho de ferro, mas por garantir um resultado final positivo sem dobrar-se à solução fácil que seria controlar todas as variáveis.
O teísmo aberto é o resultado de se levar a idéia da predestinação às suas últimas conseqüências lógicas. Se Deus predestinou, a liberdade humana é uma farsa. Se Deus predestinou, Jesus morreu para beneficiar uma elite arbitrária de eleitos, o que é moralmente inaceitável e incompatível com o caráter amoroso e inclusivo de Deus revelado no tom geral da Escritura. A missão do sistema do teísmo aberto é libertar Deus das amarras da sua soberania e a devoção cristã das contradições impensáveis do determinismo.
CAÇADORES DE CONSEQÜÊNCIAS
O arcabouço dessa disputa precede em muito o cristianismo, visto que reflete a discussão, já presente entre os pensadores da Antiguidade, sobre a atordoante possibilidade (e a ainda mais atordoante possibilidade da impossibilidade) do livre-arbítrio. Em vocabulário ou mitologia contemporâneos, costuma-se especular até que ponto o comportamento do ser humano é determinado pela genética (como defende a sociobiologia) ou pela influência do meio (como sustentam muitas correntes da psicologia). Se (digamos) metade do nosso comportamento é determinado pela herança genética e a outra metade pela interação com o meio, restará espaço para o livre-arbítrio? A ciência, domínio para a qual transferiram-se desde o Iluminismo discussões metafísicas dessa natureza, não apresenta resposta unânime. Richard Dawkins e outros expoentes menos preconceituosos da ciência cognitiva tomam hoje por absolutamente certo que o livre-arbítrio humano é uma ilusão. Por outro lado, no universo selvagem da incerteza quântica simplificações como o determinismo é que parecem inconcebíveis.
Para calvinistas contemporâneos e teístas abertos, que procuram propor e responder a questão em termos de um outro tempo, a importância do embate entre soberania de Deus e livre-arbítrio fica clara quando se consideram as terríveis conseqüências lógicas, morais e ideológicas, de se abraçar a doutrina oposta.
Os teístas abertos começaram a ganhar terreno e adeptos denunciando, basicamente, o que vêem ser as abomináveis conseqüências morais do calvinismo. Para aceitar o calvinismo da ortodoxia, argumentam eles, é preciso endossar uma série de noções teológicas incompatíveis com o caráter generoso e relacional de Deus. Por exemplo: [1] que Deus é o único responsável pelo mal, [2] que Deus está mentindo quando dá entender que o homem é responsável por suas ações, [3] que a oração de súplica é uma farsa perversa, visto que o futuro é imutável e Deus não pode ser persuadido a mudar de idéia, [4] que de nada adianta pregar a boa nova, visto que os eleitos acabarão encontrando a luz de uma forma ou de outra, [5] que não existem injustiças sociais ou morais, visto que cada baixa de todas as guerras e de todas as pobrezas estavam previstas no roteiro original do próprio Deus.
“Deixe Deus ser bom”.
Os calvinistas rebatem com o que creem ser as inadmissíveis conseqüências teológicas do teísmo aberto. O Deus do teísmo aberto é, reclamam eles: [1] menos do que onisciente, porque não conhece o futuro, [2] menos do que onipotente, porque não será capaz de impor a sua vontade se estiver restringido pela liberdade humana, [3] menos do que absoluto e eterno, por estar sujeito ao avanço linear do tempo no próprio universo que criou e [4] menos do que onipresente, porque o futuro não é uma realidade presente para ele.
Como demonstram essas séries muito simplificadas de objeções de ambos os lados, a preocupação fundamental dos teístas abertos é defender a bondade de Deus; a dos calvinistas é defender seus atributos.
Significativamente, um embate quase nos mesmos termos desenrolou-se há quase cinco séculos entre dois influentes pensadores cristãos, Martinho Lutero e Erasmo de Rotterdam, que trocaram acalorada correspondência sobre o assunto. Erasmo era ardente defensor da bondade de Deus, Lutero da sua soberania. Da mesma forma que calvinistas contemporâneos e teístas abertos, e quase com os mesmos raciocínios, ambos enxergavam com clareza as falhas teológicas e morais da posição do outro. Em determinado momento, desconcertado com a argumentação inclemente do seu oponente e resumindo sua expectativa e sua postura, Erasmo implorou a Lutero numa carta: “Deixe Deus ser bom”. Sem ceder um passo, Lutero retrucou em seguida, resumindo as suas: “Deixe Deus ser Deus”.
FOGUEIRAS VIRTUAIS: O martelo dos blogueiros
Esse é o tipo de discussão teológica que até dez anos atrás estava confinada a corredores acadêmicos e periódicos de seminário, avançando devagar e um artigo atrás do outro, longe dos olhos do público geral. Graças aos canais fáceis da internet, a altercação adquiriu um novo ardor e acendeu uma nova inquisição.
A disputa entre a doutrina calvinista e o teísmo aberto desenrola-se hoje em dia em blogs, fóruns de discussão, mailing lists, comunidades do orkut e mensagens reencaminhadas de e-mail. Nenhum líder tupiniquim chegou, que eu saiba, a abraçar abertamente o teísmo aberto, mas a doutrina calvinista conta com defensores pugnazes como a tradutora Norma Braga e os austeros pastores do blog O Tempora, O Mores (que assinam com a intimidadora advertência Very Strong Opinions).
Acusados com freqüência de flertar com o teísmo aberto são os líderes evangélicos que ousaram lamentar as conseqüências morais do calvinismo e opinar que a realidade talvez não seja tão simples. Em particular os impenitentes Ricardo Gondim, da Igreja Assembléia de Deus Betesda, e Ed René Kivitz, da Igreja Batista da Água Branca, sofrem pesado patrulhamento ideológico dos reformados. Tudo que esses dois dizem que pode representar alguma ameaça à ortodoxia calvinista – e eles dizem muita coisa do gênero: por exemplo, aqui e aqui – é imediatamente desconstruído pelos seus oponentes nos fóros virtuais que mencionei (por exemplo, aqui).
Os reformados acusam Gondim e Kivitz, no âmbito ideológico, de relativismo, que consiste na desconfiança tipicamente pós-moderna a posições doutrinárias categóricas e absolutas; no âmbito moral, de dissimulação, denunciando a hesitação da dupla em assumir publicamente que abandonou a ortodoxia em favor de uma doutrina alternativa – confissão que tornaria mais fácil o trabalho de desclassificá-los como hereges. Acusam-nos de não entender a verdadeira doutrina calvinista, na qual soberania de Deus e responsabilidade humana não são incompatíveis. Acusam-nos de falta de objetividade, confusão essencial e raleza de argumentação. Pelo que conheço dos dois (são meus amigos) essas acusações podem muito bem ter fundamento. Gondim e Kivitz, cujas idéias estão condenadas à reformulação eterna, escolheram o impalpável caminho da precariedade, que é tão largo que são poucos os que entram por ele. Sua fé diz mais a respeito às suas dúvidas do que às suas certezas; isso cria um precedente que é essencialmente destrutivo à supremacia da ortodoxolatria e precisa ser por essa razão eliminado pelos que se preocupam com esse tipo de coisa.
O EVANGELHO DA COMPARAÇÃO
Como Gondim e Kivitz, prefiro a confortável posição de denunciar o calvinismo sem endossar a doutrina do teísmo aberto – doutrina que é no fim das contas tão limitante e extrema quanto a que pretende invalidar. Agir diferente seria glorificar uma ortodoxia em detrimento da outra; desmanchar um ídolo para colocar outro no lugar. Responder com contra-argumentações às objeções dos reformados seria concordar com eles na sua pressuposição fundamental (e mais sem fundamento), de que a razão e o raciocínio dedutivo podem produzir conclusões acuradas a respeito do mecanismo de Deus.
Isso porque a falta essencial que os calvinistas encontram no teísmo aberto e na teologia racional é de lógica. Seus defensores prestam culto à lógica formal, seguindo implacavelmente de suas próprias premissas a conclusões estanques:
PREMISSA: DEUS É ETERNO POR NATUREZA
- Como Deus é eterno por natureza, Deus não é restrito nem está contido no tempo.
- Como Deus criou o universo, e como Deus não é sujeito ao tempo, e como o universo opera dentro do tempo, Deus também criou o tempo quando criou o universo.
- Como Deus criou o tempo, ele existe fora do tempo e não está sujeito às suas propriedades e limitações.
PREMISSA: DEUS É ONIPRESENTE
- A onipresença de Deus não é restrita pelo tempo porque Deus, por natureza, não é restrito pelo tempo.
- Como Deus não é restrito pelo tempo, e como ele é onipresente, o futuro é uma realidade presente para Deus.
- Como está em todos os lugares e em todos os instantes do tempo, Deus conhece todas as coisas, até mesmo as futuras escolhas de suas criaturas.
