O behemoth e o leviatã freqüentavam as mesmas espeluncas mas nunca se falavam, imersos que estavam numa acirrada disputa de poder. Ambos arrastavam ao redor de si um séquito protetor de pardas monstruosidades menores, que serviam-nos na esperança de algum benefício, e de mulheres fascinadas pelo vertiginoso prestígio e pelos dois ou três dias necessários para meramente percorrer as vastidões de seus corpanzis.
O conflito entre os dois monstros era circular e estilizado como uma coreografia. Bastava o leviatã mandar baixar o volume do rádio do botequim e o behemoth, do outro lado do salão, reclamava em voz alta e desgastada, encomendava mais uma porção de ostras e mandava um assecla aumentar o volume. O leviatã chamava o dono do bar e explicava que nunca mais voltaria àquela casa se fosse para ser insultado com música tão atroz e companhia ainda inferior. Deixava na mão do sujeito uma nota graúda, pedia uma champanhe e mandava baixar o volume.
As noites terminavam três ou quatro provocações depois em troca indignada de insultos e pancadaria – sendo que à verdadeira violência os chefões eram imunes, protegidos que estavam por camadas servis de brutamontes. Morriam um guarda-costas ou dois, uma mulher quebrava a unha e choramingava, o dono do bar dava-se por feliz se seu estabelecimento não era destruído por completo.
Certa vez o leviatã mandou ao behemoth um cartão convidando para um encontro de paz, somente os dois “sozinhos sem truques”, para discutir assuntos de interesse de ambos. O behemoth, como prova de boa vontade e para demonstrar que aceitava, mandou de volta o mensageiro fatiado numa enorme travessa.
Encontraram-se em terreno neutro, num speakeasy sobre uma faixa de mangue no pântano do Cipreste Grande. Entraram sozinhos, por portas diferentes, e sentaram-se numa mesa iluminada junto do palco, antes do primeiro show da noite. O acordo era “sem armas”, mas o behemoth carregava uma pequena pistola de madrepérola presa ao tornozelo, logo acima de polaina, e o leviatã trazia no bolso do paletó uma cigarreira que era também um soco-inglês e, na manga um punhal que podia produzir facilmente com a outra mão.
Uma meia dúzia de gatos pingados, que cada um dos mafiosos supôs ser comparsa do outro, entediava o salão de resto ainda vazio.
– É sobre Deus – anunciou o leviatã, espraiando as mãos imensas sobre a mesa.
O behemoth mexeu-se desconfortável na cadeira.
– Você sabe que não gosto de falar sobre Deus – falou em voz baixa. – Ele tem agentes em toda a parte.
– Ou é isso que ele quer que a gente pense – o leviatã mordiscou de leve o charuto.
O behemoth desviou os olhos.
“Você sabe que não gosto de falar sobre Deus. Ele tem agentes em toda a parte.”
– É sabido que ele quer a nossa pele – prosseguiu o leviatã, inclinando-se para trás na cadeira. Semicerrou os olhos. – Mas ele sabe desde o começo que o único jeito de nos derrotar é nos colocando um contra o outro. Enquanto durar a nossa parceria estamos seguros. Enquanto resistirmos aos subornos dele.
O behemoth arregalou os olhos na direção do outro, mas permaneceu em silêncio.
– Sei que ele deve estar te mandando presentes – provocou o leviatã. – Eu de minha parte devolvo os meus ainda no pacote. É bem da índole dele, tentar conquistar a fidelidade de quem despreza com agrados.
– É por certo menos ofensivo que os seus insultos – opinou o behemoth.
– Bah! Insultos! – esclareceu o outro em voz baixa e carinhosa. – Você sabe muito bem que esse é o nosso show particular. Combinamos isso há muito tempo.
– Há tempo demais – o behemoth brincava com o anel de ouro. – Porque a trégua?
– Quero combinar uma coisa – confidenciou o outro. Ele exalou o ar do charuto, levou o rosto até junto do do adversário, tão perto que seus bigodes se tocavam, e exigiu em voz impossivelmente grave: – Na luta final, se houver, você cai primeiro. Eu fico em pé por um momento e desabo também. Fingimos de morto. Esperamos o homem se aproximar para conferir e caímos em cima dele juntos. Juntos a gente acaba com ele.
Afastou o rosto e devolveu o cigarro à boca.
– Isso se ele não mandar o Anjo da Morte fazer o serviço sujo, como sempre faz – objetou o behemoth.
– Ah, na luta final, se houver, ele virá pessoalmente conferir. Posso garantir. Mas talvez, se o que dizem é verdade, nada disso será necessário. Quero só deixar ajustado. Estamos combinados?
Estendeu a mão corajosamente sobre a mesa.
O behemoth vislumbrou o cabo da adaga dentro da manga do leviatã, e ao mesmo tempo em que estendia a mão direita para fechar o acordo abaixou o braço contra a perna para sacar a pistola com a esquerda.
No momento seguinte estavam os dois imóveis, sangrando o chão ao redor da mesa, mortos ou talvez esperando que Deus se aproximasse para conferir.
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rubens pires de lima osorio
Os corpanzis nem haviam se esfriado ainda, e Le Jr e Beninho, braços direitos de seus respectivos falecidos chefes já se preparavam para eliminar possíveis adversários internos, enquanto vociferavem ameaças de vingança contra a gangue rival. E tudo voltou ao que era antes…
Manuel Anastácio
Provavelmente o único Western teológico que li até hoje. Parabéns!