24 de Maio de 2006

O cego e seu hóspede

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

O cego prestara atenção nos sinais durante semanas, e demorara mais tempo para decidir uma abordagem do que para assegurar-se da sua conclusão. Eram seis e meia da tarde e ele estava na cozinha do apartamento fatiando rodelas de cenoura com uma enorme faca de cabo branco. Ele respirou fundo. Sem tirar os olhos do conteúdo da janela invisível, pousou gentilmente a faca sobre a tábua de cortar e ergueu as duas mãos junto ao corpo na altura do peito, paralelas ao balcão da pia.

– Eu sei que você está aí – ele disse pausadamente com voz articulada de cego. – Sei que está aí e que é minucioso e alerta e deve estar agora me olhando de algum canto com olhos arregalados mas sem emitir um sinal da sua presença. Eu venho em paz. Tenho a dizer que você é muito bom – ou, devo esperar, boa? De qualquer forma você passou despercebido por muito, muito tempo, e tive de reler todos os sinais antes de ter certeza de que você estava de fato aí. Você come muito pouco, e demorei a diagnosticar a colher de arroz ou de carne moída que faltava nos potes na geladeira. Isso foi antes, naturalmente, que eu passasse a cozinhar para você. A idéia de andar de meias, apesar de óbvia, foi também muito bem executada; devo supor que esteja dormindo naquele ressalto do corredor, por onde não corro o risco de passar numa caminhada noturna? A essa altura você já deve ter feito uma cópia da chave, e estou supondo que toma banho e usa o banheiro nos curtos intervalos em que saio para caminhar e tomar sol: minha indelicadeza, que tenho tentado corrigir saindo mais vezes, como você deve ter notado. Às vezes tenho certeza de que você é mesmo mulher, pela minúcia da sua exatidão e pelo jeito que me olha no banho, embora não ignore que há homens com os mesmos hábitos. Que posso dizer? A esta altura você conhece inevitavelmente meus predicados e interesses, e tenho o que esconder nessa área ainda menos do que em outras. Apenas você poderá, me conhecendo, dizer se estamos próximos o bastante para compartilharmos talvez um dia da mesma cama – mesmo que seja para indignidades como dormir e aquecer mutuamente, agora que o inverno está chegando. Curioso é que sempre imaginei que algo assim poderia um dia acontecer; meu analista diria, se eu tivesse a inclinação de compartilhar essa intimidade com ele, que foi justamente por essa possibilidade que acabei acalentando e perseguindo a idéia de morar sozinho. Quanto aos seus motivos, não me cabe no fim das contas especular. A esta altura você terá percebido que não tenho dinheiro ou qualquer vantagem pecuniária da qual eu mesmo ou outra pessoa poderiam se beneficiar. O pouco que tenho no banco estamos de uma forma ou de outra dividindo, e o que guardo em casa fica no pote branco de açúcar em cima do armário; nada que você já não deva saber, embora se tirou algo dali parece ter sido eficaz o bastante para repor antes que eu notasse. Estou supondo que não tenha inclinação à violência e que esteja ficando por uma de duas alternativas: porque quer ficar, ou porque não tem alternativa. De qualquer forma, sinto-me lisonjeado. Gosto a propósito dos livros que você tem andado lendo, coisas que eu mesmo apreciei em outra vida. Não me incomodaria de modo algum se você resolvesse um dia ler em voz alta, embora não queira na verdade pressioná-lo em sentido algum. Podemos continuar exatamente como estamos, cada um com sua rigorosa parcela de privacidade, se o meu conhecimento da sua presença não representa afronta para você. Se eu baixar a mão e encontrar a faca sobre a pia saberei que teremos chegado a esse acordo. Não me incomoda o seu silêncio, embora talvez o incomode a minha voz. Julgue você. Posso ter ainda revelar que esta é a terceira vez que estou fazendo este discurso, mas esta é a primeira em que tenho certeza de que você está ouvindo.

E baixou a mão para ver se a faca estava ali.



10 Comentários a respeito de "O cego e seu hóspede"

Luiz Henrique Mello

É um texto com multiplas utilidades, ou mil utilidades. Lembra a necessidade de ter alguém por perto para colocar as culpas, a questão da solidão, a certeza de que estou em dúvida ou a dúvida se tenho certeza ou ainda, por melhor que um cego consiga utilizar os outros sentidos, ele está privado da visão.



hernan

Paulo, de onde vêm essas idéias?

Você é um louco e ai de mim por assim chama-lo, mas não encontrei outra forma de expressar minha admiração. Esteja certo de que é um elogio.



Rosi

Talvez o cara não era cego fisicamente. É possível, né?



rubens pires de lima osorio

E daí? E então? A faca tava lá ou não??? Quem está lá com ele? Ou não tem ninguém e ele tá é ficando louco? Ou será que o louco é vc de ficar contando pela metade estas histórias pra gente? Só sei que tô ficando louco com este suspense!!!! Me conta, vai; diz logo: tem alguém aí???



Manuel Anastácio

Provavelmente um dos mais belos contos que me lembro de ter lido ultimamente…

Mas como interpretar o “a faca sobre a pia”?
Onde estava a tábua de cortar mesmo?…

Não precisa responder. A ambiguidade fica bem na ficção. Torna-a mais real.



Farah

Pretty good my friend you are sharpening your stile, but Borges is still there, blind and hiding in a niche.



Jo Lorib

Muito bom, e apesar das reclamações, está completo. Uma palavra a mais o destruiria, embora algumas palavras a menos talvez o deixassem mais crocante.

Abraço desde S. Paulo.



Paulo Brabo

O cego Borges não vai embora de jeito nenhum. Sendo o irrecuperável associacionista que sou (e Borges também o era, mais do que todos), simplesmente não existo sem incessantes citações, jogos de espelhos e referências cruzadas.



Rivaldo Barboza

Sou teu fã, cara. Todo santo dia eu dou uma olhada aqui pra aproveitar dessas pérolas.

Mas, quando teremos textos seus em átomos e não em pixels?

Parabéns.



Fábio

O Cego mesmo solitário se sentia rodeado pelas coisas que o cercavam. A escuridão deixava a flor da pele sua consciência para buscar suas lembranças. O pio que ele ouvia era um segredo a se desvendar.



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