06 de Outubro de 2006

Continente

Depositado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Minha doença, qualquer que seja, tem de ser a origem da febre, e a febre do delírio. Sonho a noite inteira e todos os dias, mas de nada recordo além da vertiginosa vigília, que é esta enfermaria comprida, meu corpo como um continente sobre a cama e a fileira de leitos brancos, imaculados e idênticos e vazios. As portas de correr da enfermaria estão sempre abertas, e na parede do corredor vigia um enorme espelho horizontal.

Os leitos são de ferro; há treze deles, seis numa parede, sete na outra, e folgam todos sob acolchoados brancos de pena como os que vivo chutando para fora da cama. Ao lado de cada leito, no topo de mesinhas altas de pernas finíssimas, equilibram-se uma bacia de cêramica e uma jarra. Vivem vazios, inclusive os meus.

Quando o acolchoado resvala para o chão, empurrado pelo meu pé ou puxado recatadamente pela enfermeira para algum exame, não deixo de me surpreender ao ponto do êxtase com as minhas pernas, com o tanto que são peludas. Estão ainda bronzeadas por algum sol de que não me recordo o formato, e concluo todas as vezes que não posso estar aqui há muito tempo. A enfermeira é loira, masca chicletes e cantarola para si mesma. Fico imaginando se quando chega em casa, antes de tirar o uniforme branco e com as mãos apoiadas na pia, não brota nela o desejo incontrolável de quebrar com a testa o espelho do banheiro.

* * *

Meu corpo como um continente sobre a cama.

O livro na cabeceira chama-se Ars Combinatoria e está escrito numa mistura de inglês e latim. Adormeço tropeçando nos diagramas e rumino diurnamente os parágrafos brancos como se a persistência, talvez a febre, pudesse revelar o sentido.

Ora, não sei que dia é hoje, não sei meu nome e não sei em que época estamos. E convenço-me imediatamente de que não faz diferença.

Enfim.

* * *

São doze leitos e cada um fica mais perto da porta do que o meu. Fico imaginando se não serão alguma metáfora retardada para a progressão da minha doença. Talvez eu devesse mudar secretamente de cama a cada dia, tomando cuidado, é natural, com os mínimos detalhes, para que a enfermeira jamais chegasse a perceber. Talvez devesse dedicar cada estação a um estágio da doença, cada leito da peregrinação a um deus hindu ou a um signo do zodíaco. No último dia eu me levantaria inteiramente são e sairia porta afora e seria só sorrisos e arrebentaria a cabeçadas o espelho do corredor, com gosto e deliberação.

Posso pensar em permutar um dia pelo outro, uma divindade pela seguinte, uma vida pela outra, e fica elas por elas. Vou para casa como a enfermeira e deixo para trás na enfermaria o homem de pernas peludas.

Incrível seria, talvez, se fosse diferente.

* * *

De novo essas pernas. Caramba.

* * *

Sonhei que havia chegado finalmente, um dia lentíssimo após o outro após o outro, num trajeto de treze dias e como quem varre um deserto, ao final da branca fileira de leitos. Quando levantei-me e saí garboso para o corredor e olhei para trás, antes de encarar o espelho, vi no letreiro que não tinha estado numa enfermaria mas no necrotério.

Sonho besta.

* * *

Acordei para o dia terrivelmente branco. Livrei-me imediatamente do acolchoado.

A enfermeira de hoje era loira e mascava chicletes. Ficava cantarolando para si mesma enquanto me percorria a perna.

* * *

Está escuro e acordo apavorado com uma presença na cama.

Alguma brincadeira estúpida, algum estudante embriagado ou alguma aposta infeliz. Afasto depressa o acolchoado e na luz varrida aqui para dentro pelo espelho vejo com horror uma perna amputada sobre a cama. É peluda como a minha, as coxas grossas e os pêlos nítidos e encaracolados e negros, e está inerte e quente e suada e alguém largou aqui. Berro a plenos pulmões pela enfermeira que não vem. Berro mais, querendo me livrar sem qualquer trâmite daquele membro morto e carnal e alienígena; nauseado, acabo empurrando sozinho, com as duas mãos, a coisa para fora da cama.

Caio imediatamente da cama, mas não consigo por mais que queira perder os sentidos.

A perna alheia aquece-me a barriga, e termino abraçando-a porque foi aparentemente enxertada em mim.

* * *

Nada que a enfermeira possa fazer pode me prejudicar. Ou: eu não teria na verdade como saber. Ou como lembrar. Olho ao redor: onde posso anotar isso?

* * *

A febre recuou e tento recuperar a leitura, mas o livro está marcado de formas que não consigo entender e isso me tira do sério. Que são essas orelhas dobradas para dentro, e essas marcas grifadas a unha? A impressão, que logo abandono, é que esboçam uma mensagem.

* * *

Acordo sob a opressão das cobertas e reviro-me convulsivamente para livrar-me delas. Berro pela enfermeira, sabendo que ela não vem. Vinte minutos depois, quando quedo exausto e suado no leito do meu próprio suor, sem lograr êxito e sem qualquer alívio, entrevejo o acolchoado no chão e entendo que o que me pesa sobre o corpo, aquilo de de que não consigo me desvencilhar, é a minha carne.

* * *

Daqui a mil dias, está decidido, receberei alta. Só então, na saída e pelo espelho do corredor, verei que a enfermaria atrás de mim está cheia de feridos de guerra.

Ou assim me parecerá.

* * *

Saio do prédio naturalmente, ajeitando o cabelo e comentando com as colegas sobre o homem na enfermaria tal, que migra todo dia de uma cama para a outra como se eu não estivesse percebendo.

As meninas perguntam se é o cara das pernas peludas. Confirmo, acenando debaixo do guarda-chuva e caminhando pelo pátio na direção do ônibus. Impele-me a serena e silenciosa convicção da minha identidade, a pressuposição absolutamente natural de que nunca foi outra pessoa.

Mas não tenho na verdade como saber. Onde posso anotar isso?

Insegura de repente quanto ao cabelo, arrependo-me não ter me olhado com mais atenção no espelho do corredor.



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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