Porém o que alguém está realmente dizendo quando recorre a abstrações como “Deus é eterno por natureza”? O que é ser eterno por natureza? O raciocínio pode ser considerado um guia claro para a natureza da eternidade? O que é ser onipresente? Pode Deus estar presente em lugares que não existem? O futuro é um lugar? O futuro existe? Faz sentido falar do futuro como algo além de possibilidade? Faz sentido esperar que a perspectiva do tempo seja capaz de produzir vislumbres acurados sobre a natureza da eternidade? Faz sentido esperar que Deus faça sentido racional? Podemos tirar conclusões seguras a respeito de Deus a partir do raciocínio dedutivo?
A verdade cristã pode ser inquestionavelmente abraçada, jamais explicada ou entendida.
Muda às exigências das teologias, a Bíblia não se rende em momento algum às pretensões da lógica formal, fornecendo testemunho distinto tanto em favor da inquestionável autonomia de Deus quanto da liberdade e da responsabilidade do homem. Do ponto de vista dos autores bíblicos uma coisa não nega necessariamente nem impõe limites à outra; ninguém precisa sair em defesa da bondade ou da soberania de Deus apenas para passar a ferro contradições aparentes, resultado da limitação do nosso ponto de vista. O mesmo Jesus que sugere que o Pai pode ser persuadido pela insistência pura e simples garante que Deus mantém o inventário até mesmo dos cabelos que nos caem da cabeça. Jesus, que sustentava que o domínio de Deus só pode ser vislumbrado a partir de comparações – “a que compararei o reino de Deus?” – cria que não é preciso escolher entre um Deus que muda de idéia e um Deus que está no controle de tudo; entre um Deus que resgata soberanamente e sem motivo e um Deus que concede autonomia e exige responsabilidade. Esses, provoca Jesus, são o mesmo Deus, e só permanecem incompatíveis enquanto nos dobramos ao apelo, sempre enganador em questões espirituais, da razão.
Certo é que o Deus da Bíblia, que recusa-se à rebaixar-se à lógica, não hesita em definir-se consistentemente por uma história de relacionamento com a sua criação. O homem teomórfico de Gênesis prefigura o Deus antropomórfico dos evangelhos. Entre uma capa e outra da Bíblia repousa o abraço terno desses dois. A mensagem consistente da voz ou das vozes bíblicas parece ser que a verdade de Deus só pode ser experimentada adequadamente pelo relacionamento – jamais pela razão, pela doutrina ou pela lei, que são símbolos ou intermediários.
A verdade cristã (“eu sou o caminho, a verdade e a vida”) é, desconcertantemente, uma pessoa com a qual podemos nos relacionar, não uma série de enunciados lógicos que possamos apreender através da razão. Como qualquer pessoa em qualquer relacionamento, a verdade cristã pode ser inquestionavelmente abraçada, jamais explicada ou entendida.
É nisso que reside a falha fundamental de sistemas estanques como o calvinismo e o teísmo aberto: não em alguma lógica interna deficiente, como quer tentar nos convencer o debate entre ambas as partes, mas na deficiência inerente da própria lógica para explicar as bases e o mecanismo de qualquer relacionamento, quanto mais a mais atordoante das paixões.
O efeito dessa nossa obsessão em precisar o conteúdo intelectual da verdadeira fé está em que enquanto fazemos isso conseguimos manter Jesus irrelevante para o restante e vasta maioria do mundo. A impressão que passamos é que a coisa mais útil e importante que o cristão pode fazer é definir intelectualmente e sem arestas a forma como Deus funciona e em seguida defender a todo custo o seu ponto de vista. O conteúdo revolucionário da mensagem de Jesus não chega a ser sequer levado em consideração, já que usamos a teologia como cortina de fumaça para não termos que encará-lo de frente. Enquanto tentamos determinar quem Deus vai endossar no final, não somos obrigados a enfrentar o impensável desafio que seria endossarmos os desafios dele.

Leia também:
A sedução da ortodoxia
Morte aos comentaristas
Pós-modernidade e proclamação

Pacificador
Muito obrigado por sua lucidez. Valeu!
hernan
Eu sabia que você não se calaria simplesmente.
hernan
Lá vem você com essa história de “encarar Jesus de frente”. Para com isso! Deixa a gente discutir teologia. Por acaso alguém já contemplou a face dEle e viveu?
rubens osorio
Meu mano… será que os caras vão ler este texto? Se lerem, será que vão entender? Se entenderem, será que vão apreender a mensagem? Se compreenderem, será que terão coragem de abraçá-la?
Caso aconteça (o que duvido), o mundo se tornará um pouquinho melhor.
Obrigado!!!
Luiz H. Mello (ex Lou)
Lucidez, considerações e argumentações em nível elevado e conteúdo irretocável somados a sensibilidade e compromisso permitem esclarecer, educar e contribuem para o crescimento dos que tem o privilégio de ler seu texto.
A mera agressividade de pessoas recalcadas cujo verdadeiro motivo é o temor de descobrirem-se equivocadas ou camuflar seus complexos e opções secretas, ao contrário, desconstrói, fragiliza, machuca e divide.
A questão (o livre-arbítio) é centenária ou milenar e não será resolvida nessa geração, tão pouco. Mas, a necessidade do enfrentamento à intolerância é presente e deve ser realizada, sem perder a ternura, jamais.
Elienai Cabral Junior
Paulo, aprendi a apreciar seus textos a pouco tempo. Ricardo Gondim foi quem insinuou o valor do que você tem escrito. Descobri beleza e acidez, ternura e ironia, gravidade e leveza. Sua escrita é agridoce. O Ortodoxolatria é agudíssimo. Valeu.
Gostei de novo do que escreveu. Mas me atrevo a dizer que a pulsão por trás da briga calvinista é por poder. Há muito o que defender, abandonar, perder. Uma kenosis imitada e renovada é desgaste demais. O conforto, a preguiça existencial, a covardia moral ficam melhor assentadas ante o espetáculo tragi-pirotécnico de novos hereges ardendo na fogueira do poder.
Compartilho com você um texto que escrevi recentemente.
Um abração,
Elienai
* * *
BABELISMO: AS PERVERSAS CONSTRUÇÕES HUMANAS E A GRACIOSA DECONSTRUÇÃO DIVINA
Elienai Cabral Junior
Não demora muito para que qualquer um descubra a pior das angústias humanas: nossa vida também é morte. Tudo o que amamos, planejamos e construímos é insustentável. Nossas melhores idéias duram tão pouco que a frustração é inevitável. Sonhamos com mundos novos, adrenalizamos a vida idealizando o futuro. Mas conhecemos com desencanto a fatídica fragilização de nossos ideais no desenrolar dos dias, na inclusão de outras pessoas, nas descobertas de novas necessidades e problemas, no adiamento de algumas soluções, nos empenhos inócuos, na convivência com muitas carências e tantos deslizes indesejados. Pouco a pouco, um projeto que nasce vigoroso e carregado de uma sensação de eternidade, por mais belo e consistente, enfraquece e perde gravidade.
Sei que a nostalgia é um sentimento também de auto-engano, pois tudo o que está longe, como o passado, parece melhor do que realmente é ou foi. Mas a nostalgia também é um índice dessa angústia pela insustentável finitude que nos constitui. Sentir nostalgia pelo ponto de partida de qualquer empreendimento é evidência de enfraquecimento, de que não tem mais o mesmo poder de persuasão e encanto. Nostalgia é vertigem pela impotência ante o efêmero. Nossos mecanismos de renovação nada mais são que o sintoma de anemia da idéia inicial. No ambiente da igreja, nossos anseios por avivamento confirmam nossa fraqueza. Adélia Prado trata o assunto em sua poesia Chorinho Doce :
Eu já tive e perdi
Uma casa,
Um jardim, uma soleira,
O portal,
O jardim mais a casa,
O caixão de janela e aquele rosto de banda.
Tudo impossível,
Tudo de outro dono,
Tudo de tempo e vento.
Então me dá choro, horas e horas.
O coração amolecido como um figo na calda.
