O cerne da mensagem do Reino, conforme enunciado por Jesus, é tão escandalosamente revolucionário e exigente que nós cristãos tratamos de aparar suas arestas mais escandalosas (todas elas), de modo a que ele não pudesse causar estrago e constrangimento a ninguém – em especial a nós mesmos.
Como resultado desse eficaz trabalho de domesticação, todo o tipo de barbaridade foi e é efetuado pelos cristãos em nome de Deus – mas, como aprendi com o Serqueira, sem firma reconhecida. Desnecessário olhar para trás e contemplar as Cruzadas. Nos nossos dias aquele que reivindica para o si o título de país mais Verdadeiramente Cristão da Terra é também o mais beligerante e consumista – sendo que a proclamação do o Reino exige de forma inequívoca e intransigente o baixar de armas e a simplicidade de vida.
Os fundamentalistas evangélicos norte-americanos, defensores últimos da integridade do evangelho, sustentam que é horrenda ofensa não crer na Bíblia literalmente. Eles de fato crêem literalmente, mas de forma cuidadosa e seletiva: isto é, quando lhes convém.
Os fundamentalistas e seus asseclas crêem que o Gênesis está falando em dias literais quando afirma que o mundo foi criado em sete dias; mas ensinam que Jesus não estava falando numa espada literal quando sentenciou: “Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão”. O nascimento virginal de Jesus deve ser entendido literalmente e seria blasfêmia sugerir o contrário; mas já Jesus não deve ser entendido literalmente quando nos convida a amar os inimigos, a emprestar sem esperar receber de volta, a oferecer a outra face, a dar liberalmente a quem pedir, a renunciar a toda pretensão de poder, a colocar o outro em primeiro lugar, a não ajuntar tesouros na terra, a renunciar a tudo para segui-lo, a nos fazermos frágeis e despretensiosos como criancinhas, a dar a vida pelos amigos.
Mais fácil é fazer-se de louco e ater-se, como fazemos invariavelmente, a lateralidades. Ninguém quer se dar ao luxo de ponderar que talvez o evangelho seja incompatível com o belicismo, a acumulação insana de bens, o egocentrismo institucional e o capeta-lismo (como dizia o velho profeta carioca Gentileza). O que Jesus disse é, na prática, irrelevante à nossa pretensão de sermos seguidores dele.
Estamos protegidos do Indomável pela nossa interpretação à prova de balas das suas palavras.
Naturalmente, estou chovendo no molhado quando falo sobre esse assunto – e olhe que volto sempre a ele. Se, falando da forma mais clara, o aclamado Søren Kierkegaard não conseguiu abrir os olhos da galera, não serei eu. Já no século retrasado, e por excelentes razões, Kierkegaard exigia a cabeça dos que fazem de intermediar o significado da Bíblia sua profissão.
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MORTE AOS COMENTARISTAS
A enorme quantidade de intérpretes contemporâneos bíblicos tem prejudicado, mais do que auxiliado, nossa compreensão da Bíblia. Ao ler os comentaristas tornou-se necessário fazê-lo como quem assiste uma peça durante a qual a profusão de espectadores e de luzes impede, por assim dizer, que desfrutemos da peça em si – e somos premiados ao invés disso com pequenos incidentes. Para assistirmos à peça temos de aprender a ignorá-los, se possível, ou entrar por um caminho que não tenha sido obstruído.
O comentarista tornou-se, na verdade, o mais prejudicial dos intermediários. Se você deseja entender a Bíblia, certifique-se de lê-la sem um comentário. Pense em dois amantes. A amante escreve uma carta ao seu amado. O amado está por acaso interessada no que os outros acham da carta? Não irá lê-la sozinho? Em outras palavras, nunca lhe passaria pela cabeça lê-la com o auxílio de um comentário. Se a carta da amante estivesse escrita num idioma que ele não compreende – ora, ele por certo aprenderia a língua, mas com certeza não a leria com a intermediação de comentários. Esses de nada adiantam. O amor pela sua amada e sua prontidão em satisfazer os desejos dela tornam-no mais do que capaz de compreender a carta. É o mesmo com as Escrituras. Com a ajuda de Deus podemos entender a Bíblia muito bem. Todo comentário deprecia, e a pessoa que senta-se com dez comentários abertos e lê a Escritura… está provavelmente escrevendo o décimo-primeiro. Não está por certo lidando com as Escrituras.
