28 de Abril de 2006

Narrativa versus teologia

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Fé e Crença, Goiabas Roubadas

QUANDO O GRANDE RABINO Israel Shem Tov via a desgraça ameaçando os judeus era seu costume ir a um certo lugar da floresta para meditar. Ali ele acendia uma fogueira, proferia uma oração especial e o milagre era realizado e o infortúnio evitado. Mais tarde quando seu discípulo, o celebrado Magid de Mezritch, teve oportunidade, pela mesma razão, de interceder ao céu, ele foi ao mesmo lugar na floresta e disse: “Senhor do universo, ouve: não sei acender uma fogueira, mas sou ainda capaz de proferir a oração”, e novamente o milagre foi realizado. Ainda mais tarde o rabino Moshe-leib de Sasov, a fim de salvar seu povo mais uma vez, foi à floresta e disse: “Não sei acender uma fogueira e não conheço a oração, mas conheço o lugar da floresta e isso deve bastar”. Bastou e o milagre foi realizado. Então recaiu sobre o rabino Israel de Rhyzin afastar o infortúnio. Sentado em sua poltrona, cabeça entre as mãos, ele disse a Deus: “Não sei acender uma fogueira, não conheço a oração e não sei achar o lugar na floresta; tudo que posso fazer é contar a história, e deve bastar”.

Bastou. Deus fez o homem porque adora histórias.

Tudo [...] parece indicar que a história de Deus e as nossas histórias são de alguma forma experiências originais. Talvez seja aqui que resida nossa “imagem e semelhança”: somos parágrafos da mesma história.

No devido tempo, no entanto, algo aconteceu em nossas histórias mútuas. Foi inevitável e de fato necessário. As pessoas, agraciadas com inteligência pelo Deus da mesma história, começaram a refletir sobre nossas histórias conjuntas. Com o tempo os homens começaram a tirar conclusões e finalmente codificaram essas conclusões em proposições, sistemas e credos. O resultado foi o que chamamos de teologia sistemática.

Deve ser depressa notado, no entanto, que essa teologia não é a coisa em si, a experiência crua de nossas histórias. É uma classificação intelectual das experiências a fim de podermos conversar a respeito delas de forma filosófica. É uma coisa boa e necessária e dá aos profissionais as categorias e vocabulário necessários para falarem entre si e nos ensinarem.

Há no entanto dois inconvenientes nesse desenvolvimento, inconvenientes que apenas recentemente estamos tentando superar. O primeiro é que essa intelectualização é feita invariavelmente dentro dos modos correntes de pensamento e está baseada nas suposições de filosofias passadas e contemporâneas – que são limitadas e condicionadas. A teologia sistemática codificada está irremediavelmente embutida num sistema específico e isso afeta suas conclusões e expressões. Em segundo lugar, todas as teologias sistemáticas, até hoje, são fechadas a outros com diferentes pressuposições e fundamentos, e são apenas uma peça do todo. Por essas duas razões as teologias sistemáticas são limitadas, ultrapassadas e parciais.

William J. Bausch, Storytelling: Imagination and Faith

 

Este documento faz parte da série

Teologia narrativa

  1. A narrativa divina
  2. Narrativa versus teologia
  3. Perto dos lábios, longe do coração


5 Comentários a respeito de "Narrativa versus teologia"

Luiz Henrique Mello

Perguntei, certa vez, ao Dr. Shedd: “Além do curso de teologia normal, em que eu deveria prestar mais atenção ou enfatizar mais?” Sua resposta veio seca: “Na Teologia Sistemática.”



Paulo Brabo

Minha resposta seria semelhante, mas eu diria que você prestasse atenção na teologia sistemática para precaver-se ativamente contra ela.

Todas as teologias tem algo de insano e prepotente, mas a teologia sistemática talvez supere todas as outras – sendo como se sabe a mais recente e poderosa fórmula do fermento dos fariseus.

Trata-se de tentativa típica da modernidade de colocar Deus dentro de uma caixinha fenomenológica: analisá-lo em condições ideais de temperatura e pressão e prever as leis que regem o seu comportamento. Algo que nem o Filho (e ninguém conhece o Pai se não o Filho) tentou fazer, muito menos recomendou aos seus seguidores.

No que me diz respeito, a teologia sistemática é tão perniciosa em seus efeitos quanto é pretensiosa em suas intenções. Nada mais distante da teologia assistemática, relacional e narrativa (para não dizer pós-moderna) de Jesus e dos apóstolos.



Luiz Henrique Mello

Deve ter sido esta a preocupação do Shedd. Nos meus anos como professor em seminários, enfrentei problemas graves devido à ignorância dos alunos em Teologia Sistemática. Sem conhecê-la, tornamo-nos vítimas indefesas dela. Certo?



hernan

Lou, acho que nos tornamos vítimas especialmente quando a conhecemos, pois os “opositores” fazem dela uma armadilha inescapável deixando-nos coerentemente sem resposta. Os ignorantes também são enredados, mas resta-lhes ainda o sentimento de que, caso a conhecessem, escapariam.

No fim, acho que enveredar-se pela teologia sistemática e cair em uma de suas armadilhas acabará por mostrar-nos sua inutilidade, o que seria libertador. A verdade sempre liberta.



Volney Faustini

Por sua natureza o ser humano quer abraçar ídolos que lhe dêem segurança e acalmem suas incansáveis ansiedades.

Talvez o Sheddão numa outra hora menos afoita dissesse: permaneça sempre na Palavra e da Palavra.

Tenho por mim, concordando com Gondim, que a Teologia Sistemática é hoje altamente perniciosa. Nela descansamos e nos acomodamos, como se a obra de Deus tivesse terminado e o Reino implantado.

Bom, falta pouco – vamos construir tres cabaninhas ao lado do Monastério do Brabo.



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