Mas uma outra palavra também descreve o modo como nos debatemos existencialmente com a insustentabilidade de nossas construções: instituição. Institucionalização é o processo humano de perpetuação de valores tendo em vista a irresistível contigencialidade da vida. As pessoas mudam. Tudo o que nos cerca muda. O futuro é futuro porque somos temporais, mas também porque somos imprevisíveis. Se fôssemos imutáveis, seres de estabilidade absoluta, além de não sermos humanos nem livres, seríamos seres sem futuro, arremessados a um eterno agora entediante. Descortinando com coragem e angústia, o Pregador (Eclesiastes) admite:
Considere o que Deus fez: Quem pode endireitar o que ele fez torto? Quando os dias forem bons, aproveite-os bem; mas, quando forem ruins, considere: Deus fez tanto um quanto o outro, para evitar que o homem descubra alguma coisa sobre o seu futuro. (Ec 7.13-14)
Porquanto há uma hora certa e também uma maneira certa de agir para cada situação. O sofrimento de um homem, no entanto, pesa muito sobre ele, visto que ninguém conhece o futuro. Quem lhe poderá dizer o que vai acontecer? Ninguém tem o poder de dominar o próprio espírito; tampouco tem poder sobre o dia da sua morte e de escapar dos efeitos da guerra; nem mesmo a maldade livra aqueles que a praticam. (Ec 8.6-8)
Instituir é estabelecer valores acima de nossa inconstância. Instituir é programar o futuro antes que o que aprendemos a amar transforme-se em passado. A forma pactual de se prevenir da nossa instabilidade é normatizar o comportamento de todos. Na institucionalização, diminuímos e enfraquecemos a importância da subjetividade de pessoas livres e a influência das circunstâncias para solidificarmos organismos, materiais ou imateriais, representativos de nossos valores. Aprendemos a amar o Reino de Deus, mas inventamos igrejas para perpetuar nosso amor. Ficamos apaixonados pelo que podemos fazer em defesa de crianças pobres, mas criamos institutos para preservar nossa paixão. Amamos uma pessoa, sonhamos em formar uma família, mas instituímos um casamento para fazer durar nosso amor.
A imprevisibilidade do comportamento humano é característica de sua finitude. Nós, as coisas que amamos, os eventos que promovemos, todas as nossas construções são finitas. Nós e tudo o que parte de nós morrem. A partir deste fato, convivemos com a vertigem da irresistível contingência de viver. A instituição é um pacto entre mortais em busca de ultrapassar sepulturas. A instituição é a nossa impotente luta contra a morte.
Precisamos falar de morte. Ela é a presença dura de nossa finitude: Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado; porque você é pó, e ao pó voltará. (Gn 3.19) Há um pouco de morte em cada experiência de término ou de limite, em cada derrota, frustração, fadiga, desânimo, doença. No envelhecimento descobrimos um pouco da morte, em cada ruga, em cada nova impossibilidade, em cada memória empalidecida. Mas há as experiências-limite com a morte, aquelas que dela nos avisam com mais força. E aqui há um indicativo precioso, a experiência de rejuvenescimento que se segue a essas experiências-limite. Um acidente automobilístico, uma enfermidade avassaladora, a morte de alguém muito próximo, curiosamente, nos faz melhores. Quem experimenta um pouco da morte melhora, seus valores esquecidos são rememorados, seus afetos embrutecidos são ressensibilizados. Olha com mais cuidado para a vida. Enxerga com mais ternura a outra pessoa. Tolera mais. Apressa-se em superar mesquinharias. A vida é catalisada pela morte. A morte nos aflige, mas nos redime.
A morte carrega um princípio de redenção, portanto. No texto de Gênesis, Deus instaura o fim, estabelece o encerramento da existência humana, com o objetivo, imagino, de impedir que escolhas e ações humanas, se infinitas, tornassem-se prisões, destinos irrevogáveis. Então disse o SENHOR Deus: Agora o homem se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Não se deve, pois, permitir que ele tome também do fruto da árvore da vida e o coma, e viva para sempre. (Gn 3.22) Permitam-me os irmãos fundamentalistas, fazer uma leitura literal de Gênesis, mormente os seus primeiros 11 capítulos, é empobrecer a revelação de Deus, além de ingenuidade tola. O Deus da palavra criativa nunca abriu mão da poesia e do simbólico, talvez a única expressão que o revele com graciosidade. Estamos lendo um mito. Deus usou os mitos de uma civilização para impregnar-nos de valores e princípios sublimes. Dentro desse mito revelador, ou insinuante, da criação, arrisco-me a dizer que Deus introduziu a morte na existência humana para impedir-nos de perpetuar o mal. Somos finitos pela misericórdia de Deus. Morremos por socorro divino.
A instituição carrega uma contradição em seu interior. Através dela olhamos com realismo para nossos limites e instabilidades, protegemo-nos de nossa própria maldade. Cuidamos de nossos ideais com responsabilidade. Ampliamos o alcance de nossas conquistas. Isto, a princípio, é belo e bom. Mas, em oposição a este movimento, a instituição também incorpora uma dinâmica maligna. Na instituição somos tentados a substituir a presença pessoal e afetiva por ritos burocráticos. Ao invés de abraços celebrativos, estatutos. Ao invés de ouvidos, o cumprimento cabal de regras. Ao invés da leveza dos sonhos, o peso das obrigações que se multiplicam sem fim. Ao invés de amarmos o ideal, amamos as posições de poder. Ao invés de lutarmos com paixão por um sonho, lutamos com maquiavelismo pelo reconhecimento da razão. Por medo da morte, substituímos a vida pela instituição. Vinicius de Morais percebeu o nossa (não) relação com a morte na poesia A Morte:
A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.
Toda institucionalização é também uma mistificação idolátrica. Damos tamanha importância às nossas instituições que elas terminam divinizadas. Substituímos, assim, os sonhos e anseios que nos moveram a criá-las por elas mesmas. Jesus faz esta denúncia quando responde às críticas dos religiosos por movimentar-se no sábado, curando ou permitindo que seus discípulos comessem: E então lhes disse: O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. Assim, pois, o Filho do homem é Senhor até mesmo do sábado. (Mc 2.27-28)
Se a instituição é o invento organizacional da pessoa humana que, ao reagir à sua finitude, acaba por desumanizar-se, institucionalizando a si mesma e às outras pessoas, a confusão, o desencontro, o desgaste, a crise e conseqüente deconstrução de nossas instituições não poderiam ser o invento redentivo de Deus? O Deus que criou a morte para livrar-nos da perpetuação do mal, também não teria garantido a repercussão da morte, gerando confusão e crise em nossas construções para livrar-nos da institucionalização da vida? Creio que sim.
É aqui que o capítulo 11 de Gênesis colabora com nossa reflexão. Acredito que a narrativa da Construção da Torre de Babel, em sua linguagem mítica, descreve a dinâmica da institucionalização e a reação divina a ela. A unidade fictícia descrita inicialmente é a ocasião para a orquestração de um plano: construir algo tão elevado que garantiria que seus nomes não seriam dispersos sobre a terra. Deus discerne o movimento maligno por trás da construção e promove confusão. Na confusão o projeto é esvaziado, a ficção é descoberta. No desencontro entre subjetividades, intensificado pela ampliação da liberdade e individualidade das pessoas, Deus livrou-os de perpetuarem o mal em sua instituição-construção. A pessoa humana instituiu, Deus babelizou. A pessoa humana organizou para perpetuar-se cruelmente, Deus confundiu para pulverizar graciosamente a perversidade.
Gianni Vattimo propõe a secularização como uma nova kenosis de Deus. A secularização que fez desmoronar a pretensão da religião de ser porta-voz da verdade última realizou no cristianismo o que Deus fez consigo mesmo. O cristianismo sem a secularização e sua marginalização da vida religiosa barbarizou em nome de Deus. A igreja secularizada precisou reaprender o caminho da humildade e da conversa. A igreja pós-secularização foi devolvida inadvertidamente ao caminho do amor.
Deus se esvaziou (kenosis) e se humanizou, serviu-nos como um de nós (Fl 2.5-8). E como um de nós, ensinou-nos também a morrer. Quem se esvaziou para se tornar gente e se humanizou ao limite da morte, concluiu sua trajetória gloriosamente, com um nome que é sobre todo nome: Jesus. A secularização, fenômeno social decorrente do iluminismo, racionalismo, industrialização e cientificismo, que destituiu a igreja-instituição do horizonte último de legitimidade da vida, tornou-se graciosamente a oportunidade de, esvaziada, a igreja reaprender o caminho do amor e da morte redentora.
Assistimos, hoje, a bagatelização de um movimento que já foi caro: o evangelicalismo. Ser evangélico, hoje, é ser confundido com o fundamentalismo religioso que legitimou a barbárie norte-americana no Iraque. Ser evangélico, hoje, é ser associado ao enriquecimento com o uso da religião. Ser evangélico, hoje, é participar do que há de mais sofisticado no mercadejamento da fé. O evangelicalismo brasileiro tem mais a marca de politiqueiros inescrupulosos que de santos e devotos. A cor e o som do movimento evangélico são tão artificiais quanto o que transmitem os comunicadores da televisão, cheios de cacoetes ensaiados e jargões vazios. No meio de tudo isso há um remanescente. Há sete mil que não dobraram os joelhos. Mas nem estes nem o passado heróico do evangelicalismo justificam qualquer insistência com um movimento que precisa morrer.
A pulverização dos ideais cristãos no movimento evangélico pode ser uma nova kenosis de Deus. Quem sabe Deus não está babelizando nossa construção evangélica para nos livrar da perpetuação do mal. Quem sabe esta confusão evangélica, em que não mais conseguimos nos identificar, não seja o esvaziamento que nos devolverá ao caminho do amor? Precisamos renovar nosso olhar para o Cristo de Deus, prestar atenção no despojamento divino em fazer-se gente e acolher a morte redentora. Se Deus se esvaziou sendo Deus, como recusar o esvaziamento de nossas instituições, pretensas divindades? Se quem era escolheu deixar de ser, nós que não somos que outra opção mais legítima podemos ter? Adélia Prado conclui com poesia o que eu não consegui com dissertação, Fé:
Uma vez, da janela,
vi um homem que estava prestes a morrer,
comendo banana amassada.