Se você deseja entender a Bíblia, certifique-se de lê-la sem um comentário.
Suponha agora que essa carta da amante possua o atributo único de que cada ser humano é o amado a quem ela se dirige. E agora? Deveríamos por acaso sentar e conferenciar um com o outro? Não, cada um de nós deveria ler essa carta apenas como indivíduo, como indivíduo singular que recebeu essa carta de Deus. Ao lê-la, estaremos preocupadas em primeiro lugar com nós mesmos e com nosso relacionamento com ele. Não concentraremos nossa atenção na carta em si, no fato de que essa passagem possa ser interpretada de uma forma e esta de outra – de forma alguma: o importante para nós será agir, e o mais cedo possível.
Não é então algo singular ser o amado, e não nos dá esse algo uma vantagem que nenhum comentarista possui? Pense a respeito. Não somos nós os melhores intérpretes das nossas próprias palavras? E em seguida o amante e, em relação a Deus, o verdadeiro crente? Não devemos esquecer que as Escrituras são meras placas rodoviárias: Cristo, o amado, é o caminho. Morte aos comentaristas!
A questão é simples. A Bíblia é muito fácil de entender. Mas nós cristãos somos um bando de vigaristas trapaceiros. Fingimos que não somos capazes de entendê-la porque sabemos muito bem que no minuto em que compreendermos estaremos obrigados a agir em conformidade. Tome qualquer palavra do Novo Testamento e esqueça tudo a não ser o seu comprometimento de agir em conformidade com ela. Meu Deus, dirá você, se eu fizer isso minha estará arruinada. Como vou progredir na vida?
Aqui jaz o verdadeiro lugar da erudição cristã. A erudição cristã é a prodigiosa invenção da igreja para defender-se da Bíblia; para assegurar que continuemos sendo bons cristãos sem que a Bíblia chegue perto demais. Ah, erudição sem preço! O que seria de nós sem você? Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. De fato, já é coisa terrível estar sozinho com o Novo Testamento.
Terrível coisa é estar sozinho com o Novo Testamento.
Abro o Novo Testamento e leio: “Se você quer ser perfeito, venda todos os seus bens e dê aos pobres, e venha me seguir”. Meu Deus, se fôssemos de fato fazer isso, todos os capitalistas, todos os funcionários públicos e empreendedores, toda a sociedade na verdade, seríamos reduzidos à condição de quase mendigos! Estaríamos em maus lençóis não fosse a erudição cristã! Louvado seja todo aquele que trabalha para consolidar a reputação da erudição cristã, que ajuda a refrear o Novo Testamento, esse livro perturbado que passaria por cima de nós uma, duas, três vezes se andasse à solta (quer dizer, se a erudição cristã não o refreasse).
O que precisamos realmente, portanto, é de uma reforma que coloque até mesmo a Bíblia de lado. Sim, isso teria hoje em dia a mesma validade que teve o rompimento de Lutero com o papa. A presente ênfase em “voltar à Bíblia” tem, infelizmente, criado religiosidade a partir de uma trapaça erudita e literalista—mera manobra de diversão. Tragicamente, esse tipo de conhecimento tem gotejado gradualmente sobre as massas, de modo que hoje em dia ninguém é mais capaz de simplesmente ler a Bíblia. Todo nosso saber bíblico tornou-se nada além de uma fortaleza de desculpas e escapes. Quando se trata de existência, de obediência, há sempre algo de que devemos cuidar antes. Vivemos sob a ilusão de que devemos primeiro ter a interpretação correta ou a crença em sua forma perfeita antes de podermos começar a viver – quer dizer, nunca chegamos a fazer o que a Palavra diz.
A igreja vem há muito precisando de um profeta em temor e tremor que tenha a coragem de proibir o povo de ler a Bíblia. Sou tentado, portanto, a fazer a seguinte proposta. Coletemos todas as nossas Bíblias e juntemo-las em algum lugar aberto ou no alto de uma montanha e então, enquanto todos ajoelhamos, alguém fale com Deus da seguinte maneira:
“Leve esse livro de volta. Nós, cristãos, tais como somos, não somos aptos a nos envolver com tal coisa; ela apenas nos torna orgulhosos e infelizes. Não estamos prontos para ela.”
