Tive sexta-feira à noite um chocante momento de revelação. O universo foi clemente e usou a chave certa para me destrancar.
Eu estava assistindo ao avassalador A Lula e a Baleia, filme que devassa com compaixão e cinismo os sutilíssimos mecanismos através dos quais os protagonistas de um divórcio sustentam o seu pérfido egocentrismo.
Achei o filme impecável mas fui resistindo bravamente na retaguarda, até o momento em que determinado personagem, colocado contra a parede, diz simplesmente: “Não me vejo como o tipo de pessoa que…”
Ele não termina a frase, mas nós que estamos acompanhando o filme sabemos (e ele também) que ele é precisamente o tipo de pessoa que faz o que ele faz. A frase simplesmente deixa muito claro que de algum modo o sujeito havia estado investindo grande parte dos seus recursos a fim de ocultar de si mesmo que ele era o tipo de pessoa que comete os pecados menores mas barbaramente exigentes que ele cometia.
Essa cena em particular serviu-me como chave porque caí na temerária besteira de aplicá-la a mim. Fui forçado a dizer na minha mente não me vejo como o tipo de pessoa que – completando-a com aquelas informações-chave que somente eu sei a meu respeito – e o que descobri não foi nada bonito.
E a feiúra do negócio estava menos nas besteiras que posso ter estado fazendo do que na minha surreal mesquinheza de ter estado ocultando-o com tanto sucesso de mim mesmo.
* * *
Já que estava nessa, tive de aproveitar o momento de lucidez para arrancar todas as máscaras que me vieram à mão e olhar com alguma compaixão e muita surpresa o sujeito nu que me olhava do espelho.
O paradoxo de um empreendimento como a Bacia está em que, embora ninguém embarque em algo parecido sem esperar ser descoberto, ouvido e admirado, ele só serve de ferramenta de autoconhecimento durante o período que antecede o preciso momento em que angariamos um público fiel. Foi curioso para mim reconhecer que a Bacia me fez mais bem antes que gente notável como o Rubens, o Farah, o Jo, o Marconi, a Carol, o Hernan, o Lou e o Volney (para mencionar apenas os menos reservados) ocupassem os assentos vazios da mesa redonda, passando a assinar embaixo e assentir com a cabeça. Essa nova afiliação me desconcertou e me prejudicou – embora isso diga naturalmente menos sobre eles e suas expectativas do que sobre mim e minhas buscas.
Minha tentação, agora que vocês me conhecem, é desempenhar um papel, executar uma estudada performance: batalhar mais uma vez por aprovação ao invés de continuar mergulhando com toda a sinceridade possível em mim mesmo. A tentação é acreditar na imagem projetada e fazer a cômoda e deliciosa transição de pessoa a personagem; de peregrino a pregador; de mortal a moralista.
Posso passar tranqüilamente a vida desse jeito, ignorando que sou o tipo de pessoa que faz [tal coisa] e, pior, sem jamais chegar ao conhecimento do que realmente sou: sem experimentar o esquivo processo que Jung chamou de individuação.
* * *
Esse processo de se tornar um indivíduo é, aparentemente. muito custoso – tão custoso que preferimos investir todos os recursos disponíveis em evitar enfrentar essa batalha de frente.
Salvo engano, é por essa razão que gastamos tanto tempo investindo num egocentrismo que é, paradoxalmente, autodestrutivo. Quando nos fixamos na satisfação do ego, seja na glorificação da imagem pessoal ou na satisfação dos apetites, acabamos sendo privados do raro prazer de descobrir quem de fato somos.
A farsa mais poderosa do egocentrismo está em que ele acena com a ilusão de que estamos pensando sobre nós mesmos e buscando a nossa própria satisfação, quando estamos na verdade sendo prisioneiros dos outros e da sua vontade.
O problema essencial com o pecado está em que ele consiste em condutas e posturas que nos parecem tão evidentemente vantajosos para a satisfação do ego – mas que são cuidadosamente planejados por regiões sombrias de nós mesmos de modo a impedir que cheguemos ao conhecimento de quem realmente somos.
***
O que a individuação requer é que deixemos de lado todos os confortos, ilusões e subterfúgios e encaremos de frente o vazio. A realidade a seco, sem gelo.
Qualquer coisa que se interponha nesse processo de individuação (“para que vocês sejam um”) é o que se chama em outro lugar de pecado.
