A última das três casas em que moramos em Londrina, na rua Mamoré, era muito simples mas era nossa – nossa primeira casa própria. Eu tinha perto de dez anos, jogava futebol todas as tardes na rua de baixo, beijava a vizinha de cinco anos na boca pela fresta da grade (a Renata, onde quer que esteja, fazendo terapia por minha causa), observava as batalhas aéreas dos que soltavam pipa no campinho e, quando tudo isso faltava, desembainhava um volume aleatório da enciclopédia Conhecer e sentava no sofá que ainda hoje assombra a sala da casa dos meus pais. Era uma vida justa.
Mas tinha seus momentos de especial epifania, quando descia a rua, vinda da Araguaia, uma carroça guiada por um santo, puxada por um Rocinante e seguida por procissões de quebrantados fiéis que éramos nós. O carroceiro segurava as rédeas numa mão e usava a outra para abrir a tampa do baú de madeira atrás de si e nos tentar com as cintilantes moedas do seu tesouro: pilhas douradas de pães arredondados, perfumados, açucarados e macios, coroados com uma espiral grossa de creme amarelo – aquele tipo de pão que já vi chamarem de chineque e brioche, mas que chamávamos com menos controvérsia de pão doce.
Em casa estávamos, como eu ia dizendo, longe de sermos ricos, e a rígida filiação de meus pais à ética protestante impedia que caísse nas mãos de nós, filhos, qualquer dinheiro que pudéssemos gastar “com bobagem”. Na prática isso significava que nunca – jamais, senhoras e senhores – levávamos dinheiro para comprar lanche na escola; que nunca abrilhantávamos a fila do pátio com o mais novo modelo de tênis ou os cadernos da moda; e – no que me diz respeito muito mais sério – que não lembro ter experimentado uma única vez aqueles bem-aventurados pães-doces nos anos em que moramos naquela rua.
A centrada economia de meus pais, por outro lado, permitia que convivêssemos com engenhos com que o pessoal da rua nem sequer sonharia: TV em cores, telejogo, microscópio, máquina fotográfica Minolta, telescópio desmontável, um número obsceno e sempre crescente de enciclopédias e livros. Esse tipo de bobagem.
Não se pode ter tudo. Sempre fui um cara mais ou menos frugal, e meus sonhos de consumo naqueles dias eram um pão doce do tio da carroça e o exemplar seguinte da coleção Os Bichos. Meu pai nunca – jamais, senhoras e senhores – deixou faltar o segundo. Meus amigos da rua tinham os dois ou três pães doces que as mães deles levavam para casa; eu examinava uma movimentada gota d’água no microscópio da Alice. Difícil dizer quem se saciava mais.
Fato é que data daquela época minha fascinação, meu absoluto delírio, por broas e pães doces, especialmente aqueles cuja configuração me remete à rua Mamoré e ao padeiro que vinha do céu. Sei por essa razão, de fonte fidedigna, que o Paraíso é terra que mana creme amarelo – e falo daqueles cremes de um amarelo vivo, absolutamente não-sofisticado, que se alinham com freqüência a farpas de coco e vomitam às vezes os sonhos.




Carol
Definitivamente está explicado o porquê gosta tanto desses pãzinhos com creme amarelo!!!!!!
Alice
Lembro disso tudo. (Só não sabia dos beijos na Renatinha.)
Era nessa casa que nós, pra fugir do tédio noturno e da repetitiva monotonia da TV com pocuos canais dominados a noite pelo pai, escrevíamos o Jornal da Casa, aquele jornal que vc já apresentou aqui na Bacia.
Não éramos ricos, mas estávamos longe de ser pobres. Tínhamos uma vida além dos horizontes da Rua Mamoré ou Araguaia. Eu lembro que, naquela casa, eu sentava com os velhos livros de Inglês do pai (que já tinha feito o mesmo) e tentava aprender a nova língua por mim mesma. Quem diria que um dia ia realmente precisar da segunda língua?
Sobre os pães doces nunca me chamaram tanta atenção porque, diferente do Paulo, eu não ficava na rua. Ficava em casa lendo os livros que emprestava da Biblioteca da escola, deitada na cama clara do calor de Londrina. Minha tarefa diária era chamar o Paulo pra entrar. Talvez, na memória dele, seja a minha voz que quebre os encantos dos sonhos de pão doce.
hernan
Hmmm
Há controvérsias. Que eu saiba, o Paraíso é abastado de pizzas de váriados sabores, principalmente portuguesas e quatro queijos, além de uma infinidade de espécies de chocolates.
bete
Aqui em São Paulo ainda passa um sujeito, numa velhíssima Kombi, vendendo esses pães doces com creme que levam o nome de vanderléias. Acredito que o nome venha da cor do cabelo da tal cantora. Ele vende também o sonho de padaria, e o pudim de padaria, doces que se não constarem do cardápio celeste, muito irei reclamar.
rubens pires de lima osorio
Meu “pão doce” são os “sonhos”, aquele pão doce, em forma de bola, recheado de creme amarelado e cobertura de açucar… huuummm. Até hj, aos 54 anos, ainda paro, vez ou outra, na padaria pra saborear um sonho.