A linha do seu queixo era já de fronteiras,
mas ele não sabia, ou sabia?
Como posso saber?
Comia, achando gostoso,
me oferecendo corriqueiro, todavia
inopinado perguntou – ou perguntou comum como das outras vezes?
Como será a ressurreição da carne?
É como nós já sabemos, eu lhe disse,
tudo como é aqui, mas sem as ruindades.
Que mistério profundo!, ele falou
e falou mais, graças a Deus,
pousando o prato.
Norma
Olá!
Venho aqui como amiga, não como inimiga :-), para dizer que gostei do texto do Elienai – não sei se ele se lembra de mim, conversamos longamente em uma Congresso da Sepal com James Houston – e que gostaria de entrar em contato com ele. Também gosto muito de Adélia Prado.
Venho para dizer também que não tenho nada com essa “briga de poder” denunciada pelo Brabo: como ele mesmo escreveu, sou uma simples tradutora, professora de francês, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e sem maiores ambições a não ser escrever e estar o mais perto possível da verdade, plenamente consciente de que não posso tê-la por completo.
Gostaria que o tom das discórdias se amenizasse e pudéssemos conversar numa boa, sem tantos ressentimentos.
Abraços,
Norma
Lucio
Se Deus fez o tempo como não admitir que ele não conhece o que ele mesmo estabeleceu como passado, presente ou futuro?
O futuro só existe dentro do tempo, ou seja, para quem está fora do tempo e ainda por cima, é o próprio criador da temporalidade, é meio arriscado afirmar que ele não conhece o futuro.
Não é correto afirmar que o futuro é algo conhecido por quem está fora do tempo?
Será que a admissão de que Deus conhece o futuro implica em alguma catástrofe?
bete
Norma, foi você que fez trocadilho com o nome do Lou? Olha, quero dizer que, se foi você, foi um trocadilho infeliz. Quanto ao tom das discórdias e ressentimentos, eu navego por aqui há uns meses, e até agora não senti nada desse tipo nos escritos do Paulo, antes sim, posicionamentos corajosos e desabafos, muitos até emocionados. Também quase não conheço o Lou, mas fiquei triste por ele. É com muito carinho que uma pessoa escolhe um apelido… achei mal mesmo (se porém não foi você, me desculpe). Quanto ao mais, eu não respondo pelo blog, claro, isso compete ao Paulo. Mas quanto à mim, você é benvinda. E já conhecendo um pouco o Paulo, tenho certeza de que pra ele também.
bete
…e o texto de Elienai juntamente com o texto do Paulo é uma Ave-Maria de Bach-Gounoud.
Júlia
Os nossos conteúdos determinam como respondemos à vida. Entendo que Jesus não pensava como pensam os ocidentais, filhos da modernidade. Ele contava parábolas, falava de um Deus parecido com um pai que tinha dois filhos. Um dia ele chorou porque sua querida Jerusalém o tinha rejeitado.
Jesus foi atrevidíssimo quando afirmou que Deus tinha a cara dele.
Não sei muito, mas quero conhecer esse Deus.
André Antonio
Na briga dos bebês grandes, que extamente por brigarem esquecem de comer a papinha que vem do Pai, quem se sacia são os cachorrinhos ignorados ao pé da mesa!
Oh, Graça!
Heber
Paulo, lindo seu espaço!
Como gostaria de ter o poder para que todas as pessoas tivessem esse entendimento… ué! Deus tem esse poder?! porque não usa?
Amo esse Deus e sua ininteligível graça.
Elienai Cabral Junior
Lúcio, você fala do tempo como um pacotão pronto, o que denuncia uma visão determinista. Determinismo não é uma teoria, mas lentes que condicionam nossa visão. Tenho tentado me livrar de restos do determinismo, mas me flagro escondendo-me da vida por trás de práticas do gênero.
Veja, o tempo é uma categoria existencial. Ela indica que existir é acumular experiência, ou vivência. Para os seres de inteligência também é esperar pelas próximas. O futuro não é uma entidade, muito menos um componente pronto, é o que ainda podemos vivenciar. Deus não conhecer o futuro não significa absolutamente nada para o seu ato criativo, a premissa foi apressada. O futuro não existe. O que Deus saberia dele é o que sua inteligência perfeita dele poderia especular. (Tem a história das variáveis, mas seria um outro papo).
O que Deus afirmaria do futuro é o que estaria disposto a fazer. Sua soberania afirmaria-se aqui, como bem colocou o Brabo, não precisaria policiar as minúcias da história para garantir sua razão, é Deus o suficiente para conclui-la na direção que tomar.
Valeu,
Lucio
Caro Elienai,
Fiquei com algumas dúvidas…
O que é tempo, senão “duração limitada?
Para o ser temporal, não é concebida a idéia de colocar a “carroça na frente dos bois”…
Mas quem é atemporal… quem está fora do tempo, não seria concebida a capacidade de enxergar a nossa dimensão temporal (duração limitada), a saber: o NOSSO passado, presente e futuro?
Elienai, essa idéia seria suficiente para enclausurar Deus ao determinismo, só pelo fato de Ele ter “acesso a tudo?
Ter acesso a um “Pacotão pronto”, (passado, presente e futuro) para um criador temporal, é um erro.
Ter acesso a um “Pacotão pronto”, (passado, presente e futuro) para um criador atemporal, é ciência paralela. Algo incognoscível.
Você acha que a Eternidade é simplesmente uma duração ilimitada? Há um passado, presente e futuro-infinito pra Deus?
Acho que não…
Até mais!
Norma
Oi, Bete,
Não, mas a coisa toda foi no meu blog, infelizmente, e por destemperança acabei adotando naquele momento. De todo modo, foi uma rusga entre mim e Lou que já está definitivamente esquecida, pelo menos por mim.
Lou, você não deveria deixar de lado seu apelido por causa disso. É um apelido legal. Eu também poderia ter ficado muito mais magoada com o negócio do casamento do que fiquei – Deus sabe que estar solteira aos 35 anos não foi algo que escolhi – , mas deixei mesmo para lá, senão não teria vindo aqui.
Vamos esquecer as ofensas e praticar o perdão de Jesus, por maiores que elas nos pareçam.
Abraços!
Norma
Volney
Brabo
Bravo!
Luiz H. Mello (sempre Lou)
Norma,
Imagine deixar de ser Lou. Impossível. Também, não conseguirei levar nada muito a sério. Eu não sou sério e você (aliás ninguém) deve me levar a sério. Além disso, não sou confiável, como diria uma amigo meu (Homer). De certa forma, havia um lado engraçado em tudo, talvez, o fato de eu ser um miserável incorrigível. Quanto a esquecer, geralmente não faço força para tanto. Do que estava falando, mesmo?
hernan
Que bom! Estou feliz. Encaramos Jesus. Obedecemos seu imperativo da reconciliação. Agora voltemos a nos degladiar com as discussões teológicas.
rubens osorio
Gente, esse papo do Lucio e do Elienai tá me dando tonturas… Não estou acostumado a diálogos tão profundos. Vou precisar de um tempo pra fazer algum comentário pertinente. Por enquanto, pergunto: podemos ficar com as duas posições? Ontem, re-assistindo Forrest Gump, ele fez, no finzinho, pergunta semelhante…
Lucio
Osório, seja feita a tua vontade, fique com as duas, ingira, depois você irá vomitar uma das duas mesmo… Talvez você vomite as duas quando surgir a terceira… rsrs
O melhor não é ingerir nada… Se você der uma olhada em meus comentários vai encontrar mais perguntas do que afirmações, mais dúvidas do que apologias…
Não sou…
nem direita nem esquerda;
nem democrata nem republicano;
nem capitalista nem socialista;
nem calvinista nem arminiano;
É mera coincidência qualquer harmonização, da minha parte, com um desses grupos que citei… rs
só vista a camisa do SPFC!
rubens osorio
Lúcio,
Só discordo de vc na sigla SPFC, sou santista de nascimento, curti Coutinho, Pelé e Pepe, um privilégio.
Teu poema “Não sou” lembrou-me de Arnaldo Antunes:
“Não sou brasileiro,
Não sou estrangeiro.
Não sou de nenhum lugar,
Sou de lugar nenhum.
Não sou de São Paulo, não sou japonês.
Não sou carioca, não sou português.
Não sou de Brasília, não sou do Brasil.
Nenhuma pátria me pariu.
Eu não tô nem aí.
Eu não tô nem aqui.
Ao contrário, eu tô aqui (na Terra, no Brasil) e tô tb aí (no Céu, no Reino).