***
A gente inventa qualquer coisa
Pra não sofrer
E ri à toa
Pra não chorar
A gente inventa de morar até na lua
E quer partir de mala e cuia
A gente vive em edificio de elevador
Quer morar no céu ou no Arpoador
E ri à toa
pra não chorar
A gente sonha, bebe e chora pra esquecer
Rasga cartas e retratos pra não sofrer
A gente sai pra viajar, pra caminhar
Quer trabalhar pra não lembrar
A gente não quer encarar o bicho
Que tá roendo dentro de nós
A gente inventa qualquer coisa
Pra ser feliz
Se apaixona por um ator
ou por uma atriz
Zé da Riba, Fuga nº 1



Jo Lorib
Esse post me lembrou Drumond: Vai Paulo, vai ser gauche na vida.
Luiz Henrique Mello
Paulo
Há muito tempo descobri o sabotador interno chamado “ego”. John Powell, Harold Janpousky, Eric Berne, Zenon Lotufo JR., trabalharam comigo duramente até que eu pudesse ver, ainda que de longe, a verdadeira pessoa por trás de máscaras e papéis. Diariamente estou em luta com ele. Seus mecanismos de defesa, manipulações e contra-manipulações, subterfúgios, roteiros de vida e ele insiste em controlar minha vida.
Com sua descoberta, você está desmascarando um pouco, cada um de nós também, além de você mesmo.
Ivan Volcov
Então você precisou de um discípulo de Freud para fazer-se ouvir a respeito da “individualização”. Precisava ser o Jung?
Como se eu já não tivesse dito a mesma coisa a você mil vezes.
Em todo caso, bem vindo a existência real!
Figurante
Há poucos dias estava refletindo muito sobre isso. Normalmente o superego só se evidencia apos alguns momentos de masturbação mental, quando se pensa muito (assim penso…).
Pode-se refletir mais claramente acerca de moral com um empurrãozinho de Nietzsche (GENEALOGIA DA MORAL).
“A rebelião escrava na moral começa quando o próprio ressentimento se torna criador e gera valores: o ressentimento dos seres aos quais é negada a verdadeira reação, a dos atos, e que apenas por uma vingança imaginária obtêm reparação. Enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesma, já de início a moral escrava diz Não a um “fora”, um “outro”, um “não-eu” – e este Não é seu ato criador. Esta inversão do olhar que estabelece valores este necessário dirigir-se para fora, em vez de voltar-se para si é algo próprio do ressentimento: a moral escrava sempre requer, para nascer, um mundo oposto e exterior, para poder agir em absoluto – sua ação é no fundo reação.”
Ass: Figurante
hernan
Quanto a mim, nunca duvidei que você, Paulo, fosse capaz de…
É que eu mesmo sou tão capaz de… quanto recorrentemente atesto minha própria capacidade de…
Não é por acaso que o conheci lendo o Maltrapilho, de Manning, que você traduziu e acho que, sorrateiramente, também subscreveu. Afinal, autoria é coisa moderna, não?
Sou atraído por quem assume que é capaz na mesma medida em que duvido de quem faz parecer que não é capaz de…
Por isso venho sempre aqui, e também vou aos blogues dos demais.
Farah
Bom… quer dizer… assim capaz de…
Eu uma vez sendo cobrado por um amor me saí assim com essa resposta, sobre o que havia feito:
Da pele pr’a dentro só a gente mesmo sabe os porques.
Fiz e fiz!
Bom, quando não se tem uma resposta lógica pláusivel, há que se assumir.
Da pele pr’a dentro,
aqui entre nós;
nós nos conhecemos,
Volney Faustini
Vc será sempre o amado (se não dos notáveis* – pelo menos do Pai Aba).
E não se preocupe… com o rol de notáveis* (anônimos e nominativos) que lhe acompanham, dificilmente vc vai conseguir ser outro Brabo a não ser aquele que você já é.
E é esse que nos cativa, independente de performance ou de boa execução.
Uma alerta porém. Fique esperto para não se trair – pois nóis, os notáveis* – estaremos sempre por perto pra fiscalizar o verdadeiro Brabo.
(*) Como notáveis, nos damos ao luxo de não precisarmos de chave – permanecemos trancados em nós mesmos. Quem sabe um dia, uma noite no cinema …
Humberto
Se todo malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só de malandragem.