03 de Junho de 2006

Das peregrinações

Apresentado sem comentários por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

O nascimento do Homem está hoje em dia associado a tantas rupturas no tecido das coisas que seria impossível catalogá-las todas, quanto mais precisar a influência de cada pequena e aparentemente fortuita ruptura sobre as outras, especialmente sobre as de maior estatura e mais vastas conseqüências.

Um número extraordinário desses pequenos acidentes (e, segundo julgam alguns, os mais importantes) aconteceram antes que o Homem desse o primeiro passo ou proferisse a primeira palavra.

Sem levar em conta que a própria expectativa do nascimento pode ser considerada, ela mesma, uma fecunda ruptura, costuma-se dizer que a longa e complexa cadeia de eventos que acabou desencadeando o quebrar dos vasos começou com as peregrinações – paradoxalmente, portanto, antes que o Homem pudesse exercer seu arbítrio ou estabelecê-lo.

As peregrinações tiveram início, ao que se saiba, logo na noite do nascimento ou no dia seguinte – tendo sido precipitadas, evidentemente, pelo inusitado e unânime desabrochar de todas flores sobre a face da terra. Como já foi várias vezes observado, o evento literal em si parece não ter sido antecipado por qualquer profecia corrente naquela época – não, pelo menos, em qualquer uma que tenha sobrevivido. Não se tratava, portanto, de acontecimento que tivesse de ser necessariamente associado ao nascimento do Homem, embora aparentemente nenhuma tribo tenha deixado de fazê-lo.

A interpretação do evento foi universal o bastante para abrir o que o décimo-quinto poema do Livro dos Autos chama de “Vereda Odorosa de Zeunz” (manhã e manhã e manhã/de perfumada cor entoam seus auspícios/e caminham todos os homens em aéreas correntezas/lufada odieterna sobre a trilha que revelará quiçá dentre nós o Homem).

“Todos os homens” é hipérbole; as peregrinações, embora generalizadas, raramente envolveram mais do que dois ou três membros de cada remonte ou tribo. Não se conhece, no entanto, nenhuma nação que não tenha empreendido com sucesso a travessia pela invisível e onipresente Vereda de Zeunz, que cruzava todos os caminhos e terminava em Adão. Os representantes de todos os homens acabaram em algum momento tomando o menino no colo ou abraçando as pernas do Homem.

Crônica das instâncias do Homem

  1. Do nascimento do Homem
  2. Da família do Homem
  3. Das peregrinações


Inquisição


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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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