18 de Abril de 2006

Lovecraft sobre a democracia

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Goiabas Roubadas, Politica

A idéia de que pessoas destreinadas possam com algum grau de acerto compreender a menor coisa que seja sobre a prática da administração civil da máquina de uma civilização economicamente complexa, que envolve os mais intricados problemas de engenharia, é tão grotesca e absurda que apenas o costume cego baseado na tradicional e inefável estupidez do grupo pode levar, concebivelmente, um adulto sóbrio a abraçá-la seriamente neste nosso desiludido ano de 1932.

A democracia – como distinta de oportunidade e bom tratamento universais – é hoje uma falácia e uma impossibilidade tão grandes que qualquer tentativa séria de aplicá-la não deve ser considerada como outra coisa que não gracejo e pilhéria.

Em tempos mais primitivos o cidadão médio era mais ou menos capaz de compreender a natureza dos problemas governamentais ao redor de si – compreender, quer dizer, quais medidas imediatas trariam a longo prazo a realização dos seus desejos, e quais passos práticos seriam, através de uma cadeia relativamente simples de causa e efeito, capazes de garantir a adoção bem-sucedida e a manutenção dessas medidas.

No complexo mundo contemporâneo nenhuma compreensão semelhante é possível. Debaixo do altamente tecnicalizado governo que qualquer grande nação industrial deve ter, o cidadão moderadamente informado e inteligente não possui mais do que uma debilíssima idéia do que representam os mais simples princípios políticos, ao mesmo tempo em que não tem a mais remota chance de apreender o que for dos mais avançados e intrincados problemas de política e administração.

Isso se aplica, além disso, não apenas ao homem simples e não-instruído, mas a todos os leigos e profissionais liberais, quer sejam lavradores ou professores de sânscrito, varredores de rua ou escultores. Que uma pessoa assim mal-informada lance votos que determinem medidas nacionais, ou mesmo imaginar-se que possa conceber o que representa a maior parte dessas medidas, é objeto de incontrolável riso cósmico. Que tais pessoas possam ser eligíveis a cargo administrativo é noção que levaria Tsathoggua e Yog-Shothoth a partirem-se em incontrolável hilaridade.

O governo “pelo voto popular” quer dizer apenas a nomeação de homens dubiamente qualificados por dubiamente autorizadas e raramente competentes agremiações de políticos profissionais que representam interesses ocultos, seguida por uma insolente farsa de persuasão emocional na qual os oradores com as línguas mais falastronas e as frases de efeito mais baratas arrebanham para o seu lado uma maioria numérica de tolos e simplórios cegamente impressionáveis que não tem em sua maioria a mínima idéia do que representa o circo todo.

H. P. Lovecraft, em carta de 7 de novembro de 1932 a Robert E. Howard (criador de Conan, o Bárbaro)



9 Comentários a respeito de "Lovecraft sobre a democracia"

rubens pires de lima osorio

Ih, pensei que o tal de Lovecraft estivesse falando do Brasil de 2006… Como dizia um rock inglês que eu gostava nos anos 70, “the more it changes, the more it stays the same…”



hernan

Impressionante como ele conseguiu colocar em palavras o sentimento que temos (pelo menos eu tenho) de estarmos sendo enganados com essa estória de democracia “a la Tocqueville”, governo da maioria e blá blá blá…

Não me foi possível evitar repassar para minha lista de e-mails.



Luiz Henrique Mello

E vá tentar convencê-los do contrário pro cê vê.



Ivan Volcov

A única opção melhor que a democracia é a anarquia. Mas se você não é forte o suficiente para se virar sozinho em um mundo de pessoas cheias de apetites não aposte nisso.

Hoje os capitalistas fazem pouco caso da democracia. E os democratas, viciados em sua capacidade de consumo, estão a um passo de abrir mão de suas liberdades em troca dos supérfluos males (bens de consumo) que o capitalismo oferece.

