O argentino, à diferença dos americanos do norte e de quase todos os europeus, não se identifica com o Estado. Isso pode atribuir-se à circunstância de que, neste país, os governos costumam ser péssimos, ou ao fato geral de que o Estado é uma inconcebível abstração (o Estado é impessoal: o argentino só concebe uma relação pessoal. Por isso, para ele, roubar dinheiro público não é crime).
O certo é que o argentino é um indivíduo, não um cidadão. Aforismos como o de Hegel, “o Estado é a realidade da idéia moral” parecem-lhe piadas sinistras. Os filmes elaborados em Hollywood repetidamente propõem à admiração o caso de um homem (geralmente um repórter) que busca a amizade de um criminoso para entregá-lo depois à polícia; o argentino, para quem a amizade é uma paixão e a polícia uma máfia, sente que esse “herói” é um incompreensível canalha.
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O mundo, para o europeu, é um cosmos, em que cada um corresponde intimamente à função que exerce; para o argentino, é um caos. O europeu e o americano do norte julgam que deverá ser bom um livro que mereceu um prêmio qualquer, o argentino admite a possibilidade de que não seja ruim, apesar do prêmio.
Jorge Luis Borges, em 1946, escrevendo sem saber sobre as semelhanças entre brasileiros e argentinos.