1 abraço,
Júlia
Nossos pressupostos determinam como encaramos nossa existência. Como reagimos aos horrores de uma guerra, aos acidentes e incidentes, prazeres e alegrias?
Somos dentes de uma mega engrenagem e tudo o que nos sucede cumpre um propósito pré-determinado?
Existem contingências? Acidentes acontecem?
Acredito que se Deus vê meu futuro como algo já “acontecido”, não existe a menor possibilidade de mudá-lo.
Portanto, incidentes não me aconteceriam, e nenhuma escolha – humana ou divina – mudaria o que já é.
Portanto, não acho que o debate sobre esse assunto deva ser diminuido como uma perda de tempo de teológos com mentalidade medieval.
Ele tem tudo a ver com nosso jeito de reagir aos percalços e alegrias que acontecem com todos os viventes.
Preciso de mais luz. Insisto, esse debate não me parece irrelevante.
Paulo Brabo, você podia escrever mais sobre essas coisas? Achei suas considerações ponderadas.
Juan Pablo
Sou calvinista convicto e gostei muito do texto. Finalmente alguém admitiu que o teísmo aberto já estava pressuposto no arminianismo. Também gostei da conclusão.
Toda luta ideológica ou religiosa esconde mesmo uma luta pelo poder, e acaba nos desvinado da nossa missão como cristãos perante o mundo. Mas continuo acreditando que exista um mínimo de ortodoxia que deva ser defendida, sob pena do cristianismo se tornar tudo e nada ao mesmo tempo.
Parabéns.
Lucio (TEISMO ABERTO)
TEISMO ABERTO por Caio Fabio!
Que saudade deste rico site!
Passei por aqui para deixar um link de um artigo onde o Caio expressa o que pensa a respeito do O.T.
beijos!!
Editado por Paulo Brabo às 22h53 Lúcio, os links para as páginas do Caio Fábio são conhecidos por não funcionarem pelo método tradicional recortar e colar, por isso eliminei o link (403 Forbidden) que você deixou. O jeito de encontrar o texto que você menciona é procurar por Teísmo Aberto no formulário de busca da página principal do sáite dele.
hernan
Pois é. Os links de lá não funcionam. Estão trabalhando num novo site, mas não sei quando sairá.
Letícia
Fui lá no site do Caio Fábio; continuo perplexa pela capacidade dele de conviver com azedumes, com sua soberba de se achar doutor sabichão e pela sua habilidade de escrever e não dizer nada.
Prefiro o texto do Paulo Brabo sobre Teismo Aberto e Calvinismo.
Como é o título mesmo?
hernan
Letícia, discordo do que você disse sobre o Caio Fábio. Ele pode ser tudo, menos soberbo e acho que ele diz muita coisa em seus textos. Sei que ele não é original na maioria das vezes e também não costuma citar suas fontes, além de ser um tanto prolixo, mas tem uma visão acurada e um entendimento não raso a respeito do Evangelho, que é o que lhe diz respeito. Além disse, o Caio tem uma alma transparente. Considero-o um profeta comtemporâneo e sua vida uma profecia, como convém a todo profeta genuíno.
No mais concordo que a letra do Brabo é coisa incomum.
rubens osorio
Fiz com a Letícia e visitei o saite do Caio. Parei na “home”, perplexo. Parecia um magazine… Devo estar equivocado, as primeiras impressões são sempre equivocadas… mas que foi ruim, foi!!!
Desculpa, Paulo, postar algo totalmente fora do contexto, mas não me contive.
Lucio
Caio Fabio… sempre causando…
Como discordar disto?
“Ora, tais ou tal conflito são o fruto da visão do século passado acerca do que a Psicologia (especialmente ela entre todas as ciências) demonstrou ao abrir muitos dos processos decisórios humanos, incluindo traumas, comportamentos à revelia; e os aspectos de natureza conjuntural, mas que afetam o psiquismo das pessoas, gerando comportamentos que não são nada mais que fenômenos da alma.”
“Sim! Porque Deus não é um Monarca, nem um super-rei, nem um soberano. Além disso, o homem não é livre, e a liberdade não é conhecida pelos humanos não por causa de Deus; pois, a prisão do homem é ele próprio.”
“Dizer Teísmo Aberto pressupõe o Teísmo Fechado, e que seria o Calvinista.
O que existe de fato não é nem uma coisa nem outra. Há Deus. Existe o homem. Deus não é ismo. E nenhum ismo tem a ver com Deus, mas apenas com o homem.”
Lucio
Somos “livres” entre aspas. Temos a liberdade q Deus deu “abertura” para q tivéssemos, pois, no final, tudo é Dele, por Ele e para Ele.
Ninguém é fantoche. Todos participam de suas próprias vidas. E somos co-participantes da Obra de Deus tb como testemunhas… Mas somente naquilo q Ele nos deu a participar… O resto, que é quase tudo, eu não sei… rs
O problema do Calvinismo não foi a ênfase na Soberania Divina, mas sua sistematização. Uma coisa é crer na soberania, outra é pensar q pode explica-la, digeri-la, e torná-la, como o Caio diz, palatável.
Deus não existe para nossos estômagos teológicos digerirem sua forma de ser. Não. Deus existe. E nós existimos a partir Dele, o q faz da nossa liberdade uma liberdade “de fachada”, pois pra piorar não conhecemos nem a Ele e nem a nós mesmos, q somos conduzidos por complexos engrenamentos existenciais que, atuando em nós, neuro, psiquica ou espiritualmente, só refletem em nossas ações a força de nossas próprias limitações.
A maioria de nossas decisões é fruto dos reflexos emocionais, enquanto pensamos q estamos sendo sempre racionais nas escolhas q fazemos.
Portanto, a liberdade comentada como “não-livre” tem dois pressupostos:
1. Ninguém é livre de Deus, fora de Deus e nem em direção a Deus (pois até essa “decisão” só se faz sob a intervenção de Deus)
2. Não somos livres nem naquilo q pensamos q somos: nas decisões da existência humana, pois ela mesma tem auto-limites para além do poder intelectual de decidir
E aí, precisando pacificar o entendimento, propõe-se teologias que lembram as escolhas “politicamente corretas”. Servem para acalmar o ser.
Mas veja, nunca foi essa a proposta do Evangelho: O fruto do Evangelho é Vida e Paz e o que Paulo chama de conhecimento (gnose) é “epignose”, o que, vc deve saber, é o conhecimento experimentado, denso, fruto de interações espirituais com a Pessoa revelada pelo Espirito, e não de aglutinações crescentes de estudos da Anatomia do Divino…
Quem crê, acalma o ser!
O melhor jeito de crer não seria aquele no qual Deus sempre sabe o q o homem vai fazer?
O problema é esse. Muitos ainda pensam na Soberania como um processo histórico, temporal, com antes e depois. Com questões do tipo: Se Deus sabe, por que deixou? Se deixou, não seria pq o homem é livre? Deus sempre sabe o q o homem vai fazer?
Pois eu digo: Deus não sabe o q o homem vai fazer!
Pois, para Deus, o homem não VAI (futuro) fazer nada! Deus sabe para além de qq coisa q se faça ou se tenha feito, pois sua dimensão é supra-temporal. Para Ele tudo é! Não tem antes, depois, nem ontem e hoje, amanhã…
O A e o Z para Ele, são a mesma coisa, sabe…
Ele não vê a história como nós a vemos.
Duro é querer entender isso…
Eu não quero.
Desculpe-me a ignorância, mas sou iletrado no conhecimento de Deus; ainda q O conheça em mim – e qdo isso acontece, o que acontece é q começo a me conhecer um pouco Nele. Conforme Paulo: “Desejo conhecê-lo, seu sofrimento e o poder de sua ressureição”.
Sugiro a vcs a leitura de um livro muito bacana. Digo “bacana” pq ele não se pretende outra coisa, mas é muito bom mesmo. META-HISTÓRIA, do Rubens Amorese
hernan
Rubens, irmão, acho que são apenas impressões superficiais. Procure ler o conteúdo do site, especialmente as reflexões.
André Antonio
Rubens, lê o site meu caro! Ouse passar da home, não tenha medo não. Lá ninguem morde!
Farah
Quando leio vcs falarem de religião em contextos abertos ou fechados, lamento muito que (salvo engano, e me corrijam se eu estiver errado) tenham conhecimento apenas superficial do Islamismo. O Paulo sabe da minha opinião e esta não é exclusividade minha, que o Islamismo veio como uma ultima mensagem, detalhada, e explicada (mais do que isso, eu diria até desenhada.) De como o ser humano deve se portar diante do Criador e de sua criação, deixando claro que como as dificuldades são imensas, existem até mesmo formas de compensações para corrigir desvios de rota, nada tão facil como o simples e eventualmente sincero arrependimento o qual muito provavelmente todos sentiremos, quando “Êle” franzir as sobrancelhas, e que nem está descartado como forma de compensação, nem tão dificil que não caiba no dia a dia das pessoas. Quero deixar claro que quando falo de Islamismo, falo da leitura do Alcorão e mais especificamente da leitura e da reflexão de cada um diante do Alcorão.