Em outras palavras, sugiro que nós, como os aldeões cujo rebanho de porcos arrojou-se na água e afogou-se, imploremos a Cristo que “retire-se de nós” (Mateus 8:34). Isso pelo menos seria um discurso honesto – algo muito diferente da erudição nauseante e hipócrita tão prevalente hoje em dia.
Em vão a Bíblia comanda com autoridade. Em vão ela admoesta e implora. Não ouvimos – isto é, ouvimos a sua voz apenas pela intermediação/interferência da erudição cristã, dos especialistas que tiveram treinamento adequado. Da mesma forma que um estrangeiro exige os seus direitos numa língua estranha e ousa apaixonadamente dizer palavras ousadas ao enfrentar autoridades do Estado – mas veja, o intérprete que deve traduzi-las para as autoridades não ousa fazê-lo, substituindo-as por alguma outra coisa – assim soa a Bíblia através da erudição cristã.
“Leve esse livro de volta.”
Afirmamos que a erudição cristã existe especificamente para nos ajudar a entender o Novo Testamento, a fim de que melhor possamos ouvir a sua voz. Nenhum lunático, nenhum prisioneiro de estado foi jamais confinado dessa forma. No que diz respeito a eles, ninguém nega que estão trancafiados, mas as precauções contra o Novo Testamento são ainda maiores. Nós o trancafiamos, mas argumentamos que estamos fazendo justamente o contrário, que estamos zelosamente engajados em ajudar a que ele ganhe clareza e controle. Por outro lado, naturalmente, nenhum lunático ou prisioneiro de estado poderia ser mais perigoso do que o Novo Testamento caso se permitisse que ele andasse à solta.
É verdade que nós, protestantes, empreendemos grandes esforços para que cada pessoa possua sua própria Bíblia – até mesmo em seu idioma nativo. Ah, mas como são grandes os esforços para imprimir sobre todos a noção de que ela só pode ser compreendida através da erudição cristã! Essa é nossa situação atual.
O que tentei demonstrar aqui pode ser declarado sem dificuldade:
Tenho desejado fazer as pessoas darem-se conta e admitirem que acho o Novo Testamento muito fácil de entender, mas tenho encontrado até agora a maior dificuldade para agir de forma literal em conformidade com o que ele diz tão claramente. Talvez eu pudesse ter tomado outra direção; poderia ter inventado uma nova espécie de erudição, dando à luz ainda outro comentário, mas estou muito mais satisfeito com o que fiz – uma confissão sobre mim mesmo.
Søren Kierkegard, Provocations



Luiz Henrique Mello
K. Barth comentou magistralmente Romanos, Lutero a mesma coisa com Gálatas, Calvino comentou tudo e sobressaiu-se em Romanos e Gálatas, os melhores comentários que tenho notícias, mas todos eles não deixaram de enfatizar certos pontos que lhes pareciam mais relevantes. Li outros comentários bons, como os de F. F. Bruce, por exemplo. Entretanto, quando Paulo diz “O justo viverá pela fé”, frase que ele extraiu de Habacuque, penso que está querendo dizer apenas isso e mais nada. Os fundamentalistas, via de regra, são praticantes do paganismo, do toma lá da cá. Não conhecem a Graça e o perdão incondicional de Jesus Cristo e a leitura bíblica que fazem é tendenciosa. Mas devo reconhecer que os bons comentários me ajudaram muito. Só não os considerei como textos sagrados.
Rubens Osorio
O Francis Fukuyama acaba de renegar, em entrevista publicada no Estadão, o neoconservadorismo que ajudou a erguer, e que é justamente uma perna (ideológica) do monstro do qual o fundamentalismo evangélico é a outra (religiosa). Ele renega justamente o belicismo e o antiambientalismo americano, além de “otras cositas más”. Fica cada vez mais claro que a certeza é a máscara dos arrogantes e a dúvida, o preço da pureza. Enquanto isso, o Evangelho sai incólume…
hernan
Comungo com a condição de Kierkegaard relatada no último parágrafo. Por vezes me vejo pensando no que aconteceria se levássemos as palavras de Jesus às, nem precisam ser últimas, mas devidas, consequências…
Se bem que, numa reação do público a um de seus surtos de subversão de valores, Jesus disse que nem todos eram aptos a receber o que ele dizia…
Marconi Bartholi
Jogando lenha na fogueira. Levemos em consideração o mundo pós-moderno em que vivemos, caracterizado pela verdade ser algo próprio e percentence dentro dos diversos grupos linguísticos-culturais.
