07 de Junho de 2006

De Maringá para Vila de Rei

Auditado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Goiabas Roubadas, The Net

Portugal sofre de, pelo menos, dois grandes flagelos demográficos: uma drástica diminuição da natalidade, com um substancial aumento da esperança média de vida, e a desertificação humana do interior. Isso faz com que zonas inteiras da faixa leste do país estejam reduzidas a dúzias de velhos solitários, artificialmente arrebanhados em Lares da Terceira Idade, a que se dá, por vezes, nomes que seriam cómicos se não fossem cruéis. A uma dessas casas botaram o nome de “Última Morada”, e outras afinam pela mesma espécie de bom-gosto. Juntando a tudo isso, vem o verão todos os anos levar o que sobra de uma antiga floresta nacional, alargando os horizontes num sem-fim de milhares e milhares de figuras esguias e ressequidas de árvores queimadas.

Quanto mais longe de Bruxelas, de Estrasburgo ou de Paris, melhor é Portugal.

Não é um problema especificamente português. O que será especificamente português é essa divisão do país em Litoral e Interior, essa desertificação que assola a zona mais próxima dos centros de decisão da União Européia, a região que poderia, teoricamente, atrair população, quadros, dinheiro, investimento, a faixa do território que mais poderia beneficiar da integração de Portugal na União. Mas não é assim. Quanto mais longe de Bruxelas, de Estrasburgo ou de Paris, melhor é Portugal – ou pelo menos assim julgamos nós. É um Estado-Membro ao contrário. É como se na América as regiões de um Estado fossem tão mais desenvolvidas quanto mais afastadas de Washington ou de Nova Iorque. Portugal olha para a Europa, a que pertence, às curvas, através do mar e do ar. Por terra, o histórico peso da Meseta impede os portugueses de ver e de entender a União em linha recta. Tudo o que tenha de passar pela Meseta faz tremer o peito.

Vem isto a propósito de um fenómeno singular que está atraindo as atenções para Vila de Rei. Aquela vilinha pequena do distrito de Castelo Branco, na chamada zona d’ “O Pinhal”, tem a particularidade de ser a povoação que fica no centro geográfico de Portugal, bem perto do Alto de Milriça – o centro geodésico do país. E padece do outro mal que desertifica o interior: a emigração, que leva os poucos jovens que a terra inda produz. Vêm à ideia os versos de Rosalia:

“iste parte e aquel parte
e todos todos se ván,
Galiza sen homes quedas
que te poidan traballar”…

Pois teve o município de Vila de Rei uma idéia original: chamar gente do Brasil para repovoar o concelho.

Teve o município de Vila de Rei uma idéia original: chamar gente do Brasil para repovoar o concelho.

Chegaram as primeiras quatro famílias inteirinhas, de Maringá, Estado do Paraná, oito adultos e seis crianças.

Portugal tem 500.000 imigrantes, na sua maioria eslavos ou africanos, que, aliás, preferem os grandes centros litorais. Mas chamar gente do Brasil, e para o interior, tem um gostinho especial e refresca a língua. Inverte os caminhos da História e, quem sabe, um dia refrescará também a toponímia.

José Cunha-Oliveira – de Olivais, Coimbra, Portugal – piloto do notável Toponímia Galego-Portuguesa… e Brasileira,
de onde arrebatei este documento

* * *

“Brasileiros chegaram há um mês a Portugal e ‘estão adorando’”, diz esta nota do Portugal Diário.

À porta da casa dos brasileiros há quem deixe diariamente fruta, legumes, ovos, azeite, vinho.



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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