FChagas
Desculpem-me a ousadia do comentário. Contudo, penso na possibilidade de construir uma ponte de sentimentos.
Ouse elogiar o Inimigo!
Falta dignidade àquele que não ousa elogiar o inimigo” – John Drydin, poeta inglês
“Num embate de idéias vence quem convence”. Por que temos tanta dificuldade de ouvir quem pensa diferente? Ou melhor, aceitar opiniões contrárias a nossa. Sabemos que é muito importante, principalmente, quando usamos essas informações para análise de soluções. Às vezes, somos abordados sobre determindados assuntos, e nem sempre analisamos com cautela, com meditação, pensar um pouco, meditar. Meditar é fazer um exercício mental, isso engloba perguntas e respostas sobre o assunto em questão, é ir além da superficialidade, descobrir o que está por traz do óbvio, na verdade, fazemos uma observação rasa.
Ora meus caros leitores(a) isso não é prerrogativa de um sistema filosófico, é de todo ser humano que pensa. Mas quando esses assuntos tendem a teologia, quando se quebra paradigmas, conceitos pre-estabelecidos, essa é uma barreira que ainda está muito difícil de se transpor. E a razão primária, é reconhecer o erro. Se olharmos um pouco para traz, verificamos que muitas inquietações, pensamentos e questões; Foram inquietações, pensamentos e questões antigas. Pessoas na história que se posicionaram diante da vida, com seus conflitos e de prismas diferentes, ultrapassaram o óbvio, e geraram novos conflitos, muitos deles, desnecessários, outros, com excelentes cooperações a humanidade.
Ser ordeiro, pacífico, pode até ser bom para não gerar atritos com os outros, principalmente em grupos. Por outro lado, não devemos aceitar sermos persuadidos devido a inércia e atitude passiva, sem a defesa necessária para um bom debate de idéias. Admiro uma pessoa que defende suas idéias com afinco. Porém ataque e defenda suas idéias, mais apenas as idéias e conceitos, jamais ofenda seu “adversário”, seu caráter, sua formação. A maturidade flui, cresce, aperfeiçoa no bom e amistoso debate. As conclusões são e serão sempre próprias de acordo com o desenvolvimento, jamais serão absolutas em si. Ou seja, complexas em si mesmas. Será que estaremos abertos a sugestões e acréscimos? Eu me proponho a isso… Inclusive a elogiar o “inimigo” quando for preciso.
Lucio
O HOMEM NÃO É LIVRE, mas também não é manipulado por Deus.
Digo que não é livre, pois ele escolhe aquilo que lhe é tendencioso e psiquicamente, direcionado. O homem é preso em si e entre si.
Deus não age em relação ao homem tendo que antes esperar o que o homem escolherá. Deus não espera, pois Ele está acima da dimensão temporal. Esperar, implica em duração, passado, presente e futuro. Mas Deus está acima do tempo. Nós temos a sensação de que Deus está esperando, mas é porque estamos dentro do tempo e por isso as coisas de Deus acontecem gradativamente, mas isto é uma sensação humana. Ex: Deus mudando a minha realidade, Deus me livrando, Deus me ajudando, Deus intervindo, Deus me poupando segundo o meu arrependimento, Deus se alegrando comigo e Deus se entristecendo comigo. Tudo isto que acontece. Pra nós, é gradativo, pra Deus, é simultâneo Tudo acaba em harmonia!
Duas coisas que não acontecem:
– Deus esperar, literalmente, pra realizar;
– Deus não tem nada a esperar porque Ele determinou o que o homem há de escolher.
Esses dois pensamentos colocam Deus dentro do tempo com suas malas e cuias!
Nós escolhemos, então Deus entra em ação…
Só que na verdade, quem esperou foi o Homem e não Deus, pois Deus não está condicionado ao tempo. Ou seja, o que acontece é que enquanto estamos escolhendo, na verdade já está tudo realizado, não porque Deus determinou, mas é porque Ele está fora do tempo. É como se num estado presente, Deus esperasse o homem fazer sua escolha e com esta escolha, viesse a por exemplo, a reação divina ou humana, fazendo com que Deus se alegre ou se entristeça.
Só que tudo isto acontece num estado presente. Incogniscibilidade de Deus!
Deus é Eterno. Ele não teve origem. O tempo não passa pra Ele, pois Ele está fora do tempo. Ao mesmo tempo em que ele se relaciona com o homem, nada disso é passado ou futuro e sim um fato presente muito loko!
Pra Deus deixar de conhecer o futuro, Ele não seria o Deus que É, e sim o Deus sendo!
Deus não manipula ninguém; Deus não é pego de surpresa; O homem não é livre. Ele tem a liberdade de se inclinar às suas prováveis obviedades.
Abraços!
bete
…no tempo em que naveguei em águas esotéricas, li que os 24 anciãos que assistem diante do trono, no apocalipse, são uma representação do tempo, uma formatação do nosso tempo terreno perante a presença divina. Verdade ou bobagem, gostei da explicação, porque passei a sentir que havia uma adequação do tempo entre mim e Deus.
rubens osorio
Hernan, confesso: pequei por omissão. Preguiça, tempo escasso… sei lá. Não “entrei” no saite do Caio (ainda). O que postei foi apenas uma impressão. Por falar nela, inversa da que tive quando aqui cheguei (bendito dia!!!).
Prometo corrigir meu erro. Em tempo hábil.
Qnto ao assunto em pauta, não pretendo conhecer Deus, gostaria de conhecer o homem, amá-lo, cuidar dele e de seu mundo, e esperar em Deus.
Deus é a minha esperança…
Wander Morínigo Teixeira
Gostei mto deste txt, só estou chocado como idéias (que como vc diz serão condenadas a reformulação eterna) geram tanto atrito e desunião. Mais perplexo fiquei ao ver pessoas tratando seus contraditórios como “inimigos”… Glória a Deus pela diversidade, Mas somente seremos conhecidos pelo amor… Efatá
Maisa
Essa discussão toda é tão triste! Devemos (nós evangélicos) estar sendo espetáculo do mundo (no mau sentido). Convivo com pessoas simples que creem em Deus, no Senhor Jesus e que se escandalizariam com vocês, com as ofensas proferidas (em outros blogs). Quanta intolerância! Que “intectualidade evangélica” é essa? Somos luz do mundo e sal da terra? Que Deus tenha misericórdia de nós. Vamos pregar a Palavra, meus irmãos, praticar o IDE.
rubens osorio
Cara Maísa, realmente o tempo esquentou por aqui durante algum tempo, mas, creia-me, entre mortos e feridos, salvaram-se todos (!?!?). Isto é, ninguém se ofendeu porque apenas opiniões estavam em debate, nenhum juizo de valor sobre quem opinava. Tanto que estamos todos embevecidos com a história que Paulo nos conta sobre as desventuras de um cara entre o Céu e o Inferno. Sem mágoas, e gratos pela graça e misericórdia de Deus.
Salvo engano.
edson
Acho que devemos ter mais debates, discussões e, principalmente, diálogos. A indignação ética deve nos fazer falar e não calar, agir e não vociferar apenas!
Robson
Excelente texto!
Parabenizo o autor, assim como Francis Schaeffer citou John Wesley e Charles Finney como exemplos de vida cristã, mesmo tendo secundárias divergências teológicas, mas que tinham a primária e essencial concordância: Jesus Cristo. Gosto de pessoas que desafiam os dogmas extremistas. Viva aos iconoclastas!
Hoje me considero um “calvinista”. E acho engraçado as críticas que leio sobre o “determinismo calvinista” porque o que mais me fascinou nessa cosmovisão foi a declarada noção de que Deus é incompreensível. Diante dessa minha incapacidade de conhecê-lO plenamente, me basta saber que Ele é infinitamente justo e gracioso, mesmo que até a própria definição de graça e justiça quando aplicadas a Deus fuja ao meu limitado entendimento.
Apesar de gostar desses iconoclastas, tem uma coisa que me chama a atenção: o “mito da neutralidade”. Dizer muita coisa e não dizer nada, sem perceber que este muito e nada é alguma coisa tão fechada quanto o pouco que é dito querendo dizer muito. Eu me divirto com a atual chapa do diretório acadêmico do meu curso auto-intitulada “Sem Camisa” hehehe… Como são “superiores” com seu discurso de “inferioriade”! Eu sugeri que eles imitassem aqueles três macaquinhos, um que não vê, um que não escuta e outro que não fala, para se aproximarem mais de sua proposta de “neutralidade”. Mas a quem interessaria esse cego, mudo e surdo? Será que essa “neutralidade” seria realmente neutra?
Na comunhão,
Robson.
Wander Morínigo Teixeira
Pegaram seu texto pra Cristo . . .
http://gustavonagel.blogspot.com/2007/04/consideraes-sobre-o-calvinismo-de-paulo.html
Como nós cristãos pensamos tão diferente né, caramba.
