O canto remix do pássaro-lira me trouxe à lembrança uma das críticas que muitos intelectuais fazem à cultura do nosso tempo: a de que somos uma época de muita reciclagem e pouca originalidade; de muito material requentado e pouca coisa nova.
O ícone e valente precursor dessa tendência é mesmo o remix – “nova mistura” ou “remexida”. Um remix é uma música feita a partir de trechos (samples, em inglês) de outra, dispostos contra um ritmo diferente, de modo a criar uma coisa nova a partir de retalhos do que já existe. Os remixes nasceram, pela iniciativa dos DJs (disk-jockeys), do desejo de reaproveitar uma música conhecida numa versão mais dançante, devidamente palátavel à pista de dança da discoteca ou da rave. Graças à mágica do remix é possível reinventar um sucesso dos anos 80 apertando-o contra uma mais contemporânea batida trance, ou contemporizar Beethoven emuldurando-o num obstinado tuche-tuche. A remixagem vive no limbo entre a criação e a cópia: trata-se de recortar e colar, pinçar, reciclar, redispor, reemoldurar.
Parente próximo da remixagem é o sampling, técnica pela qual se utiliza um trecho de uma gravação como um novo instrumento ou como base para uma nova gravação. Foi assim que a cantora Madonna criou em 2005 uma canção inteira, Hung Up, a partir da repetição de uma base instrumental do megasucesso de 1979, Gimme, Gimme, Gimme (A Man After Midnight), do grupo sueco Abba.
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Madonna e Abba: Hung Up
A remixagem e o sampling são sem dúvida características proeminentes da nossa cultura – e em vários níveis além do musical. Somos uma metacultura: uma cultura que faz constantes referências a si mesma. No mundo do cinema, em especial, a remixagem está presente em inúmeras instâncias:
- nas seqüências comerciais de filmes de sucesso (Parque dos Dinossauros 3, Velocidade Máxima 2, Alien 4, Sexta-feira 13 13);
- nos filmes baseados em séries de televisão antigas (As Panteras, Os Gatões, Starsky & Hutch, O Fugitivo, A Feiticeira);
- nos filmes baseados em livros ou histórias de quadrinhos (Homem-Aranha, Harry Potter, Batman, O Código Da Vinci, V de Vingança, Sin City, O Senhor dos Anéis, Corpo Fechado);
- nas refilmagens de filmes de sucesso (King Kong, Cabo do Medo, O Pai da Noiva, Sabrina, O Massacre da Serra Elétrica, A Gaiola das Loucas, Onze Homens e Um Segredo)
- nas sátiras de filmes de sucesso (Todo Mundo em Pânico, Top Gang);
- nos filmes baseados ou “inspirados” em fatos reais (A Luta pela Esperança, Erin Brockovich, A Lista de Schindler).
Esse hábito de Hollywood de requentar material testado e aprovado e servi-lo sob nova roupagem está ligado à mesma lógica do trailer que conta tudo: a certeza de que as pessoas preferem submeter-se a conteúdo com a qual já estão previamente familiarizadas.
O problema dessa visão de mundo, opinam os críticos da cultura, é que ela glorifica a reciclagem em detrimento da criação de material original.
Outra instância em que essa tendência fica muito evidente é na blogosfera – o universo dos blogs – que subsiste basicamente do reaproveitamento circular de material encontrado pelo autor em outro lugar da net. Paradoxalmente, poucos blogs são de fato logs – “registros de atividade” ou “diários de bordo” Na verdade, muitos dos blogs mais populares da net, como o vertiginoso boingboing ou o eclético growabrain, são na verdade repositórios de links: o que eles fazem é redirecionar o leitor para uma série de endereços externos que podem ou não ser do seu interesse. “Está vendo?” exigem triunfantemente os críticos. “Muita reciclagem e pouco conteúdo original.” Como resultado, acusam eles, todos os blogs tendem a apontar para os mesmos destinos da rede, requentando incessantemente os mesmos materiais, afogando a criatividade e gerando uma temerária “mentalidade de colmeia”.
