31 de Agosto de 2006

As biografias do homem

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Traduzindo Borges

Em 1943, no primeiro parágrafo de uma reflexão sobre o Vathek de William Beckford, Jorge Luis Borges escreveu:

«Tão complexa é a realidade e tão fragmentária e tão simplificada a história, que um observador onisciente poderia redigir um número indefinido, quase infinito, de biografias de um homem, que destacassem acontecimentos diferentes, e teríamos de ler muitas delas antes de compreender que o protagonista é o mesmo».

Borges, que cria (ou fingia crer) que cada homem é todos os homens, sugere aqui o esboço de uma doutrina ou de um conto fantástico a que nunca deu forma final. Posso resumi-lo assim: toda a literatura e toda mitologia e toda as narrativas populares contam, independentemente, acontecimentos diferentes de uma mesma e única biografia; apenas não lemos um número bastante delas para reconhecermos que o homem que retratam é o mesmo. Todas as histórias, de um Ulisses a outro, são descrição parcial das contradições e percalços desse vasto e solitário protagonista.

Todos os homens são um único homem. Com outro vocabulário, Jesus propõe vertigem semelhante: “Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes”.



7 Comentários a respeito de "As biografias do homem"

Pacificador

“Ricardo Reis não se pergunta ‘quem sou?’ mas ‘quem somos?’, e isto faz toda diferença.

Sabendo que nunca terá resposta à primeira pergunta:

‘Sim, sei bem
Quem nunca serei alguém (…)
Que nunca saberei de mim’

Fernando Pessoa encontra nele o consolo numa generalização filosófica:

‘Quem nos conhece, amigo, tais quais fomos?
Nem nós os conhecemos’.

Ricardo Reis tenta reduzir o vazio subjetivo ao ‘nada’ da condição humana em geral, numa racionalização que dói menos do que o sentir individual.

Distanciado, altivo, Reis encarna a suprema utopia da renúncia:

‘Nada nos falta, porque nada somos
Não esperamos nada
E temos frio ao sol’.

Em Reis o desejo é mantido em grau zero:

‘Nada quero’

Que é um ‘não quero querer’.

Só por isso o personagem pessoano pode afirmar:

‘Vivem em nós inúmeros (…)
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados (…)
Disputam quem sou.
Ignoro-os.
Nada ditam
A quem me sei: eu ‘screvo’.



hernan

“não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos”.

Paulo, apóstolo, aos colossenses, capítulo 3, verso 11.

“Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém”.

Paulo, apóstolo, ao romanos, capítulo 11, verso 36.



Manuel Anastácio

Com um verdadeiro acto de fé na unidade humana, venho dizer que, finalmente, já consigo aceder à Bacia! Abraços.



Paulo Brabo

Manuel, comamos e regozijemo-nos, porque o acesso estava perdido e foi achado. Seja bem-vindo de volta.



bete

…não é preciso fazer nada para se estar na alma de tudo… cecília meireles.



Carol (ZoOOm)

Algo como:

…Tudo e todos tem sua origem mais remota em Deus…

O Silmarillion – J.R.R.Tolkien



Farah

Tu és Deus.
(Robert Heinlein, “Um Estranho Numa Terra Estranha”)



Heaven's Radio
 

 
Inquisição


Arquivos
 

Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
Lista de entrega

Clique aqui para receber o conteúdo da Bacia por e-mail