Nós sentimos que devemos nos auto-afirmar e isso custe o que custar.
Deus tenha misericordia, como eu disse acima, só seremos conhecidos pelo amor.
Ben-Hur
Interessante é o comentário da Norma: “O Paulo Brabo é um cara legal (já troquei mails com ele), mas não entende nada de teologia!”
Paulo, será que você ainda não aprendeu que só os “teólogos” conhecem Deus? E que a gente, meros mortais ignorantes, estamos fadados a acreditar nesta “loucura” chamada livre-arbitrio? Será que você ainda não aprendeu que Jesus estava errado quando disse: “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos.” (Mt 11:25)?
Ora meta-se com os teólogos e será réu do fogo do inferno (ou será fogo da inquisição?)!
Norma
Não é isso, Ben Hur, que bobagem. Dizer “Fulano não entende nada de teologia” não é o mesmo que dizer “Só os teólogos entendem de teologia” ou, pior, “Só os teólogos entendem de Deus”. No dia em que eu disser qualquer uma dessas duas últimas frases, podem me internar.
Em termos bem práticos, deixem-me dizer o seguinte. Se eu fosse o tipo de calvinista representado caricaturalmente pelo Paulo Brabo, o que eu faria? Nada. Não zelaria pelo Espírito que está em mim, não trabalharia, não me esforçaria na vida, não oraria. E eu faço tudo isso.
Creio que essa caricatura do calvinismo poderia ser o equivalente oposto ao teísmo aberto; afinal, o homem não consegue imaginar Deus como soberano e sensível às ações humanas, indistintamente. O homem precisa ver Deus em uma das pontas somente. Ora, é só pensar o seguinte: Deus vive fora do tempo, para Ele tudo já É; mas nós, como criaturas do tempo, não temos como viver fora dele. Como isso se dá, não sei, mas para pensar assim é preciso uma boa dose de imaginação poética – algo que se considera inexistente entre os teólogos, por puro preconceito, creio eu.
Assim, as duas realidades coexistem: como existe tempo e eternidade, Deus é o único que abarca os dois lados, enquanto nós apenas tocamos no segundo, quando nos convertemos. É a maravilha do encontro que se deu entre tempo e eternidade na figura de Cristo. Ele é quem verdadeiramente une as duas pontas, não as teorias complicadas e esquisitas do teísmo aberto. Cristo é que nos aproxima do Pai, não um Deus desprovido de Sua soberania ou eternidade.
Isso dá um post.
Abraços!
Lou Mello
As várias seitas judaicas, no tempo de Jesus, manifestaram descontentamento com a teologia aberta do Mestre. Dada a insistência o crucificaram.
O Gondim acertou ao dizer que é melhor não alimentar polêmicas cujo finalidade única é melhorar a frequência de blogs esquecidos ou dar popularidade a quem precisa de leitores.
Norma
Teologia aberta do Mestre? Hum… Pergunto-me se o apóstolo Paulo concordaria com isto.
Sobre os blogs, não sei de quem Gondim estava falando, mas nem o meu nem o do Gustavo precisam de leitores.
Por coincidência, tanto eu como Gustavo criticamos interpretações enviesadas nos nossos últimos posts. A de Gondim foi sobre o artigo do Nicodemus, que tratou da teologia relacional. O erro apontado por mim ultrapassa as fronteiras da mera interpretação e chega quase à difamação pura e simples, de tão truncado. Se ninguém falar nada, o erro não é corrigido. Ora, está certo, Gondim é famoso. Por isso mesmo, querer que não digam nada quando ele fala besteira é, no mínimo, ingenuidade.
Nagel
Não há razão para respostas como as do Wander e do Ben-Hur. Não se trata de falta de amor, de inquisição etc. Se vocês leram, perceberam que eu defendi um argumento. O conveniente seria vocês me convencerem do contrário. É só isso. É assim que funciona.
Abraços.
Eduardo Mano
Olá a todos.
Gostaria de contribuir, mesmo que pouco, com a conversa.
Como a Norma, não concordo com o calvinismo descrito pelo Paulo. E assim como ela, creio que se meu calvinismo fosse restrito a elocubrações quanto ao ser ou não eleito, creio que estaria bem distante do Evangelho de Cristo.
Quanto ao Teísmo Aberto, creio que ele tem pouco (ou melhor, nada) a acrescentar à vida do Cristão. Na verdade, creio que ele até restrinja o cristão em seu relacionamento com Deus. Ao invés de liberdade, o que ele propõe é libertinagem. E isso, amigos, está fora de qualquer padrão bíblico.
Ainda sobre o TA, e sua manifestação comum, a Igreja Emergente, creio que a proposta de homens como Brian McLaren, Rob Bell e outros é um afastamento declarado das verdades bíblicas (principalmente quando nos lembramos dos “e se…” de McLaren). Nesse assunto, fico com Mark Driscoll, ex-emergente, missional, e calvinista.
Já quanto aos acessos aos blogs, não creio que Nagel e Norma (nem o Paulo e outros aqui) necessitem disso (já como o meu é um dos “blogs esquecidos” mencionados, nem coloco meu link, para que as visitas recebidas não sejam de oportunidade).
A conversa está boa, e como acabei de comentar com o Nagel, educada. Continuemos assim.
abraços!
Ben-Hur
Para cada argumentação Calvinista vem os Teistas e Arminianistas e refutam.
Para cada argumentação dos Teistas vem o Arminianistas e Calvinistas e refutam.
Para cada argumentação dos Arminianistas vem o Teistas e Calvinistas e refutam.
Eles não se cansam! Isso não para, nem vai parar.
Enquanto isto, devido ao discurso Calvinista, minha vizinha dando ouvidos a eles num momento de crise e batalha espiritual (não dessas batalhas que se vê na TV), acreditou que não foi pré-destinada ao céu e passou a viver afastada do reino com a alma angustiada de maneira que só Deus conhece. Ela acreditou que Deus a rejeitara mesmo quando na Bíblia Deus diz que meus braços não estão encolhidos para que não possa salvar, afinal, foi um Teóóóóóólogo que ensinou para ela que Deus destina uns para a fogueira e que encolheu os braços para os não pré-destinados. Ensinou o AMOR LTDA de Deus. Ela pensou: “afinal, se foi um teólogo ele deve saber o que está falando”.
E assim o calvinismo cumpriu o seu propósito na terra! Enquanto isso, um amigo meu gasta precioso tempo tentando me convencer do “AMOR LTDA” made in Calvino de Deus.
Pergunto eu: Para quê?????
Nenhuma teologia tem o poder de preencher a alma.
A de Calvino se explica e se complica.
A de Arminio se explica e se complica.
Agora vem esta nova se explica e se complica.
E guerra continua…
Explica,
Complica,
Complica,
Explica,
E assim vai, vai, vai…
Enquanto isso a alma está vazia.
Os homens se dividem…
Alguns enlouquecem,
Outros se morre (como diz um certo cearense),
E os teólogos vão mostrando seu conhecimento do divino que só satisfaz ao ego deles mesmos.
E a alma do homem continua vazia… (Diferente quando se prega o Amor de Deus. Este mistério que inunda a alma e adoça nossa vida)
Calvinismo para quê?
Para eu provar que Deus destinou uns pra fogueira?
Seria para eu me satisfazer e gozar dos infiéis destinados a “fogueira?” Como isso pode melhorar a vida de alguém?
E os que não conhecem a Cristo? Estariam eles interessado nisto?
Alguém uma vez disse: Teologia é um caminho que te leva para longe de Deus que é simples como Jesus é!
Norma
Ben Hur,
O negócio não é acabar com a teologia. Teologia é simplesmente a formalização racional daquilo que cremos, porque nenhuma crença pode ser firme no vazio. O apóstolo Paulo faz teologia na maioria de suas cartas às igrejas. Jesus faz teologia em vários momentos, mas em um em especial, quando, recém-ressurreto, explica aos discípulos as Escrituras. Creio que é preciso ter a sensibilidade de lidar com cada caso de acordo. A quem precisa de amparo, amparo; a quem precisa de argumentos para sustentar sua fé, argumentos. No caso, além de confortá-la e orar com ela, eu teria dito a essa moça que não se via como “eleita” o seguinte: “Além de si mesmo, ninguém sabe quem é eleito e quem não é, só o próprio Deus. Mas, se você está usando as categorias bíblicas para se condenar, é porque algo da Palavra já entrou em você, e é muito provável, portanto, que você já seja uma eleita. Fique em paz e busque a Deus, pois as respostas virão Dele.” Aliás, foi exatamente o que eu disse a uma amiga minha que me veio com esses pressupostos. Hoje ela está firme em Cristo.
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra; nem racionalismo, nem subjetivismo. O ideal é que sejamos mente e coração ao mesmo tempo. Nossa época tende mais ao subjetivismo, e não creio que a a “logicofobia” que decorre disso seja nem saudável, nem bíblica.