Paulo Brabo
Sonho é ainda melhor do que pão doce, tenho de admitir, desde que seja de creme – não me venha com nata, doce de leite e goiabada que são heresias baratas. Em algumas ruas de Curitiba ainda passa a combe que anuncia evocativamente: “É o carro do sonho que está passando…”
bete
Carro do sonho? definitivamente, preciso me mudar pra Curitiba…
Carol (ZoOOm)
”…traga a vasilha.
Sonhos de nata, creme, doce-de-leite, e goiaba o sonho freguesia…”
Alice
Traga a vasilha não é pro sorvete? 3 bolas a UM REAL? :)) Traga a vasilha.
volney
Hoje que tenho uns trocados a mais na carteira não pego na padaria porque o tal do regime me persegue.
Quem não sonhou com pão doce, não foi criança em sua plenitude.
Michio
Pão doce! Minha casa, que era uma chácara-granja no lado de baixo da BR-369, era abastecido deste pão e de outros pães que o tio da carroça nos entregava todas as manhãs. Puxa, que saudosismo me despertou! Rua Araguaia e outras ruas adjacentes faziam parte do meu universo, além das matas, cafezais e capinzais ao derredor do rio paralelo à BR-369… Paulo e Hernan, está sendo um prazer enorme conhecer os habitantes do mesmo paraíso que foi Londrina de velhos tempos – no caso…. anos 60… e a de vocês? Fui um japonesinho quieto das classes da Nilo Peçanha, e tu?
Ricardo
Também vivi em Londrina, também nunca – jamais, senhoras e senhores – levei dinheiro para a escola.
Longe de ser pobres, mas também muito longe de poder comprar uma mísera televisão preto e branco, fui obrigado a contentar-me com a mamãe narrando as travessuras de Narizinho de Monteiro Lobato na cabeceira da minha cama até cair nos braços calmos de Morfeu.
O pangaré do Polaco que vendia favos de mel nunca – jamais, senhoras e senhores – ouviu o tilintar de um centavo meu, mas o jornaleiro que vendia Conhecer me conhecia pelo nome e já guardava meu exemplar na data sagrada de sua chegada.
Na sua ética socialista – papai, agnóstico, pouco se familiarizara com Weber e a ética protestante – ele considerava que dinheiro não podia ser mal gasto com papel higiênico – nos limpávamos com os mais grosseiros e baratos, daquelas marcas que ficam escondidas nas prateleiras mais baixas das mercearias, mas não faltavam – nunca, jamais senhoras e senhores – livros de história espalhados pela casa.
V.A.Purim
Existem vasios nesta história…
Quando na clássica ligação telefônica para saber se na volta a noite precisava levar pão (bread) fosse interceptada pelo guloso que queria que trouxesse “chocoiate” e “onho” e não deixava desligar antes que houvesse algum remoto comprometimento em atender os seus desejos. “Traiz né Paié… Traiz…”
Paulo Brabo
Está aí meu pai que não me deixa mentir.
hernan
Oi Michio! Você por aqui!
Agora que conheceste as letras do Paulo estou certo de que jamais deixarás de acessar esta Bacia.
Ah, não sou paranaense não viu! Sou, caipira, do interior de SP. Como vai aí pelo Oriente?
Michio
Olá, Hernan, sou um que cometeu a imprudência de solicitar o recebimento de e-mails do blog Bacia… de modo que já sou um leitor costumaz do Paulo, há um tempo, rs…
Paulo, parabéns pelos textos, que além de nos trazer ótimas reflexões lascando belo espanador sobre a poeirenta ortodoxolatria que impera no meio cristão, agora vi que também são capazes de me remeter de volta às ruas e matas daquela velha e saudosa cidade de Londrina, toda coberta de poeira da terra roxa. Paulo, vc que morou nas proximidades da rua Araguaia, por acaso fez primário na Nilo Peçanha? Aquele Grupo Escolar que ficava na mesma rua…
Paulo Brabo
Michio, estudei que eu me lembre em três escolas de Londrina, nenhuma das quais foi o Nilo Peçanha: o Santa Maria, o Hugo Simas e o Carlos Dietz. Se bem recordo quando morávamos na Mamoré (que desembocava na Araguaia, onde tomava-se ônibus para ir ao centro) eu estudava neste último. Saímos de Londrina para Bauru no começo de 1979, o que quer dizer que podemos estar eu e você separados por cerca de uma década no tempo.
O padeiro da carroça, que era eterno, deve ser o mesmo.
Alice
Paulo, explique pro Michio que nós moramos em 3 casas diferentes em Londrina. A primeira era na Rua Generoso Marques, bem na frente da saída do estacionamento do Country Club. A segunda casa foi na Rua Florianópolis. perto do INPS da Rua Belo Horizonte. Moramos muitos anos lá. A terceira foi a da Rua Mamoré. Ficamos na casa da Rua Mamoré, na Vila Nova, pouco mais de um ano e daí mudamos pra Bauru, em 1979.