Este é o monstro de nosso tempo; o capitalismo divorciado da democracia, predador dos direito individuais. O maior monstro de nosso tempo não é a atual Igreja Medieval, o atual Nazismo nem o contemporâneo Comunismo, é o Capitalismo. Hoje é o Capitalismo quem diz: Cale-se! É proibido! Exemplo disso são as leis de direito de propriedade intelectual novas em todo o mundo. Outro exemplo é a emergente China que de democrata tem o mesmo que a velha URSS. A China que por passar a ter tudo de capitalista, mesmo que sem ter nada de democrata, é aceita de braços abertos pelo mundo ocidental, antigo mundo democrata, em suas relações comerciais.

Menor controle do Estado e das Empresas sobre a vida das pessoas poderia ser a aspiração de um anarquista muito moderado. O fim dos empreendimentos, da associação entre as pessoas, da democracia, continua sendo o delírio dos radicais suicidas.

Longe de um mundo de pessoas melhores, precisamos não calar diante da idéia de que o desenvolvimento humano e econômico que desfrutamos hoje seja o resultado do capitalismo e não do trabalho daqueles que tiveram a liberdade de construir uma realidade melhor para nós, seus filhos. Somos portanto filhos da liberdade e de sua melhor expressão coletiva: a Democracia. Foi a liberdade que nos trouxe o progresso e não o capitalismo.

Foi a valorização do trabalho em liberdade que nos trouxe o progresso e não o rigor do lucro ocioso do capitalismo financeiro; a usura. Ter habilidade para aplicar na bolsa de valores ou para conseguir um contrato com um governo totalitário, ou de uma democracia deficiente, é uma falha moral e não uma qualidade de verdadeiro empreendedor. O verdadeiro empreendedorismo, aquele que emprestou suas qualidades a expressão Capitalista, arregaça as mangas, pões a mão na massa, trabalha junto com os trabalhadores que também se beneficiam do seu investimento. É isto que faz o progresso, e é esse o tipo de capitalismo que serve a democracia, o capitalismo empreendedor, o capitalismo que premia o indivíduo em suas habilidades. O capitalismo de castas não proporciona a mobilidade social necessária para premiar a capacidade de trabalho, a competência e a inventividade que faz o progresso.

Por tudo isso, meus amigos da sabedoria (filósofos) não falem mal da democracia. Os tiramos, tanto capitalistas em suas corporações como comunistas em seus estados, são os únicos beneficiários de um discurso destes.

Precisamos de pessoas melhores, sim, e nunca as teremos. O não sermos melhores não invalida nossos melhores ideais. A Democracia para unir as forças dos homens de bem e restringir o mal destes mesmos homens, e o Anarquismo para o bem do indivíduo, senhor de si mesmo, sem servos e servo de ninguém.

E não esqueça, a única opção melhor que a democracia é a anarquia. Mas se você não é forte o suficiente para se virar sozinho em um mundo de pessoas cheias de apetites não aposte nisso.



hernan

Caro Ivan.

Apenas esclarecendo: acho que a Democracia fundada no Direito é a melhor idéia que a história conseguiu produzir, até agora, para a organização da vida em sociedade. Lamento apenas jamais havermos conseguido coloca-la em prática…

Concordo com você que nossa incapacidade do bem não invalida a legitimidade de nossos ideais. Como você disse, a democracia (ainda que capenga) proporcionou-nos muitos avanços, porém, não sem alguns males. Talvez caiba a sentença daquele velho dilema: “ruim com ela, pior sem ela”.