O paradoxo final está em que a remixagem toca terrenos perigosos no domínio do copyright. Tecnicamente, um DJ não pode usar legalmente no seu remix um trecho de uma gravação (nem um blogueiro copiar um parágrafo de outro) sem a autorização expressa do detentor dos direitos do material em questão; e, como a obsessão com os direitos autorais é outra característica dominante da nossa época, a dita autorização é freqüentemente difícil de conseguir, especialmente na ausência de alguma compensação financeira e muitas vezes mesmo diante da possibilidade dela.
O paradoxo está em que nossa cultura, que escolheu definir-se pela remixagem, tornou a remixagem particularmente difícil de legalizar.



Bony
Tenho consumido bastante a música eletrônica nestes últimos anos. Curto muito os franceses do Daft Punk, os oitentistas alemães Kraftwerk e também o inglês e ex-baixista do grupo Housemartins, Fat Boy Slim. Todos com grandes linhas de processo criativo – acima da média.
Porém, neste gênero há a necessidade do excesso de samples, sequencers, e alguns tuche-tuche no groove… o que me deixa com saudades do bom e velho rock and roll.
Mas posso dizer que muito do que se tem feito hoje em dia é pura reciclagem e, em sua maioria, de péssima qualidade final. De contrapartida, há estes exemplos (que coloquei acima) onde pode-se encontrar facilmente “good vibes” e música. O lance é encontrar a fonte e depois degustar…
Há um grande reciclador em Londres (cidade mãe do acid jazz) chamado “The Pope” que faz algo com muita qualidade. Como já disse, ele não cria – apenas copia (recicla) mas, faz isto muito bem. Vale a pena conferir.
Luiz Henrique Mello
E ainda, parece haver uma espécie de contrato secreto proibidor da criatividade, de textos originários na alma, de idéias contrárias ao status quo, de fotos fora de um padrão pré-determinado ou ilustrações não enquadradas. Poucos ousam avançar os limites (invisiveis) ai impostos. Dá pra entender, a maioria busca a valorização. A vida é avaliada pelo desempenho. Então é menos arriscado melhorar algo que deu certo do que criar e correr o risco de errar, como se isso tivesse alguma importância.
Manuel Anastácio
Mas conseguem dar um exemplo de algo realmente original hoje em dia? Será que esta crítica não se poderá estender a grande parte da história da humanidade? Não diz sabiamente o Eclesiastes que não existe nada de novo debaixo do sol? Creio que estamos, mesmo, condenados a fingir, apenas, que criamos. Uns com mais capacidade que outros para disfarçar o material reciclado, mas, ainda assim, todos presos às mesmas circunstâncias.
Thom®
A criatividade vem sendo banida de todos os lugares em favor de fórmulas já consagradas (?) de sucesso, de vendas. Para que correr o risco de criar algo novo? Esse algo novo pode dar certo, como pode também dar muito errado. Então não vamos nos arriscar: vamos reinventar a roda e lançá-la novamente como se fosse algo novo. Essa mentalidade fez com que a mente das pessoas ficasse estagnada. O novo, na verdade é velho. E parece que vai ser assim ainda por muito tempo.
Bony
Assisti uma palestra com o tema “sociedade e seus degraus na história”… o preletor afirmou que o momento em que vivemos (pós-moderno) se identifica com a máxima “nada está para ser criado, apenas evoluído ou segregado”.
Assim, baseando-se nisto, nada hoje em dia será visto como NOVO, apenas como EVOLUÍDO, MELHORADO, RECICLADO, UPGRADE, ou até quem sabe, ULTRAPASSADO, REJEITADO, SEGREGADO, ANTIQUADO ou MODERNO DEMAIS PARA UM MUNDO PÓS-MODERNO.
Bony
Para ser honesto com todos, eu acredito que nada mais está para ser criado – apenas melhorado.
Já inventaram tudo antes de nós. Nos cabe melhorar ou arquivar.
