Em 1943, no primeiro parágrafo de uma reflexão sobre o Vathek de William Beckford, Jorge Luis Borges escreveu:
«Tão complexa é a realidade e tão fragmentária e tão simplificada a história, que um observador onisciente poderia redigir um número indefinido, quase infinito, de biografias de um homem, que destacassem acontecimentos diferentes, e teríamos de ler muitas delas antes de compreender que o protagonista é o mesmo».
Borges, que cria (ou fingia crer) que cada homem é todos os homens, sugere aqui o esboço de uma doutrina ou de um conto fantástico a que nunca deu forma final. Posso resumi-lo assim: toda a literatura e toda mitologia e toda as narrativas populares contam, independentemente, acontecimentos diferentes de uma mesma e única biografia; apenas não lemos um número bastante delas para reconhecermos que o homem que retratam é o mesmo. Todas as histórias, de um Ulisses a outro, são descrição parcial das contradições e percalços desse vasto e solitário protagonista.
Todos os homens são um único homem. Com outro vocabulário, Jesus propõe vertigem semelhante: “Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes”.


Pacificador
“Ricardo Reis não se pergunta ‘quem sou?’ mas ‘quem somos?’, e isto faz toda diferença.
Sabendo que nunca terá resposta à primeira pergunta:
‘Sim, sei bem
Quem nunca serei alguém (…)
Que nunca saberei de mim’
Fernando Pessoa encontra nele o consolo numa generalização filosófica:
‘Quem nos conhece, amigo, tais quais fomos?
Nem nós os conhecemos’.
Ricardo Reis tenta reduzir o vazio subjetivo ao ‘nada’ da condição humana em geral, numa racionalização que dói menos do que o sentir individual.
Distanciado, altivo, Reis encarna a suprema utopia da renúncia:
‘Nada nos falta, porque nada somos
Não esperamos nada
E temos frio ao sol’.
Em Reis o desejo é mantido em grau zero:
‘Nada quero’
Que é um ‘não quero querer’.
Só por isso o personagem pessoano pode afirmar:
‘Vivem em nós inúmeros (…)
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados (…)
Disputam quem sou.
Ignoro-os.
Nada ditam
A quem me sei: eu ‘screvo’.
hernan
“não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos”.
Paulo, apóstolo, aos colossenses, capítulo 3, verso 11.
“Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém”.
Paulo, apóstolo, ao romanos, capítulo 11, verso 36.
Manuel Anastácio
Com um verdadeiro acto de fé na unidade humana, venho dizer que, finalmente, já consigo aceder à Bacia! Abraços.
Paulo Brabo
Manuel, comamos e regozijemo-nos, porque o acesso estava perdido e foi achado. Seja bem-vindo de volta.
bete
…não é preciso fazer nada para se estar na alma de tudo… cecília meireles.
Carol (ZoOOm)
Algo como:
…Tudo e todos tem sua origem mais remota em Deus…
O Silmarillion – J.R.R.Tolkien
Farah
Tu és Deus.
(Robert Heinlein, “Um Estranho Numa Terra Estranha”)