Não sei se a democracia é um bem ou “dos males o menor”…



Ivan Volcov

O fato de precisarmos de leis para orientar nossas vidas demonstra o quanto o bom senso esta ausente da estrutura do nosso ser. A Democracia pode então ser entendida como O Menor dos Males. Tivessemos nós seres humanos bom senso, soubéssemos naturalmente a diferença entre o bem e o mal, soubessémos respeitar e dar-nos ao respeito, poderíamos então abolir todas as leis e as estruturas que criamos para impedir a instalação do caos entre nós. Como indivíduo ainda é possível agir com bom senso. Longe de todo bom senso as organizações sociais tem sido e continuarão sendo insanas; pois o papel delas é mediar a loucura dos diversos indivíduos que a compõem; sem suas leis estes indivíduos-sem-bom-senso se aniquilariam. Em um mundo de loucos a democracia se apresenta, então, como o melhor dos instrumentos para evitar a prevalência da loucura. Mas esta mesma democracia não passa de uma concessão que generosamente fazemos a cada indivíduo insano para que ele possa prolongar sua insana existência infeliz. Não termos nenhuma lei e vivermos por nosso bom senso continua sendo o melhor dos ideais; porém entregar todos os outros ao caos de sua insensatez seria um preço alto de mais para a boa consciência de um bom anarquista. Não seria uma opção valida para quem realmente tem bom senso, não seria uma atitude de pessoa que sabe o que é o bem, não seria uma ação que comunica respeito ao outro. Portanto não é uma opção válida para um bom anarquista. Os maus anarquistas continuam em seu delírio de atear fogo a tudo; querem voltar a ser caçadores e presas. Assim como os maus democratas querem normatizar tudo e fazer de todos presa sua.

Resta ao bom anarquista conceder, porém sem se submeter; sabendo que este não é o melhor dos mundos, não é o seu lugar.



biel

=p



Egeu Laus

(…) Não há contradição alguma entre a busca de meios liberais e democráticos combinada com a defesa de fins socialmente radicais.

E não só não há contradição, senão que nada nos induz a pensar que seja possível alcançar fins sociais radicais por meios que não sejam liberais e democráticos.

Nem a história, nem a natureza humana, aportam razão alguma em defesa dessa possibilidade. Há quem pense que os que estão no poder jamais o abandonarão de moto próprio, se não se lhes forçar a fazê-lo empregando um poder ainda maior, porém esta idéia só pode ser corretamente aplicada no caso de ditadores, os quais pretendem estar atuando em nome das massas oprimidas, quando o certo é que estão fazendo uso do poder contra essas mesmas massas.

O fim da democracia é, por si mesmo, de natureza radical. Pois se trata de um fim que jamais chegou a ser atingido em nenhum país e em nenhuma época. É um fim radical porquanto requer grandes mudanças nas instituições existentes, nas instituições sociais, econômicas, legais e culturais.

Quando o liberalismo democrático não reconhece esses pontos, nem na teoria, nem na ação prática, deixa de ser consciente de seu próprio significado e das exigências que este impõe.

Ademais, não há coisa mais radical do que insistir na articulação de métodos democráticos que sirvam como meios para efetuar mudanças sociais radicais. É assim que não falamos por falar quando qualificamos de reacionária a posição que confia implantar-se pela superioridade da força física. Pois este é o método de que o mundo vem dependendo até agora, um método com o qual o mundo volta a armar-se para a sua perpetuação.

É fácil entender por que os que convivem com as iniqüidades e as tragédias cotidianas que caracterizam o atual sistema, por que os que são conscientes de que, afinal, contamos já com os recursos necessários para implantar um sistema que garanta a segurança e a igualdade de oportunidades para todos, hão de mostrar certa impaciência e anseiem acabar com o atual sistema, não importa qual seja o método. Porém a obtenção dos fins democráticos não pode divorciar-se da aplicação de meios democráticos.

Temos que acalentar a esperança de que o ideal democrático renasça e se coesione em uma ampla mobilização. Porém esta causa não alcançará mais que vitórias parciais se não brotar de uma verdadeira confiança em nossa natureza humana comum e no poder da ação voluntária e baseada em uma inteligência pública e coletiva”.

Essa é a parte final do texto de John Dewey (1859-1952), o chamado filósofo da América, intitulado “A Democracia é radical”, quando ele já tinha quase 80 anos, publicado no jornal Common Sense # 6, em janeiro de 1937, portanto há 70 anos atrás.

Acho que continua valendo…



Egeu Laus

Para os interessados em Dewey, um texto de Thamy Progrebinschi: A Democracia do homem comum: resgatando a teoria política de John Dewey.



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