Thom®
Seria então aquela máxima “Nada se cria, tudo se copia”? Bom, se tudo se copia, é porque algo foi criado um dia. Ou não?
Manuel Anastácio
Não somos mais que Pierre Menard, o autor do D. Quixote…
Jo Lorib
Do manual do roubador de goiabas do Paulo Brabo: Roubem as maduras!
Como na antropofagia: comam os bispos gordos!
Na música e na blogolândia, tem gente roubando goiaba verde.
Abraços desde S.Paulo
Bony
Thom: Realmente. Já foi criado antes – tudo. Tudo mesmo.
Jo Lorib: Sim. Com toda razão temos péssimos ladrões de goiaba. Principalmente no Brasil, onde o gosto da maioria está direcionado para as verdes. Acredito que tem gente que rouba pedra acreditando ser goiaba.
Acredito que vivemos, no lado positivo da coisa, a cultura fusion, onde “nada se cria, tudo se mistura”. Its very cool…
Basta ver [ouvir] a nova MPB: Lenine, Farofa Carioca, Jairzinho Oliveira, Max de Castro, Mestre Ambrósio, Bossa Cuca Nova… todos peritos nos temperos e misturas de receitas antigas.
Nosso pensamento mais feliz é esquecermos a idéia de invertarmos algo novo, mas sim aprimorarmos (ou derrubarmos) algo velho.
Paulo Brabo
Terei ainda uma palavra ou duas para dizer sobre esse assunto, porém meus antenados leitores, (especialmente o Jo e o Manuel), anteciparam com acerto algum aspecto da minha opinião.
Viu o que fizeram? O que pretendo escrever terá agora de ser em parte reciclagem do já dito por vocês.
José Araújo
Olá Paulo!
Acho que você me trouxe uma excelente ajuda na busca que tenho empreendido para tentar identificar o que há de podre no reino da Dinamarca. A partir de uma visão aérea sobre a história da teologia fui conduzido a uma inevitável constatação de que todo ou quase todo o problema dos nossos antagonismos teológicos é resultante de um erro grave cometido por Agostinho. A praia do bispo de Hipona era a filosofia, e por razões que eu compreendo como parte de uma trama muito maior, Agostinho foi o mentor de uma técnica que trouxe desgraças até os dias de hoje. Como é sabido, a sua influência sobre a história da teologia foi de vital importância ao longo de mais de mil anos após a sua morte, e tem uma fortíssima influência no modo como os teólogos analisam e descrevem a divindade ainda hoje. Agostinho introduziu uma ferramenta na tentativa de entender e explicar os fenômenos metafísicos utilizando um “software” grego para abrir um aplicativo de origem judaica. Foi aí onde toda a desgraça começou, e foi justamente aí onde você pinçou como muita sabedoria a questão do “código fonte” das visões judaico e cristã. Acho que você acertou na veia.
O vírus que foi disseminado a partir de então não foi debelado, e influencia todo o processo de aprendizado e transferência de conhecimento de uma geração para outra dentro do universo das religiões chamadas de cristãs.
Acredito piamente que os problemas da nossa “vã teologia” começaram em Agostinho. Acredito ainda que há muito mais coisas entre o céu e a terra do ela possa açambarcar.
Luiz Henrique (rick)
parece um pouco tarde pra comentar este, mas vamos la.
Acho que na cultura eletronica samplear já não é mais a questao, mas assim como na moda, é seguir tendencias, mas se todos seguem as tendencias, quem as dita??
Acho que no fundo o que falta para os artistas é o espirito critico, talvez até um significado pra fazer os trabalhos nao uma mera troca de algumas horas de gravaçao por alguns miseros reais… que por sinal é uma relaçao sutilmente injusta….
Quem diz quanto deve custar uma musica, ou um quadro? ou talvez uma hora de trabalho?
Eu diria que se o dinheiro ou a aceitaçao é a alma do “negocio” nunca vai ser original, e autenticidade nao é bem uma qualidade nos nossos dias…