Assim, mesmo que não acessemos nenhum comentário publicado, acessamos automaticamente o “comentário” vivido e expressado pelo comportamento daquelas pessoas do determinado grupo. Acabamos proliferando “leituras” de comentários com o nosso viver.
E aí está a minha inquietação. Como, de forma prática, podemos ser fiéis ao que detectamos num Evangelho subversivo, revolucionário, que se dá, que se doa, formando uma comunidade que assim expresse esse viver, livre e libertador, mas completamente estranho e mal-vindo na Igreja, quanto mais na sociedade.
Podemos trocar algumas idéias nisso? Paulo será que vc poderia lançar mais lenha nessa fogueira?
Abraço incendiário,
Marconi Bartholi
Paulo Brabo
Lutero, cujo comentário o Lou pecou ao perdoar, teve ao menos a sensatez de confessar-se em 1522:
Ah, se Deus permitisse que minha interpretação e a de todos os outros mestres desaparecesse, e que cada cristão pudesse chegar diretamente à Escritura apenas, e à pura palavra de Deus! Percebe-se já por essa tagarelice minha a incomensurável diferença entre a palavra de Deus e todas as palavras humanas, e como homem algum pode, com todas as suas palavras, adequadamente alcançar e explicar uma única palavra de Deus. Trata-se de uma palavra eterna e deve ser compreendida e meditada com uma mente silenciosa. Ninguém é capaz de compreendê-la a não ser a mente que a contempla em silêncio.
Lembrou-se dessa citação o Marconi Bartholi, que leu-a nO Evangelho Maltrapilho.
Felipe Fanuel
Vida eterna a qualquer crítica às tentativas de tornar hermética a fé cristã! Sabe-se que o fundamentalismo é um dos maiores males deste século, principalmente por trucidar a característica mais inerente do cristianismo que é se emergir de e se inserir em uma cultura. Lamentável perceber que, desde suas origens, a pretensão dos famigerados “fundamentos” é demoníaca, porque visa o combate, e não o diálogo. Infelizmente, este processo tem incluído muita gente de boa intenção, mas os desavisados acabam se comprometendo com esta ideologia inconscientemente. O consolo está no fato de que o mal só existe graças ao bem, pois precisa dele para se afirmar. Portanto, enquanto houver quem clame por paz no mundo, haverá pessoas cujo propósito é promover a maldita guerra hoje, fruto desta barbárie fundamentalista.
Filipe Liepkan Maranhão
Não obstante à nossa vontade de ditarmos qualquer “lei divina”, somos também induzidos a acreditar que, pela nossa educação cristã, a bíblia é um peso literal, pois nos ordena atitudes quase sempre utópicas ou de praticabilidade impossível se considerado o atual sistema mundial de capital.
Porém temos de ressaltar da necessidade de termos a Bíblia como fonte dessas mesmas controvérsios para as “diluirmos”. Usemos, portante, a Bíblia para mostrarmos que o fundamentalismo bíblico é ridículo e sem fundamento, que o literalismo é fruto de uma pateticidade ignorante do homem, que a formulação doutrinária bíblica atual é apenas prorrogada de mandamentos indutivos na vida cristã, tornando-nos meros “fazedores de atos ‘bons’ ”…
A Bíblia deve ser estirpada? Bom, o Espírito Santo daria a resposta se no alto do monte fizéssemos a petição existente no texto.
O único problema: eu duvido que pediríamos sem antes pedirmos algo em troca, pois somos movidos pelas trocas movedores de nossa ganância. E creiam, pediríamos uma substituta forma de convencimento, ainda que o ES seja sempre citado e citado como fonte do mesmo, pois usamos a Bíblia para convencer e precisamos sempre ser convencidos, ainda que neguemos tal fato =].