N A TERRÍVEL NOITE em que Adão nasceu os seres humanos do planeta inteiro ficaram sabendo, porque depois de séculos de intensa e curiosa expectativa todas as flores da terra se abriram, quase que simultaneamente, pela primeira vez.
O firmamento dobrou-se silenciosamente sobre a terra, despertando repentinas ventanias e tempestades, apagando tochas e fogueiras, levando para impossivelmente longe, em correntes invisíveis, o inédito perfume de jasmins, camélias, damas-da-noite e açucenas. As flores desabrochadas e recém-descobertas foram entusiasticamente comparadas a estrelas, nuvens, rochas, mãos, olhos, seios e orgãos sexuais.
Foi noite de improvisos, banquetes organizados às pressas e de tremendos e entusiásticos festejos. A luz das tochas, uma vez reacendida, só foi obscurecida pela luz do sol da manhã seguinte.
Impossível mencionar todos os odes, balés, repentes e autos compostos, apressados e encenados naquele dia e ao longo daquela semana. Costuma-se dizer que estão todos compilados no Livro dos Autos do Nascimento do Homem e no Cancioneiro Bragado de Baldres (hoje perdido), mas os que o afirmam ignoram por completo, por exemplo, o conteúdo do Livro Insular de Poemas do Amado e os curiosos treze anexos “Ao Homem” do Compêndio das Paixões da Noite Oriental. Há ainda três fontes adicionais mencionadas pelos anônimos editores do Compêndio que nunca foram rastreadas com sucesso e sobre cujas tribos sabe-se menos do que sobre as insulares; uma dessas obras, listada simplesmente como Aroelle Buche, é sem dúvida nortesa, porque seu sumário menciona (inesperadamente) o sobrenome Cavenou.
Finalmente, é ainda anacronismo chamar o recém-nascido de Adão, quando o nome efetivamente surgiu tanto tempo depois e em circunstâncias tão diversas. Naqueles dias, naturalmente, não ocorreria a ninguém chamar tanto o menino quanto o homem que brotou dele de outra coisa que não Homem.
Crônica das instâncias do Homem
- Do nascimento do Homem
- Da família do Homem
- Das peregrinações
