11 de Abril de 2006

O décimo-terceiro signo

Submetido a voz de prisão por   Paulo Brabo

 

Estocado em Pense comigo

Um dos traços mais intrigantes do ser humano é a nossa tendência (para todos os efeitos, irresistível) de gravitar incessantemente ao redor do local em que nascemos. Aparentemente cremos de fato que de alguma forma misteriosa nossa ligação com a terra natal não é fortuita, mas parte essencial e inseparável de nossa identidade.

Não importa onde tenhamos nascido: para todos e em todo lugar, tudo que importa é onde nascemos. Vivemos incessantemente debaixo da sorte desse biscoito, sob a égide desse horóscopo, e o lugar de nascimento (e sua mitologia pessoal e coletiva) é o décimo-terceiro signo que nos define e determina nosso destino – mesmo quando estamos irreparavelmente distantes.

Ícone do seu poder é a curiosa supremacia da permanência.

Num mundo tão absolutamente prenhe de destinos, rotas e possibilidades, a permanência deveria ser a exceção, mas é – contra todo bom senso – a absoluta norma. A esmagadora maioria das pessoas jamais chega a morar em outra terra, contentando-se em patinar no interior de um círculo de poucos quilômetros ao redor da rua em que nasceu; os que de fato fazem as malas e empunham bilhetes de passagem são poucos, mas desses a maioria acaba voltando ou permanece lutando para retornar. Uns poucos heróis atrevem-se a interromper o Círculo, zombar temerariamente do Zodíaco e expirar sob ventos de outro sotaque.

Quando as viagens eram mais raras, arriscadas e custosas – digamos, há quinhentos anos, – creio que, paradoxalmente, uma proporção maior de pessoas ousava empreender a terrível Jornada e pisar e fincar pé e quem sabe tombar em litoral estranho.

Não importa a configuração das estrelas lá em cima: sou curitibano e fraco e derrubado pelo poder irresistível do Círculo.



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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