09 de Outubro de 2006

Milonga de Manuel Flores

Submetido a voz de prisão por   Paulo Brabo

 

Estocado em Traduzindo Borges

Manuel Flores vai morrer
isso é moeda corrente
morrer é costume
que sabe-se ter toda gente.

E ainda assim dói em mim
despedir-me da vida
essa coisa tão de sempre
tão doce e tão conhecida

Contemplo no alvorecer minhas mãos
contemplo nas mãos as veias
com estranheza as contemplo
como se fossem alheias.

Virão os quatro tiros
e com os quatro o esquecimento;
já disse o sábio Merlin:
morrer é ter nascido.

Quanta coisa em seu caminho
estes olhos já viram!
Quem sabe o que verão
depois de julgado por Cristo.

Manuel Flores vai morrer
isso é moeda corrente
morrer é costume
que sabe-se ter toda gente.

* * *

Manuel Flores va a morir,
eso es moneda corriente;
morir es una costumbre
que sabe tener la gente.

Y sin embargo me duele
decirle adiós a la vida,
esa cosa tan de siempre,
tan dulce y tan conocida.

Miro en el alba mis manos,
miro en las manos las venas;
con estrañeza las miro
como si fueran ajenas.

Vendrán los cuatro balazos
y con los cuatro el olvido;
lo dijo el sabio Merlín:
morir es haber nacido.

¡Cuánto cosa en su camino
estos ojos habrán visto!
Quién sabe lo que verán
después que me juzgue Cristo.

Manuel Flores va a morir,
eso es moneda corriente:
morir es una costumbre
que sabe tener la gente.

Jorge Luis Borges



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