Ben-Hur
Um beijão para você Norma!
Paulo Brabo
Ah, certa estava a ateísta que denunciou que a estratégia de defesa mais comum entre os
fundamentalistascrentes que se sentem ameaçados é a falácia do representante ilegítimo. A defesa diz basicamente “este não é o verdadeiro cristianismo* que defendo, por isso não posso ser condenado por ele”.Tanto a Norma quanto o Nagel requerem argumentos que naturalmente não sou tolo de dar, porque seria negar a tese central do meu artigo O destino eterno de Deus (ora veja, o link traz de volta a esta mesma página!):
O efeito dessa nossa obsessão em precisar o conteúdo intelectual da verdadeira fé está em que enquanto fazemos isso conseguimos manter Jesus irrelevante para o restante e vasta maioria do mundo. A impressão que passamos é que a coisa mais útil e importante que o cristão pode fazer é definir intelectualmente e sem arestas a forma como Deus funciona e em seguida defender a todo custo o seu ponto de vista.
Para transmitir uma idéia ou uma teologia de forma irrefutável não bastam três parágrafos, não bastam três mil páginas. Os argumentos não convencem ninguém, e é por essa razão que as idéias, mesmo as mais notáveis, estão condenadas à reformulação eterna. Deixe que queimem.
Estou saindo em viagem daqui a pouco e quero acompanhar este circo de perto, por isso estou levando comigo a chave dos comentários. Por 4 dias este desenhista ficará quieto sobre o assunto. Ouçamos enquanto isto os engenheiros, açougueiros e carpinteiros cuja falta de profundidade teológica o Nagel condena.
—
*ou comunismo, calvinismo, seja o ismo que for.
Lúcio
CAIO FABIO: TEOLOGIA RELACIONAL – a inútil discussão acerca de Deus
Piedosas são sempre as tentativas humanas de pensar Deus sem vivê-Lo.
Sim! Quando a alma não quer a revelação e suas implicações de uma existência em fé e sem justiça-própria, entregando o ser sem para-queda a Deus, o que surge é uma teologia.
Cada vez mais me perguntam o que acho da Teologia Relacional ou do Processo, as quais só não são a mesma coisa por uma diferenciação escolástica.
Ora, sem mencionar tais nomes em muito do que escrevo, entretanto deixo claro o que penso em todos os conteúdos deste site, os quais (os conteúdos) batem de frente-frente contra tais especulações.
Mas para aqueles que só entendem as coisas se elas tiverem nome e endereço, digo aqui o seguinte:
1. Que é loucura humana buscar entender como Deus é para além da revelação que Jesus fez e faz do Pai. Deus é Deus. E cabe ao homem amá-Lo conforme o que Dele se pode conhecer ou nos é revelado.
2. Que a especulação sobre a relação de Deus com a História Humana que não se fundamente na revelação que Jesus trás de Deus é tola, infantil, presunçosa, e inútil.
3. Que tais especulações apenas desviam a atenção para algo que não se pode conhecer, em detrimento do que de Deus se pode conhecer.
4. Que Deus não é conhecido pelo intelecto, mas pela sensibilidade que tem no espírito humano seu chão e sua base. Assim, Deus se revela sem se explicar.
5. Que tanto o Calvinismo como também a Teologia Relacional são manifestações humanas equivocadas, ainda que sinceras, pois a Escritura é propositalmente contraditória e paradoxal aos sentidos humanos, posto que o que ela revela é divino, e não está ao alcance da especulação que busca sistematizar as coisas.
6. Que se tem que viver com a humildade de quem ama Aquele que não pode ser compreendido, ao mesmo tempo em que se ponha em pratica tudo o que se pode compreender; e que diz respeito ao homem e sua relação com Deus pela fé, e com a vida pelo amor.
7. Que a Teologia Relacional que as Escrituras ensinam nada tem a ver com o modo de Deus ser em relação ao homem para além do revelado, como quem busca entender os caminhos de Deus que são mais altos que os nossos caminhos. A Teologia Relacional que as Escrituras ensinam é justamente aquela que é evitada pelos teólogos na busca de se entender o que não nos é possível que é a relação do homem com Deus pela fé.
8. Que tal discussão não passa de sexo dos anjos, posto que evita o que é revelado; ou seja: que os homens se relacionem uns com os outros, com Deus, com a vida, pois estão supostamente muito ocupados pensando Deus.
9. Que Jesus acharia, pela manifestação que o Evangelho nos trás Dele, tudo isso uma grande tolice dos escribas dos saduceus que não criam na revelação em sua simplicidade, e, assim, criaram uma teologia na qual as ações dos homens e as de Deus se tornavam a mesma coisa.
10. Que a única Teologia Relacional que pode ser intelectualmente levada a sério é aquela que diz respeito ao homem com o homem; e ao homem com Deus, conforme João nos ensina em sua epístola tão clara e obviamente.
Assim, sem citar nomes, autores ou supostos pensadores, digo:
Não levo à sério que pensa assim, pois, quem pensa, assim não pensa, posto que pelo seu próprio pensar (se pensa de fato), vê que não é possível pensar Deus, pois Deus está acima do próprio pensamento.
Ora, se assim não fosse dir-se-ia que o homem, o justo, seria justificado pelo seu pensar!
O mundo está estrebuchando. Mas há pessoas dedicadas a fazer fimose de Deus, ao invés de simplesmente viver o Evangelho conforme a simplicidade de Jesus.
Toda tentativa de pensar Deus para entendê-Lo, não apenas é tola, mas, sobretudo, é diabólica, pois, tira a energia humana do foco simples do Evangelho, e leva a pessoa para um ambiente virtual de uma piedade de sarcófago, posto que nada mais faz do que a exumação do único Deus passível de ser objeto de tal coisa o Deus da teologia.
Digo isso não porque não pense. Sei que se começasse a especular sobre Deus eu seria muito bom nisto, pois, imaginação não me falta, muito menos capacidade de pensar com todas as implicações filosóficas de tal viagem.
Minha recusa quanto a tais coisas, portanto, não me acomete como sentimento de limitação no pensar até onde pensar seja possível, mas exclusivamente em razão de suas coisas: do temor de Deus conforme a consciência que tenho acerca Dele, assim como em razão da certeza total de que tais exercícios apenas exercitam a vaidade, mas não têm poder algum quanto a levar a vida à verdadeira experiência de Deus como conhecimento profundo e como piedade aplicável a esta existência.
O site, todavia, contém textos e textos que explicam em detalhe a vaidade de tais especulações!
Chega de Disneylândia teológica.
O buraco é infinitamente acima de nossas cabeças!
Assim, para os devotos da especulação que só interessa ao desinteresse pelo que de fato importa e interessa eis a Palavra do Evangelho:
Disse-lhe Filipe:
Senhor mostra-nos o Pai, isso nos basta.
Disse-lhe Jesus:
Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, faz as suas obras. Crede-me que estou no Pai, e que o Pai em mim; crede-me ao menos por causa das mesmas obras. Em verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai. E tudo quanto pedirdes em meu nome eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. Se me amais, guardai os meus mandamentos.
Assim, a Teologia Relacional de Jesus não diz como Deus é. Apenas diz para ver o Pai no Filho revelado e encarnado. Diz que tudo tem a ver com crer ou não crer. Diz que o que está disponível aos nossos sentidos são obras divinas a serem vistas e discernidas. Diz que tal relacionalidade é com Deus, e que ela se manifesta mediante a obediência e o amor. E conclui afirmando que a especulação sobre o Pai é tolice, pois o que do Pai se pode conhecer está revelado em Jesus.
Desse modo a questão de Jesus ecoa outra vez:
Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido?
Nele, que jamais se ocuparia com tais coisas, como de fato, tendo todas as chances, não o fez,
Caio
Ps: Se pelo menos os teólogos entendessem um pouquinho acerca de física quântica, saberiam quão tola tal discussão é em sua busca de discutir a atemporal soberania de Deus e a temporal e relativa liberdade humana. Sem um mínimo de consciência sobre o significado físico do tempo, não se tem nem como entender que não se pode entender a eternidade. Sim! Porque já que não crêem, poderiam pelo menos ir além das categorias medievais de nossas teologias a fim de pensarem de modo a fazer sentido com o que pensar significa.
02/05/07
Camboriú
Santa Catarina
Antonio Polo
Creio que o Paulo colocou os dois grupos emblematicamente representados e exacerbados até por questões de didática (o texto é uma aula), acredito que seja dificil encontrar um representante de cada lado tão “representativo” assim, se for encontrado com certeza é um ser robotizado. Por um outro lado o que ele diz de Jesus fazer comparações para explicar o Reino de Deus é a chave de compreensão de que o Reino de Deus não é palpável e definível, e não pode ser amassado nas fôrmas das teologias (Ele não esteria dentro de nós?). A aula valeu muito pro leigo aqui. tks.