Como resultado temos pessoas que se consideram crentes porque aceitam metáforas como fatos, e outros que classificam-se como ateus porque crêem que as metáforas religiosas são mentiras.
– A palavra “mito” significa “mentira” – começou ele. – Um mito é uma mentira.
– Não, um mito não é uma mentira. Uma mitologia completa é uma organização de imagens e narrativas simbólicas, metafóricas das possibilidades da experiência humana e da plena realização de uma dada cultura num dado momento.
– Uma mentira.
– Uma metáfora.
– Uma mentira.
Isso se estendeu por vinte minutos. Percebi que o entrevistador não sabia de fato o que era uma metáfora, e resolvi tratá-lo como ele estava me tratando.
– Não, estou dizendo que é uma metáfora. Me dê você um exemplo de metáfora.
– Vou tentar. Meu amigo John corre muito rápido. As pessoas dizem que ele corre como uma gazela. Isso é uma metáfora.
– Isso não é metáfora. A metáfora é: João é uma gazela.
– Isso é uma mentira.
– É uma metáfora.
E o programa acabou. O que esse incidente sugere a respeito da nossa compreensão popular a respeito da metáfora?
Fez-me refletir que metade das pessoas no mundo pensa que as metáforas das suas tradições religiosas, por exemplo, são fatos. E a outra metade sustenta que não são fatos de forma alguma. Como resultado temos pessoas que se consideram crentes porque aceitam metáforas como fatos, e outros que classificam-se como ateus porque crêem que as metáforas religiosas são mentiras.
Joseph Campbell, em Thou Art That

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Rubens Osorio
A propósito de “mitos”, foi mto interessante a entrevista q a Globo News exibiu há alguns dias, com o filósofo inglês John Gray. Ateu, ele faz críticas ao cristianismo e menciona “mitos” com frequência, inclusive com conotação positiva. E destrói a fé no progresso como processo de melhoria da sociedade. Afinal, o conhecimento só dá maior poder e não sabedoria. E com isso, o ser humano usa o conhecimento tanto para o bem como para o mal, fazendo com que o progresso não resulte necessáriamente em desenvolvimento humano e social. E propõe o resgate de bons mitos (inclusive cristãos) para permitir um progresso real. Mas, se os mitos trazem aspectos do real, então o filósofo teria que se tornar um crente para admitir o valor dos mitos. Não é?
Paulo Brabo
”…o filósofo teria que se tornar um crente para admitir o valor dos mitos. Não é?”
Bastaria talvez viver de acordo com o mito. No cair das cortinas a recompensa, tremenda mas quase desnecessária, poderia ser descobri-lo verdadeiro.
No que me diz respeito a advertência aos cristãos é que muito evidentemente não vivemos de acordo com o fato que oficialmente endossamos – digamos, Jesus era o filho de Deus e segui-lo implica numa desajeitada e impopular série de complicações – e muito menos permitimo-nos, como o apóstolo Paulo, transformarmo-nos pelo peso metafórico (outros diriam “espiritual”) do mito subjacente – “Já estou crucificado com Cristo; não sou mais eu que vive, mas Cristo vive em mim”.
A crucificação de Paulo com Cristo não era “real” em nenhum sentido tradicional. Mas ele se apropriava do poder metafórico-mitológico-espiritual do [que cria como] fato a fim de transformar a a sua realidade. Ele intuía, ao contrário de nós mas como Tolkien, que a factualidade das coisas não esgota o seu poder mítico. Não é porque de fato aconteceu que um evento perde o poder de mito: muito pelo contrário (e ainda: a não-factualidade da fantasia – digamos, de Edward Mãos-de-Tesoura ou de O Senhor dos Anéis – não contradiz a sua íntima ligação com a realidade).
Gente como Gandhi não se rendeu (como, por exemplo, George W. Bush) à factualidade da divindade de Cristo, mas incorporou soberbamente o poder metafórico e transformador do mito cristão. Qual dos dois fez a vontade do pai? (Mateus 21:31).
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hernan
Acho que o descompromisso (seria liberdade?) do ateu ou do não-cristão lhes permite enxergar com maior acuidade de forma que um Ghandi deve estar entre os que fazem a vontade do Pai a despeito de sua negativa ao “apelo” de tornar-se um cristão (leia-se indivíduo que supostamente faz a vontade de Deus). Parece-me que é esta a opinião de Phillip Yancey em seu “Alma Sobrevivente”.
Este assunto me lembra a discussão interna sobre a factualidade do livro de Jó. Interessante é o próprio fato de ser uma questão interna (entre crentes).
Paulo Brabo
Você trouxe-me sem querer à memória um pastor [batista] que conheço, que afirma que todas as párabolas que Jesus contava não foram inventadas por ele, mas são relatos fidedignos de fatos reais – supor o contrário seria sustentar a noção blasfema de que Jesus teria proferido mentiras.
Bem lembrado a respeito de Jó – perderá aplicabilidade se for “mera” parábola?
– É mentira.
– Não, é parábola.
E assim por diante.
Lucas
É muito interessante o que vocês falam.